Carreira de Moinhos de Alvarenga abandonados e maltratados. Moinhos de Moldes bem cuidados, um encanto

Os Moinhos do Convento, em Moldes, estão reconstruídos e  bem cuidados.  São um encanto  e são privados pertencem à actual Casa do Ferreiro, junto à Ponte da Fraga

No coração verde de Moldes, onde a serra abraça o vale, há três azenhas, são os Moinhos do Convento que outrora pertenceram ao imponente Mosteiro de Arouca e que foram vendidos em 1867 a Julião Gomes Teixeira, Mestre Ferreiro, o qual deu o nome à actual Casa do Ferreiro.

Glória Gomes Teixeira, actual proprietária e responsável pelo projecto de recuperação dos Moinhos fala com orgulho e paixão por esta obra que decidiu fazer, um legado de família que é também a memória colectiva de um concelho ” Em 1867 foram comprados pelo meu hexavô (6 geração  não  contando os nossos filhos e netos) e desde então ficaram na família”. Havia 3 linhas de moagem, uma linha era só  para a indústria,   as outras duas   laboravam para particulares que pagavam ao alqueire, a chamada maquia, ou pagavam uma anuidade  por um número de horas de moagem que era contratado.

A Recuperação dos moinhos foi financiada com dinheiro Europeu, um investimento total no valor de 18,400€, a proprietária pagou 6.440€

A Professora Glória Gomes Teixeira explicou-nos que surgiu a oportunidade de concorrer a fundos comunitários e decidiu avançar ainda falou com outras pessoas mas ninguém se mostrou interessado “ Não foi muito complicado concorrer, foram restaurados em 2004/2005 através  da Adrimag e co-financiados pelo Programa Leader +. Foi um investimento total no valor de 18,400€, da nossa parte pagámos 6.440€, o restante foi financiado 11.040€ pelo FEOGA e 920€ pela Madrap. Depois da obra feita já houve quem se mostrasse interessado em fazer o mesmo, mas penso que ainda ninguém avançou.”

A Indústria de moagem, que era feita nos moinhos de Moldes, foi criada em 1940

Em 1940 foi criada a Indústria de moagem, há vários documentos que mostram os custos e os valores pagos ao município e ao Estado. O Dono do moinho permitia que outros moessem  em  troca de uma maquia “ podia ser um terço da farinha obtida, podia ser mais,  ou podia ser menos, dependia, sei de casos em que não lhes foi cobrado nada, a Indústria encerrou em 1962 porque começou a haver produção industrial e os moinhos ficaram em desuso”.

Actualmente são património muito valorizado,todas as peças estão a funcionar e podem ser visitados, recebem visitas nacionais e até de eventos internacionais “Até  ao dia de hoje temos  estado sempre disponíveis  e colaborantes  para diversas finalidades e instituições; escolas, ipss, museu, clubes seniores, autarquias, conjunto etnográfico  de Moldes. Também colaboramos  com a autarquia  aquando do 1º fórum  de Geoparques da UNESCO  dos países  PALOP”.

O Rio de Moinhos precisa de ser limpo e cuidado, a água está a desaparecer

Um dos moinhos tem à entrada um bonito Cedro, imponente, como se de uma sentinela se tratasse, foi plantado recentemente mas deu-se bem, o lugar tem um bonito enquadramento, por isso perguntámos,  e se alguém quisesse fazer aqui o seu casamento, seria possível? “E porque não? Seria uma nova experiência. Mas para isso ser mais  atraente, o rio  tem de sofrer uma limpeza como forma de  aumentar o fluxo da água   e proporcionar um ambiente  idílico. Os turistas são  bem-vindos”.

Marcas de tradição, onde podia ser “ cortado o ougado” às crianças

Numa das paredes de um dos Moinhos está gravada uma cruz e uma marca de uma mão infantil, era lá que levavam as crianças que “ficavam ougadas”, colocavam lá mão enquanto era dita uma reza para “cortar o ougado”. Segundo o antigo costume cortava-se o ougado às crianças para lhes devolver o apetite e o brio, cozendo a broa benzida com sete buracos de azeite. Mas há outros pormenores como por exemplo os arcos romanos que mostram bem a antiguidade deste património. Os rodízios já são em metal, porque os de madeira só funcionam se estiverem mergulhados em água, o que já é difícil acontecer porque a água está a desaparecer e o rio a definhar.

Obra feita, o sentimento é de orgulho e satisfação “ o que senti e ainda sinto é  alegria e sonho realizado. Aqui vive-se um estado de contentamento  e a sensação  do dever de preservar  e manter viva a história  dos moinhos como forma de não  deixar  cair no esquecimento  a vida de sacrifício  e de saber dos nossos antepassados”.

Carreira dos Moinhos de Alvarenga, uma dor de alma.

Abandonados e maltratados. São públicos, pertencem à Câmara de Arouca e a comproprietários

A Carreira dos Moinhos de Alvarenga é um dos mais extraordinários e singulares monumentos da engenharia popular portuguesa, mas está ao abandono. Se estivessem recuperados e estivessem a funcionar seriam uma atração turística e cultural. Apesar da sua importância antropológica e do valor patrimonial inquestionável, a Carreira dos Moinhos encontra-se num estado de abandono preocupante, invadida pela vegetação silvestre e com telhados desabados.

Um Crime contra o Património

Edgar Soares, ex-presidente da junta e Presidente da Direcção da Casa do Povo de Santa Cruz de Alvarenga diz-nos que já participou em reuniões numa Associação Europeia (The International molinological Society (TIMS) e que este Património só não está nas rotas turísticas internacionais porque não há interesse “ 1ª tinham que classificar isto como interesse municipal, 2º tentar a classificação como património da Unesco e 3º abrir concurso para a recuperação, com valores reais para alguém aceitar fazer a obra. É que Arouca não são só os passadiços, andam a brincar connosco. Diria mesmo que um abandono destes é um crime contra o património ”.

O Abandono e a Posse Municipal estão a destruir todo o potencial turístico

A Câmara Municipal de Arouca é proprietária da emblemática Casa da Moleira e de três dos moinhos do complexo o que poderia ser um sinal de esperança, mas não parece que o seja tendo em conta a resposta que obtivemos da C.M.A. “De acordo com a escritura celebrada a 25 de junho de 2014, serão propriedade do Município 3 moinhos e a Casa da Moleira. O Município dispõe de um projecto. Chegou inclusive a lançar uma empreitada para a Casa da Moleira. Em 16/8/2022, procedeu à resolução dessa empreitada. Espera uma futura oportunidade para relançamento da intervenção”.

Com esta resposta que não diz nem sim nem não, apenas adia o assunto, ficamos a saber que não há interesse, para já, em recuperar este belíssimo património que faz parte da nossa história e um legado comunitário.

O Potencial Turístico desperdiçado, a memória colectiva ao abandono

Edgar Soares diz-nos que não seria muito complicado pôr os Moinhos nos roteiros turísticos e culturais “ Bastava uma intervenção camarária que limpe os trilhos, recupere as coberturas tradicionais e reponha o curso de água a movimentar os antigos rodízios, criaria um roteiro cultural de excelência. Este espaço tem todas as condições para se converter num ponto de paragem obrigatório para entusiastas de caminhadas, fotografia, turismo etnográfico e pessoas que adoptaram um estilo de vida em que preferem produtos orgânicos, Dessa forma iriamos devolver o orgulho a Arouca e nós estamos preparados para os receber temos camas de alojamento local mais do que suficientes ”. Durante a reportagem fomos acompanhados por um holandês que nos disse que na Holanda os moinhos estão todos a funcionar e a produzir, são mais do que uma atracção turística, também rendem dinheiro até porque  a energia é do vento aqui seria da água.

Os Moinhos funcionavam através de um sistema cooperativo genial

A Carreira dos Moinhos de Alvarenga é um complexo edificado no século XVIII, originalmente composto por vinte e três moinhos de rodízio dos quais restam 17 estruturas visíveis. Dispostos sequencialmente em cascata ao longo de uma acentuada vertente são construídos em pedra de xisto e cobertos por placas de lousa, estas pequenas jóias da arquitectura tradicional funcionavam através de um sistema cooperativo genial: a água, conduzida por uma única levada, movia a mó do primeiro moinho e, ao sair, entrava directamente no moinho seguinte a jusante, multiplicando a força motriz sem desperdício.

A Lenda do Rego do Boi

O canal que alimenta esta obra-prima é indissociável da famosa narrativa popular local: a Lenda do Rego do Boi. Conta o povo que, na Idade Média, os habitantes de Alvarenga e os vizinhos da freguesia de Nespereira andavam envolvidos em violentas contendas pela posse das águas do ribeiro Ardena, vitais para fertilizar os campos. Para cessar as disputas, foi firmado um acordo: a freguesia que conseguisse construir primeiro uma levada e colocar a mó de um moinho a girar ganharia o usufruto total do caudal.

Diz-se que os homens de Nespereira, confiantes na topografia favorável do seu terreno, relaxaram no trabalho. Enquanto isso, os Alvarenguenses utilizaram a astúcia: um homem disfarçou-se de mulher e passou os dias a fiar linho junto ao monte para, de forma secreta, delinear o trajecto ideal da água sem levantar suspeitas. Uma vez traçado o caminho, o povo de Alvarenga uniu-se numa única noite, rasgando a terra e erguendo um moinho provisório antes do amanhecer. Para celebrar esta vitória colectiva, os homens abateram e comeram um boi inteiro, baptizando assim o canal que hoje tem cerca de 2,5 quilómetros de extensão. Agora nos tempos de hoje  e no fim desta reportagem, só me lembro da frase “ Deus dá as nozes a quem não tem dentes”.

Fotos: Carlos Pinho e Simon Bracken

Margarida Ferreirinha

sobre o autor
Margarida Ferreirinha Loureiro
Discurso Direto
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