Factos do Passado XXXVIII: Um Episódio Censório

Estava-se em Abril de 1968. Na redacção do jornal “Defesa de Arouca”, na rua Dr. Figueiredo Sobrinho, (único jornal existente nesta vila, à época), foi recebido, através de uma agência noticiosa, um texto que falava sobre uma reunião da oposição comunista, na então República Federal Alemã.

Naquela época por vezes havia grande dificuldade para se ter assunto para as quatro páginas do jornal, pois não se passava nada em Arouca, além das poucas notícias, muitas vezes de âmbito social, como chegadas e partidas, falecimentos, festas populares e pouco mais.

Assim, no jornal de devia sair a 20 de Abril daquele ano, foi inserido o dito texto (por não haver como preencher o espaço!).

Depois de passar pela Censura, que nada apontou sobre o mesmo ou qualquer outro, imprimiu-se o jornal e despachou-se, como era habitual, para os assinantes, através dos CTT.

Na sexta-feira (a distribuição dos Correios era ao sábado), é recebida uma chamada telefónica do Dr. Joaquim de Pinho Brandão, antigo deputado da Nação e também um dos sócios do jornal, a perguntar se tínhamos recebido esse manifesto, ao que lhe respondemos que sim e que até ia sair no jornal no dia seguinte.

O Dr. Pinho Brandão, muito preocupado, disse, mais ou menos isto: – Não pode sair, pois isso pode melindrar o governo alemão, de que Portugal é aliado. Dissemos: – Mas, sr. Dr., o jornal já está no Correio. Ao que ele responde: – Vão lá buscá-lo e queimem todos os exemplares.

Lá fomos buscar os jornais, que ainda não tinham saído da estação (só no fim do dia é que eram despachados), e fomos fazer o “auto de fé” no antigo Campo das Hortas, perto da redacção do jornal, onde actualmente se encontram umas piscinas do Centro de Promoção Social Rainha Santa Mafalda (Patronato).

Foi tudo queimado, não ficando qualquer exemplar para “recordação”.

Os assinantes naquela semana não tiveram, como habitualmente, o jornal.

Os censores, naquela altura, não detetaram nada de mal naquele texto, mas o regime não queria que o relacionamento com a República Federal da Alemanha, fosse “beliscada” de qualquer forma pois, inclusive, dava apoio aos militares portugueses, que em África, travavam uma guerra.

Da falta do jornal daquela semana, tivemos que dar explicações aos assinantes. A forma que se arranjou, publicada na semana seguinte, foi:

 

PEDIDO DE DESCULPA

Era assim o nosso País.

Hoje, com todas as liberdades, ainda há muito “boa” gente que advoga o regresso ao passado.

Alberto de Pinho Gonçalves

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