XXXIII – A “Farmácia Oliveira”

Nos finais do século XIX, foi criada na vila de Arouca, uma farmácia denominada “Farmácia Oliveira”.

Foi seu fundador e proprietário António Alexandre de Oliveira, natural do lugar da Farrapa, da freguesia de Chave, onde nasceu a 2 de Maio de 1873. Filho de Alexandre José de Oliveira e Maria Rosa de Jesus[1].

O pai, lavrador de profissão, era natural da freguesia de Macieira de Cambra, do concelho de Vale de Cambra (onde há várias gerações, os seus antepassados eram oriundos, na freguesia de São Pedro de Castelões), vindo a falecer a 20 de Outubro de 1921, no lugar da Boavista, da freguesia de Santa Eulália[2], para onde veio residir depois do seu segundo casamento, em 20 de Maio de 1909, com Maria Joaquina, natural do lugar do Pisão, da freguesia do Burgo, onde nasceu a 21 de Outubro de 1878, filha de António Teixeira, canastreiro de profissão, e Joaquina Teixeira.

A mãe, natural do lugar de Regadio, da freguesia de Fiães, do Concelho da Feira (onde casaram a 16 de Abril de 1868, na igreja de Santa Maria de Fiães[3]), era filha de Manuel Soares de Sousa e Vicência Rosa de Oliveira. Veio a falecer a 25 de Dezembro de 1896, na Farrapa[4].

Começou a aprender as primeiras na escola primária, em Arouca, na altura a funcionar no edifício da Câmara Municipal, tendo como professor o padre Bernardino de Pinho Bandeira que, como todos os professores, exerceu uma grande influência nos seus alunos, que os marcaram para toda a vida.

Foi o que aconteceu com António Alexandre de Oliveira, como ele próprio confessa, que o motivou para seguir a sua formação em farmácia.

A 6 de Fevereiro de 1887, com 13 anos, foi para a cidade do Porto, estudar. Com essa idade começou a escrever (para espanto de muitos), para algumas publicações, como “Voz Publica”, “Janeiro”, “Jornal da Manhã”, “Folha Nova” e no “Trabalhador”.

Fez a sua formação com grande sacrifício (pois os pais tinham poucos meios financeiros).

Foi para Coimbra, em finais de 1895 onde, finalmente, conseguiu tirar o seu curso de farmácia, tendo como um dos professores o nosso prémio Nobel, Egas Moniz.

Logo a seguir abriu a sua farmácia em Arouca.

Na sua actividade como farmacêutico teve bastante notoriedade no meio local e nacional, tendo sido distinguido, em 1908, pela Academia Físico-Química Italiana, com a nomeação para MEMBRO DE HONRA, daquela Academia.

Esta distinção causou um grande contentamento em todo o País, com várias felicitações de jornais e pessoas individualmente.

O «Jornal da Sociedade Farmacêutica Lusitana», aludiu ao acontecimento da seguinte maneira:

«António Alexandre d’Oliveira – Alegra-nos sempre qualquer facto, que honre colega ou colegas nossos, e por isso, sentimos grande satisfação, quando tivemos conhecimento, pela imprensa, de que àquele esclarecido farmacêutico havia sido, pela “Academia Físico-Química Italiana”, concedido a medalha de primeira classe e sido nomeado membro honorário da mesma Academia.

Estas distinções foram devidas ao mérito do snr. Oliveira, tão justificadamente comprovado em “A Voz de Portugal”, que se publica em Arouca, e da qual o nosso colega, que não conhecemos pessoalmente, é director e redactor principal».

Tudo isto, num meio pequeno, como Arouca, onde campeava ainda muita ignorância, criaram situações de inveja, nomeadamente nos políticos republicanos locais, que tentaram denegrir o mais possível António Alexandre de Oliveira, que além do mais, era defensor do regime monárquico.

Como empreendedor que era, passados 8 anos, abriu uma oficina de tipografia, na sua residência, onde também tinha a farmácia. Para isso admitiu como director da tipografia o então jovem Henrique Valente de Almeida, que mais tarde, com seus irmãos, viria a fundar uma tipografia e o jornal “Defesa de Arouca”.

 

 

 

 

 

 

 

Logo de seguida, a 4 de Junho de 1904, aparece ao público o jornal “Voz de Portugal” de que era, além de proprietário, também director. Foi o primeiro jornal que se editou e publicou em Arouca, que procurou ser um órgão de informação e dinamizador de cultura, à população, não esquecendo, também de propalar os seus ideais monárquicos, que depois da implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, lhe trouxeram grandes dissabores na sua vida, sendo uma das pessoas mais perseguidas pelos republicanos que tiveram, principalmente nos princípios dos anos 20, como seu principal esbirro, o famigerado sargento Albano Gonçalves.

No primeiro número, na sua apresentação, começou por dizer:

«Mais um periódico que vai correr mundo em busca da luz da publicidade. Não é a vaidade que nos move, mas o desejo de sermos prestáveis, neste meio, tão nobre pela altivez de sentimentos, tão certo pela opulência de vegetação e pelo acidentado da paisagem sob um céu quase sempre de um puro azul, como azul costuma ser a água do lago, do rio e do mar, quando ela é profunda e o tempo é sereno.

O Belo, o Bem e a Verdade são as três grandes leis da vontade humana, que a impulsionam, determinam e subjugara.

Pelo bem, serão elas o nosso guia, o norte que seguiremos, a bússola que nos há-de dirigir, neste mar de paixões que empanam, muitas vezes, as consciências, as mais lisas, que atrofiam as vontades, as mais fortes, que toldam os sentimentos, os mais dignos».

A sua paixão pelo jornalismo, e descrita no mesmo número, noutro escrito, de que respigamos a parte final:

«E esse jornal da nossa paixão, com o título que há tantos anos trazíamos gravado na alma, esse jornal que há-de defender até ao último extremo este concelho, o povo em geral e a Pátria, ei-lo, pela primeira vez, em circulação, para cumprir o seu dever, doa a quem doer, custe o que custar, – «A Voz de Portugal».

Durante a sua existência, pugnou pelo progresso de Arouca, sendo por vezes atacado pelo jornal, seu opositor, entretanto criado, em 1905, «Gazeta de Arouca», de cariz mais republicano, nomeadamente, entre outros casos, quando defendia, através do seu colaborador Elias Soares de Carvalho, a instalação de uma linha férrea que atravessasse o concelho, com ligação à Beira Alta.

Pela sua intervenção na sociedade arouquense e do País, chegou a ganhar uma distinção, no “Concurso Internacional em Madrid, Espanha, de 1907, de que reproduzimos, a imagem da distinção, publicado no jornal.

António Alexandre de Oliveira, também foi poeta, como também mais tarde, alguns dos filhos o foram com grande distinção.

A defesa intransigente dos interesses de Arouca e dos arouquenses, foi sempre o labor de António Alexandre de Oliveira.

Em muitos artigos isso aconteceu. Também o nosso património mereceu a sua atenção. Do muito que escreveu sobre isso, respigamos apenas duas passagens de um escrito publicado a 15 de Fevereiro de 1908:

« Também na cerca do Mosteiro, quando este foi entregue à Câmara, havia grande quantidade de casas, a que chamavam cozinhas do Mosteiro, e foram logo todas mandadas deitar abaixo; vendeu-se toda a telha, que era em enorme quantidade, vendeu-se avultada quantidade de madeira e de pedra aparelhada, das mesmas casas, etc., etc., rendendo tudo isso uma quantia, como bem se compreende, relativamente importante».

E mais adiante:

«Não temos em vista acusar ninguém, só pretendemos que haja emenda, que se evitem novos desperdícios, novos desmazelos, novos favoritismos, novas incúrias, certos escândalos, enormes abusos, grandes poucas vergonhas»[5].

Logo após a implantação da República, o jornal foi logo suspenso, pois a sua “voz” não se revia nos novos “ventos políticos” mas, além do mais, era incómoda para muita gente…

Sobre as perseguições que António Alexandre de Oliveira sofreu entre outros nos dá conta António Tavares dos Reis, natural da vila de Arouca, que ainda viveu essa época:

«Foi um homem de carácter e um grande arouquense. Nos primeiros anos da República, sempre defendeu com ardor a causa monárquica, e fundou um jornal semanal, trazendo-lhe muitos aborrecimentos e desgostos, inclusive quando a Guarda Republicana foi requisitada para se instalar em Arouca, a pedido do chefe político daquela época, o saudoso dr. Ângelo Miranda. Um dia o famigerado sargento Gonçalves intimou o sr. Oliveira a comparecer no quartel da Guarda e qual foi a surpresa após o interrogatório a propósito de um artigo publicado no semanário sobre a República, foi por este déspota agredido e esbofeteado… e estava Portugal em plena democracia»[6].

As tropelias do dito sargento eram tantas, que até os republicanos acabaram por pedir que o mesmo fosse embora de Arouca, acabando também por ser extinto o Posto da GNR, que se encontrava instalado no Mosteiro de Arouca, no primeiro andar, por cima da entrada nobre.

 

Os maus tratos recebidos por parte da dita GNR, naquela época, tiveram como consequência vir a falecer, pouco tempo depois, a 21 de Janeiro de 1926, na sua residência na Praça Brandão de Vasconcelos, deixando na orfandade a sua grande prole de filhos, alguns de muito tenra idade[7].

(Por informação de um neto de António Alexandre de Oliveira, chegou-nos a informação de que o dito sargento Albano Gonçalves, teve um fim de vida bastante triste, tendo-lhe sido amputadas ambas as pernas, acabando em mísero estado).

António Alexandre de Oliveira, casou a 14 de Março de 1905, com Cecília da Conceição, de 30 anos, do lugar de Padrões, da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Grândola, filha de Manuel Dionísio e Maria da Conceição Jorge[8]. Faleceu em 17 de Novembro de 1955, na cidade do Porto[9].

Tiveram:

1-Alexandre, n. 20-2-1898; e f. 19-9-1898, Praça da Vila[10].

2-Olívia de Oliveira, n. 22-9-1899, Praça[11].

3-Camila de Oliveira, n. 25-7-1901, na Praça[12].

4-Minervina Celeste de Oliveira, n. 10-1-1904, na Praça[13].

5-Alexandre, n. 17-8-1907, na Praça[14]. Faleceu 1-3-1909[15].

6-António de Oliveira.

7-Martinha de Oliveira.

De Henriqueta do Beato, natural do lugar de Vilarinho do Monte, freguesia de São Pedro de Manhouce, concelho de São Pedro do Sul, onde nasceu a 1 de Fevereiro de 1880, filha de Joaquim Gomes Beato e Maria Custódia, da Eira. Neta materna de Francisco Nunes e Maria Custódia[16]. Faleceu a 5 de Setembro de 1950, na Boa Vista, Santa Eulália[17].

Tiveram:

8-Miquelina Beato de Oliveira, n. 19-11-1903, Manhouce. Solteira[18].

9-Dorinda, n. 15-7-1905, Manhouce[19].

10-Mariana Beato de Oliveira, n. 4-7-1907, Manhouce[20].

11-Alexandrino de Oliveira, n. 20-12-1910, Praça.

12-Hilário Beato de Oliveira, n. 4-8-1912, Praça.

13-Maria do Céu de Oliveira, n. 24-12-1914, Praça[21].

14-Ilda da Ascenção Beato de Oliveira, n. 10-9-1917, Praça[22].

15-Mafalda de Nazaré Beato de Oliveira, n. 5-2-1920, Praça[23].

16-Hermínio Beato de Oliveira, n. 6-5-1924, Praça[24].

Apesar das dificuldades de toda a ordem, principalmente a de ficarem órfãos de pai e com muitas dificuldades económicas, os seus filhos singraram na vida, ajudando-se uns aos outros, atingindo alguns deles notoriedade no ensino. Também alguns deles tiveram grande projeção na cultura portuguesa.

Alberto de Pinho Gonçalves

Índice referencial:

[1]      ADAVR – Regist. Paroq. freg. Santa Eulália de Chave, Arouca. Livro de Baptismos, n.º 13 (1865/1878), fls. 88 e 88v.

[2]      Jornal Gazeta de Arouca, n.º 516, de 22-10-1921.

[3]      ADAVR – Regist. Paroq. freg. Santa Maria de Fiães, Feira. Livro Misto, n.º 10 (1838/1879), fls. 300v. e 301.

[4]      Jornal Voz de Portugal, n.º 30, de 24-12-1904.

[5] Jornal A Voz de Portugal, n.º 190, de 15-2-1908.

[6]      Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 2028, de 15-3-1996.

[7]      Jornal Defesa de Arouca, n.º 4, de 23-1-1926.

[8]      ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Bartolomeu de Arouca. Livro de Casamentos, n.º 146 (1905), fls. 3 e 3v.

[9]      Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 33, de 24-12-1955.

[10]      ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Bartolomeu de Arouca. Livro de Baptismos, n.º 111 (1898), fls. 5.

[11]      ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Bartolomeu de Arouca. Livro de Baptismos, n.º 113 (1900), fls. 2v.

[12]      ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Bartolomeu de Arouca. Livro de Baptismos, n.º 111 (1898), fls. 5.

[13]      ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Bartolomeu de Arouca. Livro de Baptismos, n.º 137 (1904), fls. 14.

[14]      ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Bartolomeu de Arouca. Livro de Baptismos, n.º 114 (1901), fls. 12v.

[15]      Jornal Gazeta de Arouca, n.º 185, de 6-3-1909.

[16] ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Pedro de Manhouce, São Pedro do Sul. Livro de Baptismos, n.º 1 (1819/1881), fls. 378v. e 379.

[17]      Jornal Defesa de Arouca, n.º 1263, de 9-9-1950.

[18] ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Pedro de Manhouce, São Pedro do Sul. Livro de Baptismos, n.º 4 (1901/1911), fls. 41v.

[19] ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Pedro de Manhouce, São Pedro do Sul. Livro de Baptismos, n.º 4 (1901/1911), fls. 63v. e 64.

[20] ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Pedro de Manhouce, São Pedro do Sul. Livro de Baptismos, n.º 4 (1901/1911), fls. 85v. e 86.

[21]      Jornal Gazeta de Arouca, n.º 173, de 20-2-1915.

[22]      Jornal Gazeta de Arouca, n.º 264, de 18-11-1916.

[23]      Jornal Gazeta de Arouca, n.º 450, de 10-7-1920.

[24]      Jornal Gazeta de Arouca, n.º 653, de 5-7-1924.

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