XXIII – O “REI VANDALHO”

Foi uma das figuras típicas de Arouca, na segunda metade do século passado, conhecido pela alcunha de “Rei Vandalho”.

De seu nome José Pereira Marante. Nasceu a 11 de Maio de 1906, no lugar de Aveleda, da cidade de Penafiel[1].

Era um “sem abrigo”, que deambulava pela vila de Arouca, vivendo da mendicidade.

Figura descarnada também, por isso, o chamavam “Zé Caveira”.

Viveu durante muitos anos na vila de Arouca.

Um dia, as autoridades administrativas, resolveram interná-lo no albergue distrital, em Aveiro, onde esteve alguns anos.

Quando se lhe deparou oportunidade fugiu; e como o “bom filho à casa torna”, veio novamente ter a Arouca.

Viveu alguns anos na rua da Ribeira, numa casa velha, onde hoje existe o estabelecimento “Casa Primavera”.

Certo dia, quando estava na enxerga onde dormia, a fumar, involuntariamente chegou o fogo à palha da dita, acabando por arder o pardieiro onde se albergava.

Isto levou alguém a inventar e cantarolar:

 

«Estás arrumado ó “Zé Caveira”

Que alvoraçaste a vila inteira.

Até o povo que estava a rezar,

Deixou o padre e puseram-se a acelerar…»

 

«Quando chegaram

Não viram nada,

Só viram o fumo

E a palha queimada».

 

Mais tarde foi “viver” para outro pardieiro arruinado, na rua do Beco, em frente à «Casa Testinha», que tinha um pequeno quinteiro à frente (onde hoje se encontra um prédio de apartamentos e estabelecimentos comerciais). Nessa ruína, alguém escreveu na porta de entrada, em letras garrafais: “Entra Rei”.

Um dia, munido de um pequeno fio que existia nos estabelecimentos comerciais, dependurado do teto, para embrulhar as mercearias, atou um desses fios (que eram finos e muito frágeis, que se partiam facilmente com a mão) com uma das pontas presa a uma trave e a outra ao seu pescoço, colocando-se em cima de uma folha de jornal; e então começou a gritar: – eu vou-me enforcar.

Aos seus gritos acorreram várias pessoas a quem ele dizia: – eu quero morrer, tirem-me o jornal debaixo dos pés para eu me enforcar.

As pessoas começaram a desatar às gargalhadas, pelo insólito, mas era uma das características do “rei vandalho”, para fazer humor.

A troco de alguma coisa pediam-lhe que desse uma enorme gargalhada. Ele abria muito a boca e parecia que a gargalhada vinha realmente de uma caveira.

Acabou por falecer em Arouca, a 22 de Novembro de 1968, tendo o jornal local dado a notícia da seguinte maneira:

 

«Morte do “Rei Vandalho”

 

Ocorreu no passado dia 22, no Hospital da Misericórdia desta Vila, o falecimento de José Pereira Amarante, mais conhecido por “rei vandalho”, alcunha de que ele próprio se orgulhava.

Contava 62 anos de idade, e era natural do concelho de Penafiel.

Foi um homem que levou quasi toda a sua vida a mendigar, tendo estado internado no Asilo de Mendicidade do Albergue Distrital de Aveiro, mas como naturalmente gostava da liberdade, não esteve lá muito tempo. Foi um individuo a que se pode chamar “um pobre diabo”.

O seu corpo ficou “arrumado” no cemitério paroquial desta vila.

Paz à sua alma»[2].

 

[1] Era filho de António Pereira Marante, cocheiro, natural da freguesia de Santo Ildefonso, Porto, e Maria Rosalina, natural da freguesia do Mosteiro, concelho de Viana do Castelo, recebidos em São Mamede de Infesta, Matosinhos. Neto paterno de António Pereira Marante e Maria de Jesus Pereira; e materno de Carolina Augusta da Cruz. (A.D.P. – Regist. Paroq. de Penafiel. Livro de baptismos, n.º 64, fls. 42).

[2] Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 686, de 30-11-1968.

sobre o autor
Alberto Pinho Gonçalves
Discurso Direto
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