
A pouco menos de um ano da implantação da democracia em Portugal (com o golpe militar de 25 de Abril de 1974), o então Presidente do Conselho de Ministros, Prof. Marcelo Caetano, deslocou-se ao Distrito de Aveiro, onde visitou, além de Aveiro, os concelhos de Vagos, Espinho e Ovar, em visita de trabalho governamental.
No último dia dessa visita, 24 de Junho (domingo), presidiu ao I Plenário Distrital da Acção Nacional Popular (partido de suporte da ditadura).
A cerimónia começou logo de manhã, com uma sessão política no antigo Teatro Avenida, na avenida Dr. Lourenço Peixinho, com a presença de destacados elementos locais e nacionais do dito partido, como o Governador Civil de Aveiro, Dr. Francisco José Rodrigues do Vale Guimarães; o Prof. Dr. Mário Júlio de Almeida Costa, Ministro da Justiça; Dr.ª Clementina Vasconcelos, membro da Comissão Central da ANP; Dr. Fernando de Oliveira; os Deputados, Drs. Veiga de Macedo, Cancela de Abreu, Homem de Melo, Homem Ferreira e Manuel Soares; o Conselheiro Dr. Albino Soares dos Reis; o prof. Dr. Afonso Queiró; Dr. Castelino e Alvim e o nosso conterrâneo Dr. Joaquim de Pinho Brandão, além de outras mais pessoas.
Abriu a sessão o Dr. Fernando de Oliveira, que depois cedeu a palavra ao Eng.º José Gamelas Júnior, Presidente da Assembleia Distrital[1].
A sala estava repleta de participantes, pois de todos os concelhos do Distrito, foram delegações para participar no evento, nomeadamente das autarquias locais.
De Arouca, foram praticamente todos os elementos das Juntas de Freguesia, além de outras pessoas apoiantes da situação política vigente.
A Junta de Freguesia de Arouca, na altura era constituída por Manuel dos Santos Teixeira de Sousa (Cavadinha), Presidente; Arlindo Augusto Soares de Matos, Secretário; e Eduardo Teixeira de Sousa Mealha, Tesoureiro, também não poderia faltar ao evento.
A deslocação a Aveiro foi feita por conta dos participantes, nas suas viaturas particulares, ou de pessoas amigas, que para tal se dispuseram.
No dia anterior ao evento, o elemento da Junta de Arouca, sr. Eduardo Teixeira de Sousa Mealha, informou os outros elementos que não poderia ir, por motivo da sua filha Silvina, se encontrar doente.
Tal situação causou ficar um lugar vazio no automóvel do sr. Joaquim Gonçalves Pinto (Pinto da “Mata”), onde iria aquele elemento da Junta.
Então insistiram comigo para preencher esse lugar (era mais um na manifestação). Sem ter qualquer interesse ou perceber alguma coisa da política (pois, naquela idade, ainda não dava para perceber o que se passava com a situação política do País), lá acompanhei a comitiva.
No final da manhã, depois da sessão política, todos os participantes se dirigiram (julgo que para os lados de São Bernardo), para um pavilhão industrial em fase final de construção, propriedade de José Gamelas Júnior, para o almoço.
As mesas foram improvisadas com umas tábuas, em cima de cavaletes, para servirem o dito.
No topo do pavilhão, num estrado mais elevado, talvez com cerca de 50 centímetros, com mesa também improvisada, ficaram o Professor Marcelo Caetano e demais elementos da comitiva.
A dada altura, quando falava o Professor Marcelo Caetano, algumas tábuas do estrado abateram, tendo o Presidente do Conselho de Ministros, juntamente com alguns elementos que estavam mais próximos de si caírem, perante o espanto de todos os presentes.
Marcelo Caetano levanta-se, sorrindo, e diz mais ou menos isto: «eles querem que a gente caia (oposição), mas nós não caímos». Tinha acabado de dizer isso e… tornou a cair.
O nosso conterrâneo, Dr. Joaquim de Pinho Brandão, que estava mais afastado, não caiu, mas para tal teve que se agarrar a uma “tricana”, que estava ao seu lado, vestida com o traje a rigor.
Depois de tudo recomposto, o almoço decorreu normalmente, sendo servido umas batatas estofadas com carne.
Segundo se apurou, o estrado mais elevado estava assente em estacas, que se afundaram no terreno que ainda estava em terra batida, apertada apenas por um cilindro. Como o estrado estava no topo, o cilindro não compactou bem o mesmo, e daí as estacas terem-se enterrado, não suportando o “peso” daquelas pessoas. «Algumas tábuas ruíram e isso apenas significa que a terra, isto é, os apoios não estavam bem apertados e eram permeáveis em demasia pela proximidade da parede»[2].
Como disse acima, passado cerca de um ano, deu-se a mudança de regime. Uma grande parte dos presentes, “viraram a casaca”, apressando-se a inscrever-se nos partidos políticos, que entretanto surgiram, principalmente no Partido Socialista.
Essa atitude foi muito caricaturada naquela época.
Muitas das caricaturas publicadas, alusivas à “revolução dos cravos”, foram feitas pelo arquiteto e pintor João Abel Manta, de que reproduzimos abaixo uma das mais expressivas, sobre os “vira-casacas”.
Tudo isso faz-me lembrar uma frase do saudoso P.e Américo Vilar, que dizia: «só os burros é que não mudam…».
[1] Jornal Litoral, n.º 968, de 30-6-1973.
[2] Jornal Litoral, n.º 969, de 7-7-1973.
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