Factos do Passado XXXIV – O Assalto à Capela de Santo António

Na década de sessenta, do século passado, algum do património religioso da freguesia de Arouca estava em completo abandono e avançado estado de ruína, principalmente as capelas de São Pedro, São Sebastião (mais conhecida por São João), Espírito Santo, no Calvário, e a de Santo António, mesmo frente aos Paços Municipais.

Tal estado levou a que António de Jesus dos Santos, do Porto, fosse tentado a assaltá-la para lhe retirar as imagens que lá se encontravam.

Na altura a capela tinha uma sacristia, do lado sul, que comunicava com a capela-mor. A mesma sacristia, por sua vez tinha uma porta para o exterior, virada a poente.

Assim, na noite de 9 para 10 de Abril de 1967, o dito António de Jesus Santos, retirou da mesma a imagem de Santo António (o santo de seu nome).

Logo de manhã, com o “santo” embrulhado em papel, o Santos dirigiu-se para o autocarro da União Rodoviária do Caima, da carreira Arouca-São João da Madeira (que na época ficava na avenida, defronte ao Mosteiro), com a respectiva encomenda.

O cobrador da carreira, José de Sousa Duarte, “Zé da Barca” (já há vários anos falecido), desconfiou da “encomenda”, talvez por a imagem, que ia embrulhada em papel, levar “os pés de fora” (como foi depois muito comentado), desconfiou e foi dentro do escritório, telefonou para o escritório da empresa, em São João da Madeira, para solicitar estar aí à espera da carreira a GNR. Assim aconteceu e o autor do roubo foi logo detido e entregue às autoridades judiciais.

Sobre o sucedido, o «Jornal de Notícias», do Porto, dá a seguinte notícia:

 

«CAPELA ABANDONADA – santos roubados

Na vila de Arouca, mesmo em frente ao edifício dos Paços do Concelho, ergue-se, desde os princípios do século XVII, a capela de Santo António, fundada por Jorge de Almeida Cabral, da Casa de Bragança.

É uma ermida de conjunto arquitectónico simples, mas encantador.

Foi pela primeira e talvez única vez restaurada no ano de 1756 altura em que ali se instalou a Irmandade da Ordem Terceira da Penitência (hoje Ordem de São Francisco). Mais tarde, no ano de 1890, por virtude da extinção e demolição da capela de Nossa Senhora das Dores que existiu no canto da Praça, foi também para ali transferida a respectiva confraria.

Naquela capelinha sempre houve festividades religiosas até há cerca de 30 anos, sendo então votada ao abandono.

Há dez anos desapareceu dali uma pequena imagem de pedra, pelo que as outras, também muito valiosas foram levadas para o Museu de Arte Sacra, instalado no Convento de Santa Maria. Só lá ficaram as maiores e mais pesadas.

Depois deste roubo, o pároco da freguesia e vigário da vara mandou colocar na capelinha uma porta na entrada principal, mas esqueceu-se de fazer o mesmo na lateral que dá acesso à sacristia onde por um buraco existente nessa porta, a garotada entra e sai, metendo lá todas as porcarias que encontra na rua. O telhado, esburacado, além de ameaçar ruína, deixa que chova no interior.

Foi, naturalmente, devido a este estado de coisas, que António de Jesus dos Santos, de 27 anos, empregado no comércio e residente na Rua da Alegria, nesta cidade, furtou da capelinha um Santo António e dois anjos que decoravam o altar e ainda algumas jarras…

Quando viajava na camioneta da carreira Arouca-Porto, o cobrador do veículo, sr. José de Sousa Duarte, desconfiou da bagagem do estranho passageiro e alertou a G. N. R. que deteve o Jesus dos Santos obtendo facilmente dele a confissão deste roubo e ainda de um outro também de um santo da mesma capela, há cerca de um mês.

O larápio foi entregue ao poder judicial

 

O Santos, esteve a cumprir a pena nas cadeias desta vila, tendo a simpatia da população, devido às suas qualidades artísticas e sociais.

Na prisão entretinha-se a fazer diversos objectos em gesso, como candeeiros e imagens de Cristo, além de outras mais (algumas até de certa brejeirice), que eram adquiridas por algumas pessoas.

O carcereiro Orlando Augusto Clemente Ribeiro, que tinha com ele um bom relacionamento, fazia-lhe chegar os materiais necessários.

 

 

Depois de “casa roubada trancas à porta”, foi a capela sujeita a obras de restauro, que apenas só visou a demolição da sacristia, em 1968, pintura exterior e o telhado; e as respectivas portas, depois de um pedido feito pelo pároco da freguesia, padre Adriano de Sousa Moreira, para o Estado comparticipar nas obras. Foi uma comparticipação de 40% confirmada por ofício de 28 de Abril de 1967, do Comissariado do Desemprego. Os projectos foram elaborados pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, criando-se então duas comissões para as obras; uma masculina para Santo António, e outra feminina para o Espírito Santo.

Alberto de Pinho Gonçalves

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