
A propósito do 25 de Abril em Arouca, recuperamos algumas passagens do estudo “Vai depressa, que houve uma revolução. Não vou, estou de licença!”: Mansores (Arouca) antes, durante e depois de abril de 1974, de José António Rocha, que ajuda a enquadrar o modo como a Revolução foi sentida no concelho. Pela relevância do registo, passamos a transcrever algumas partes do texto:
“(…) Na manhã desse dia “… andavam o Nelson e o Abílio a lavrar no campo dos Preseirões e a Maria Júlia veio das Agras dar a notícia de que houvera uma revolução, e disse ao Nelson, que na ocasião estava de licença da tropa: ‘Vai depressa!’, ao que este respondeu: ‘Não vou. Estou de licença!’”.15 E não foi mesmo. Só se apresentou no quartel quando terminou a licença.”
(…)
Regressemos a Mansores. A notícia do golpe militar chegou à freguesia através da rádio. Segundo testemunhos orais que recolhemos (não há registos textuais, sonoros ou gráficos coevos), o sentimento foi de apreensão e temor. “O povo ficou assustado…”, “Ai, Jesus…”, suspirava-se, segundo nos relataram. Nada que se assemelhasse aos festejos havidos nas grandes cidades.
(…)
Segundo testemunhou, no dia 25 de abril,
“levava o leite ao posto e tive informação (…) que tinha havido uma revolução em Lisboa (…) essa revolução, de certa maneira, dizia a senhora, era uma guerra civil e tinha interferência direta na cidade do Porto. Eu (…) tinha familiares na altura na cidade do Porto (…) Esses familiares estavam em perigo, que ia acontecer uma revolução no Porto e iam destruir a ponte D. Luís. O exército (…) tinha ordens precisas para bombardear a ponte D. Luís (…) Isto criou grande celeuma dentro da família, preocupação (…) e depois na passagem por casa de um familiar que na altura tinha televisão, a primeira coisa que constatámos é que o televisor dizia ‘última hora’ e essa era uma mensagem muito forte (…)”
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Ao nível do concelho parece que as novas já chegaram velhas. É que o único jornal em publicação no concelho e, portanto, o que mais penetração tinha nas casas da freguesia, o semanário Defesa de Arouca – fundado em 1926 e alinhado com o regime –, com publicação aos sábados, omitiu qualquer menção à revolução na sua edição de 27 de abril.
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Só a 4 de maio o jornal noticia a revolução, sob um editorial “Viva Portugal!”21, claramente defensivo e sem qualquer comprometimento ideológico com a nova ordem.”
(…)
A fonte textual mais próxima da qual se pode tentar inferir o ambiente local vivido nos meses que se seguiram à revolução é a imprensa local. Por exemplo, o já referido jornal Defesa de Arouca, a 11 de maio noticia a substituição do diretor, a 18 de maio noticia a realização de um comício em Arouca, a 22 de junho noticia a demissão do presidente da Câmara Municipal, a 13 de julho refere-se a um comício havido na freguesia de Canelas (a 30 km de distância de Mansores), mas nestes e nos meses seguintes nada noticia sobre ações ocorridas na freguesia de Mansores e relacionadas com a mudança de regime.
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Num louvável exercício de registo de memória social sobre a construção do movimento camponês nas regiões do Centro e Norte nos meses e anos que se seguiram a 25 de abril de 1974, Vasco Paiva menciona por diversas vezes ocorrências e envolvimentos das comunidades do território de Arouca no contexto do movimentos e organizações de agricultores dos anos 1974 a 1975. “Em 1 de junho [de 1974] realizou-se um comício popular em Arouca, com a presença de 1.000 pessoas, dirigido pelo Padre João Rodrigues (…) em que exigiram a devolução dos baldios.” (…)”
Este trabalho, de autoria de José António Rocha, está disponível na íntegra online.

Foto: Carlos Pinho

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