
Na União de Freguesias de Canelas e Espiunca foi erguido um monumento aos ex-combatentes do Ultramar. Foi inaugurado há quase dois anos com a Pompa e circunstância que o momento exigia e reuniu mais de cem ex-combatentes que ainda habitam na freguesia. E é aqui que este monumento começa a ter uma particularidade que o distingue dos outros, em Canelas e Espiunca foram à Guerra e voltaram todos vivos. Publicamos a lista desses homens que partiram em momentos diferentes para uma Guerra distante mas que era nossa, uns deixaram família, outros casamentos prometidos e alguns deles jovens solteiros ainda em começo de vida, todos descobriram da pior maneira aquelas que tinham sido as nossas colónias. Era assim e não tinham opção, a guerra era portuguesa e quando chamados tinham que ir, foram 13 anos de guerra até que Portugal lhes deu a independência em 1975.
O Sr. Neca, foi o primeiro a ir, por razões de saúde não falámos com ele para esta reportagem. O último foi o Sr. Serafim Abreu, falou connosco numa manhã de domingo, em dia de tempestade e falou com um sorriso, diria mesmo com orgulho. Houve momentos durante a conversa que a expressão facial se alterou, baixou os olhos, fez pequenas pausas, certamente por memórias que é melhor não lembrar, mas continuou e fez questão de dizer “não era tudo mau, também houve momentos bons, até fui à praia e a discotecas quando já estava em Luanda“.
Serafim Abreu tem 72 anos, é Natural de Canelas, sabe de cor a data em que foi chamado, 6 de maio de 1974, foi para Aveiro, depois para Tomar e seguiu para Angola, antes de partir teve um período de exercícios em Ourém.
Perguntei se ainda se lembrava do que sentiu quando entrou no avião militar às 11h da noite, respondeu que não teve medo porque encarou a tropa como um trabalho “mas tive dois milagres, podia ter ido, mas não era a minha vez, não era o meu destino e ainda por cá ando“.
Durante a nossa conversa Serafim Abreu tinha a boina colocada e o casaco vestido, diz quem o conhece que se começar a falar dos tempos de soldado, tem muitas histórias para contar: “Em Angola fui para o mato, para Nambuangongo, onde rebentou a guerra cível entre eles, aquilo era só mosquitos, meu Deus! E nas tendas chovia tanto lá dentro como lá fora, estive lá quatro meses. Estávamos numa zona que era um buraco, à volta só montanhas, fomos render outra companhia, a minha era a 3ª Companhia de caçadores, do Batalhão 4511/74. Naqueles quatro meses só lá estávamos nós, depois fomos chamados para Luanda porque iam dar a independência. Tivemos que transportar todo o material e foi aí que tive o meu primeiro milagre. Eu deveria ter ido numa carrinha “Berliet” e à última hora mandaram-me para outra. A carrinha onde eu deveria ter ido tombou, um acidente grande , morreram três, percebi que a minha hora ainda não tinha chegado… Cheguei a Luanda e aquilo era um luxo para quem vinha do mato, um bom quartel mas foram sete meses de muita luta, houve muitos mortos na cidade, estávamos a lutar com o MPLA e com a FNLA. E foi lá que vivi outro milagre. Eu tinha lá uma tia que tinha um café e fui lá visitá-la, fui apanhado pela FNLA, apontaram as armas e eu com muito cuidado reagi, falei da minha tia, do café , falei de coisas que eles conheciam e lá me deixaram passar.”
Quando ouvimos estes relatos de acontecimentos distantes, por vezes nem nos apercebemos que estamos a falar de acontecimentos terríveis; guerra, mortes, ferimentos e traumas que ficam para toda a vida. Perguntei se costuma sonhar com a guerra, Serafim Abreu respondeu de imediato “ sim, sonho muito com a guerra, não se esquece”.
Regressou a canelas a 8 de outubro de 1975, voltou para o mesmo patrão a trabalhar como pedreiro, ao fim de dois meses a empresa foi à falência, ficou sem trabalho mas não ficou parado, decidiu abrir uma empresa com o irmão “começamos sem nada, só com uma motorizada, trabalhámos muito, carregávamos tudo às costas, três anos depois comprámos uma camioneta de 3 mil kg”. Actualmente já se pode dar ao luxo de descansar de uma vida cheia. Tem dois filhos e quatro netos, vivem todos perto “eu consegui recuperar a minha vida, não tenho traumas que me impeçam o dia a dia”.
O monumento aos ex-combatentes foi um projecto meu e do meu colega mais antigo, andámos 5 anos para conseguir. A Junta pagou tudo e até fez um almoço, foi uma festa bonita! Foi sim senhor.

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