Sempre foi hábito, em Portugal e noutros países, usar-se o fim de semana para ver um filme, descansadamente, no sofá ou na cama. Seja um velho clássico ou um filme de ação, o fundamental é escolher algo que nos entretenha. O mesmo se aplica a um jogo de futebol e, ainda que estivessem conjugados todos os ingredientes para menorizar esse espetáculo, como o clima e o horário, certo é que quem se deslocou no domingo à noite ao Estádio Municipal de Arouca assistiu a um digno filme de ação de proporções épicas.
O FC Arouca nada mais foi do que o renomado ator Tom Cruise, na saga Missão Impossível, onde este avança destemidamente na direção do seu inimigo e consegue tornar o impossível em possível: pouco antes do intervalo, o FC Arouca registava dificuldades em impor-se dentro de campo, mas o 1-2 a poucos segundos da ida para os balneários impulsionou a reação dos Lobos de Arouca. No segundo tempo, nem a chuva nem o vento foram mais fortes que a capacidade de reação dos comandados de Vasco Seabra, que consumaram a reviravolta (3-2), de proporções épicas e históricas.
Isto porque, pela primeira vez, o FC Arouca conseguiu vencer o Vitória de Guimarães no Estádio Municipal de Arouca, algo que nunca tinha acontecido nos passados 9 jogos (8 para a Liga, 1 para a Taça de Portugal) disputados em terras de Santa Mafalda. Além disso, pela primeira vez na 1ª Liga, o FCA conseguiu recuperar de uma desvantagem de 0-2 e transformar isso numa vitória.
É bem visível o crescimento da equipa como um todo, mas, dentro desse todo, há registos individuais que merecem um destaque especial.
Começamos por referir Alfonso Trezza, que mantem o seu crescimento e já superou os números das épocas anteriores: ao marcar frente ao Vitória, assinou o seu 7º golo na época. Aliados às 4 assistências que já deu, Trezza já superou os números da temporada passada (6 golos e 2 assistências) e também da 1ª desde que chegou a Arouca (1 golo em 29 jogos). Como aqui já referimos, o extremo uruguaio, aos 26 anos, vive o seu melhor futebol, tendo refinado as características que já lhe eram conhecidas (velocidade supersónica e um remate fácil – por isto, entenda-se que Trezza consegue, do nada, “sacar” um remate à baliza – e forte) a um maior discernimento tático, podendo desdobrar-se entre manter-se encostado à linha, mas também aparecer nas costas do ponta de lança, mais centralizado, substituindo-o várias vezes. Foi precisamente ao surgir nesse espaço que fez o 1-2 e onde tem dado muito trabalho às defensivas adversárias.
Por falar no centro do ataque, Barbero tem sido justamente o dono desse posto, dado o crescimento exibicional: depois de toda uma primeira volta sem marcar qualquer golo, ontem chegou ao 3º golo nos últimos 4 jogos. Vai tendo também uma maior presença, na área e fora desta, demonstrando um bom jogo de costas para a baliza, particularmente no jogo aéreo e na capacidade física de se bater com as cargas que os defesas adversários lhe aplicam.
Nas costas do ponta de lança, surge também Lee Hjunju. A contratação mais cara da história do FC Arouca, vindo do Bayern Munique, tem aberto o livro, revelando enorme qualidade, especialmente no drible. Depois do golo frente ao Rio Ave, na receção ao Vitória de Guimarães, conseguiu reter a posse em momentos atribulados, conduzindo-a calmamente por caminhos apertados. Foi oportunista, ao conseguir fazer o golo da reviravolta no segundo tempo. Segundo jogo consecutivo a marcar.
Uma última menção especial a Jose Fontán. Se, na primeira volta, foi um dos principais rostos do registo defensivo bastante aquém dos arouquenses, certo é que tem vindo a mostrar-se ao mesmo nível com que se destacou precisamente na 2ª volta do campeonato na época passada. Regressou ao centro da defesa, onde tem feito boa dupla com o compatriota Javi Sánchez, e, para além da enorme capacidade defensiva, tem tido ligação direta com os golos: isto porque Fontán tem 3 assistências nos últimos 3 jogos. Frente ao Sporting e ao Rio Ave, tocou de cabeça para os colegas marcarem. Mas contra o Vitória, evidenciou-se com um passe larguíssimo que, com a ajuda da má abordagem de Miguel Nóbrega, colocou Trezza na cara do golo. Um passe para ver e rever!
Mas, como referimos inicialmente neste segmento, o destaque é coletivo e, por isso, não é possível ignorar a boa forma em que os restantes atletas que iniciaram o encontro tem mostrado. Arruabarrena, Esgaio, Javi Sánchez e Bas Kuipers, cada um à sua maneira, trouxeram estabilidade e maturidade ao setor defensivo, que muito sofreu esta temporada. Destacar que, nos últimos 8 jogos, conseguiram não sofrer qualquer golo em metade destes (4).
No meio campo, à qualidade já conhecida de Fukui no passe e na progressão, juntou-se a “fome de recuperar a posse de bola” de Espen van Ee. Por fim, Djouahra, que assistiu o golo de Barbero, mantém-se igual a si próprio, com imensa qualidade com a bola no pé, num ataque que marcou em cada um dos últimos 6 jogos.
Com as boas exibições a conseguirem aliar-se a bons resultados, o FC Arouca vive a melhor fase da temporada, tendo somado 14 pontos nos últimos 8 jogos. Nos últimos 4 encontros, venceram 3 destes, perdendo apenas contra o Sporting e, ainda assim, conseguiram conquistar e segurar o empate até ao último lance desse jogo.
Com 23 pontos e estando tranquilamente no 12º lugar, o próximo adversário dos arouquenses é o Casa Pia, 15º classificado e uma equipa que costuma ser uma pedra no sapato, mas que, em caso de vitória, os Lobos de Arouca vão definitivamente distanciar-se dos últimos lugares da tabela (são agora 4 os pontos que separam as duas equipas) e lançam-se para a disputa por lugares mais cimeiros.

Fontán e Trezza fabricaram o 1-2, golo que catapultou o FC Arouca para a reviravolta
Simão Duarte
Fotos: Pedro Fontes – FCA e Liga Portugal

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