O desporto sénior já chegou aos 300 utentes entre Escariz e Arouca, mas há lugar para mais

Entrevista a Cláudia Oliveira, vice-presidente com os pelouros desta área

Em Arouca, tal como no resto do país, a população está a envelhecer, o que obriga a autarquia a dar mais atenção ao envelhecimento saudável. Assim, entrevistamos Cláudia Oliveira, vice-presidente do atual executivo que tem os pelouros do Desporto e Lazer, Saúde e Desenvolvimento Educativo e Social.

Discurso Directo (DD): De que forma o envelhecimento da população arouquense influência a política desportiva do Município?

Cláudia Oliveira (CO): “O envelhecimento é um facto. E sendo um facto, temos de lidar com ele, em todas as suas vertentes. Não é uma característica única do nosso concelho, é uma realidade europeia.

E o envelhecimento ativo tem sido trabalhado pelo Município em diversas áreas. Desde logo, pelo fortalecimento da literacia digital, que é necessária nos nossos seniores, o combate ao isolamento, e também muito o respeito pela vontade dos nossos seniores naquilo que é a última etapa de vida deles. Portanto, o que é que eles querem fazer? Nós damos a possibilidade de várias ofertas, mas temos de respeitar sempre aquilo que os seniores querem fazer, nada pode ser imposto. 

E isto está refletido no nosso Plano Gerontológico, na nossa Carta Social, na nossa Estratégia Municipal de Saúde. Estes documentos estratégicos do Município abordam a temática do envelhecimento ativo e, claro, indo ao encontro da questão, no envelhecimento ativo, que engloba o desporto. Porque a atividade física promove saúde e este envelhecimento ativo. Sabendo disso, nós vamos fazendo aqui determinadas iniciativas sempre com o foco neste envelhecimento ativo da população.

As nossas políticas vão ao encontro deste facto e por isso mesmo é que ele também está plasmado nestes documentos estratégicos que vão orientando também a nossa ação política. Porque nós só podemos tomar medidas tendo em conta um diagnóstico feito e o levantamento das necessidades que acabam por mostrar todas as ramificações deste facto que é o envelhecimento da população.”

Discurso Directo (DD): Dentro das atividades desenvolvidas, que modalidades de desportos estão atualmente disponíveis para a população sénior em Arouca?

Cláudia Oliveira (CO): “Nós temos, para além de modalidades em si, temos também outras vertentes. Desde logo, os torneios de boccia e as Olimpíadas Seniores, que vamos tentar fazer este ano. E temos modalidades no nosso Complexo Desportivo, que são acessíveis aos seniores e para as quais têm desconto associado na taxa dos complexos. Só para terem uma noção, eu fiz aqui o levantamento destes dados, porque acho que os números refletem um bocadinho melhor o trabalho que não é só do executivo, é das equipas do Município, neste caso das equipas de desporto.

No Complexo Desportivo de Arouca, nós temos 130 utentes com idades superiores a 65 anos inscritos. E no Complexo Desportivo de Escariz temos 170 utentes. Portanto, são muitos utentes sénios que se inscrevem nos complexos e que utilizam a oferta que nós temos. Sendo que há aqui taxas reduzidas para contexto de sala de aula ou para atividades de grupo solicitadas pelas IPSS.

Se as IPSS solicitam atividades de grupo nos complexos desportivos e levam o seu próprio professor, o acesso é gratuito. Portanto, há também aqui uma política de incentivo, por assim dizer, para que estes seniores pratiquem desporto e que utilizem os nossos complexos. 

Depois temos a modalidade do walking football. O desafio foi-nos lançado pela Federação Portuguesa de Futebol e nós desafiamos outra coletividade local (Centro Juvenil), com o apoio do Município, a implementar a modalidade. É uma coisa nova, contou também com o cunho de um arouquense na sua implementação na Federação Portuguesa de Futebol, o João Brito, que insistentemente também vai falando connosco e vai tentando perceber o ponto de situação.

E nós, em colaboração com o Centro Juvenil, fomos implementando e continuamos a tentar implementar. Sendo que é uma modalidade nova, é difícil os primeiros passos, porque a tendência é as pessoas jogarem futebol como sempre viram jogar e o walking football não se trata disso. 

Para além disto, desenvolvemos a nossa app dos complexos desportivos, que está acessível a toda a gente e demos ações de formação aos nossos seniores da sala sénior do município, dos projetos dos clubes seniores, para poderem usar a app. Tem alguns vídeos que exemplificam algumas atividades que podem ser feitas simplesmente para desenferrujar os membros, para ter o corpo ativo. 

Temos também o projeto Diabetes em Movimento, com o apoio do município e em parceria com a ULS Entre Douro e Vouga, mais concretamente através da UCC de Arouca, em que nós disponibilizamos um técnico de desporto que, em conjunto com uma enfermeira, promove sessões de atividade física direcionada para os diabéticos, sendo que estes diabéticos são encaminhados para o programa pelo seu médico de família. Portanto, é tudo em articulação com a saúde e na promoção do tal envelhecimento ativo e saudável.

Temos também um projeto piloto que se chama “Fortalecer para Viver”, de três meses, que vai medir o impacto da atividade física dos utentes de uma IPSS, no caso, o Centro Paroquial de São Salvador do Burgo. 

Para além disto, temos obviamente os nossos espaços de fruição e de possibilidade de prática desportiva ao ar livre. Nós trabalhamos em articulação com vários parceiros e a saúde é um parceiro essencial nesta missão de promoção do envelhecimento ativo e saudável. Porque é importante que haja esta comunicação para que as pessoas se sintam também seguras a praticar o desporto e para que depois os profissionais de saúde também consigam ver os efeitos desta prática desportiva e consigam ir acompanhando os seus utentes.”

Discurso Directo (DD): Que benefícios têm sido observados nos idosos que participam nestas iniciativas? Acredito que sejam, para além dos físicos, também nesta questão mais social.

Cláudia Oliveira (CO): “De saúde mental, sim. Nós temos muitos seniores que vivem sozinhos, mas por opção. E nós não conseguimos obrigar ninguém a não estar sozinho. Se a pessoa quer ficar na sua casa de sempre, no seu espaço de sempre, naquilo que sempre conheceu como seu, temos de respeitar e tentar mitigar este tal isolamento, também para termos essa certeza que a pessoa está segura.

E para isso nós temos alguns projetos sociais de acompanhamento, seja a teleassistência, sejam as visitas extraordinárias, em que tivemos uma gerontóloga a visitar utentes sinalizados, em que fazia exercícios de estimulação com eles, de acordo com as patologias dos utentes. Isto foge um bocadinho ao desporto, mas só para percebermos que há vários contextos de seniores. Há aqueles que vão e participam em grupo, ou que sabem da necessidade de fazer desporto, e que sozinhos ou com outro parceiro, e fazem as suas caminhadas. Há outros que não, que continuam nas suas aldeias, e é mais complicado. Mas a esses nós tentamos sempre incentivar, e os próprios clínicos também, uma pequena caminhada, a condicionar alguns esforços físicos e dizer o que é que pode, o que é que não pode fazer, para a pessoa estar um bocadinho mais acompanhada. Quanto aos reflexos destas atividades físicas, essencialmente sim, é a questão da promoção da felicidade e do bem-estar. 

E nós vimos isso com a criação dos nossos clubes seniores, a socialização faz com que a pessoa tire um bocadinho da sua rotina diária, muitas vezes igual dia após dia, para estar com os outros e para se distrair. E isso tem um impacto também na saúde mental. As pessoas sentem-se valorizadas, e sentem que continuam a ter vontades. Continuam a contar. Se nós desenhamos um programa feito para as pessoas mais velhas, elas sabem que para nós, Município, para a sua comunidade, elas continuam a contar. Não são postas de parte.”

Discurso Directo (DD): Para concluir, que mensagem é que poderia deixar aos seniores que ainda não participam neste tipo de iniciativas?

Cláudia Oliveira (CO): “A mensagem que posso deixar é que, passo a passo, ao vosso ritmo, estão sempre a tempo de trabalhar pela vossa saúde e pelo vosso bem-estar. Seja de forma autónoma, seja por programas do Município, o importante é que vocês se sintam e que estejam bem.

Da parte do Município de Arouca, é só isso que nós queremos, que vocês estejam bem. E se houver alguma atividade que queiram e que nós ainda não nos tínhamos lembrado dela, a porta do meu gabinete, da senhora Presidente, dos nossos técnicos do desporto ou dos técnicos da área social está sempre aberta para receber os vossos contributos, os vossos desafios e nós estaremos cá sempre para servir. Porque é essa também a missão, é ir ouvindo e estar prontos para servir.

Eu acredito, e sou defensora disso, de que o desporto e a atividade física promovem saúde. E cada um de nós é responsável pela sua saúde. Volto a dizer, o médico só intervém na nossa doença. Conto que o número de seniores a praticar aumenta, mas também conto que isto sirva para todos.”

Simão Duarte

Foto: AF Aveiro

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Discurso Direto
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