
Alunos da Escola Secundária de Arouca e seniores do concelho inauguraram na manhã de quinta-feira, 21 de novembro, o novo Centro Digital Intergeracional, um espaço equipado com computadores e material de multimédia, criado com financiamento do Orçamento Participativo Municipal. O objetivo é claro: aproximar gerações através da tecnologia, combater o isolamento dos mais velhos e abrir a escola à comunidade.
Eram cerca de 10h30 quando a presidente da Câmara Municipal, Margarida Belém, os alunos e os seniores inauguraram em conjunto o novo centro digital. Na sala, seniores do concelho estavam lado a lado com os jovens da secundária, desta vez no papel de “professores”.
“É delicioso olhar para esta sala e ver os nossos seniores com um ar feliz e ver os nossos jovens interiorizar o papel de professor”, disse Margarida Belém, agradecendo a “cumplicidade” de todos os envolvidos nesta partilha entre gerações.
O Centro Digital Intergeracional nasce de uma proposta ao Orçamento Participativo de Arouca, que todos os anos reserva 60 mil euros para três projetos escolhidos pela população. Este centro representa um investimento de 20 mil euros, o valor máximo por projeto.
“Cada vez que inauguramos um projeto resultante do Orçamento Participativo é, para nós, um momento particularmente importante”, sublinhou Margarida Belém. Estes projetos, acrescentou, além de responderem a necessidades concretas, obrigam os proponentes “a conceber uma ideia com impacto na comunidade, a lutar por ela, a ajustá-la ao limite dos 20 mil euros e a perceber, na prática, o que é o exercício de planeamento e execução”.
No caso deste centro, o caminho não foi imediato: na primeira vez que foi a votos, o projeto ficou a poucas dezenas de votos de ser um dos vencedores; à segunda tentativa, acabou por conquistar o primeiro lugar. “Nunca se deve desistir daquilo em que se acredita”, resumiu a autarca, vendo neste percurso um exemplo de cidadania ativa. “Aqui somos todos vencedores: quem lutou pelo projeto, a escola e a comunidade.”

O professor responsável pelo projeto, Vítor, lembra que a inauguração de hoje é a continuidade de um trabalho que a escola desenvolve há alguns anos com programas municipais como o “Eu Sou Digital” e o “Idade Maior”, que trazem à escola seniores do concelho.
A grande diferença é que agora há um espaço próprio, equipado e pensado para esse encontro – e uma ideia-chave assumida: inverter o modelo tradicional de ensino.
“É um bocadinho inverter a rotina do ensino”, explica. “Em vez de ser o mestre a transmitir o conhecimento e os outros a absorver, aqui são os alunos que passam a ser os professores, usando aquilo que aprendem connosco para o transmitir às gerações mais velhas.”
Durante a visita ao Centro Digital Intergeracional, o professor foi mostrando parte do equipamento disponível, destacando os computadores e outros recursos de multimédia, incluindo material para fotografia, vídeo e gravação de som, bem como um drone. O centro está pensado para apoiar projetos dos alunos, nomeadamente na área da comunicação e da multimédia, mas, nesta manhã, a prioridade era pôr alunos e seniores lado a lado, à volta do mesmo ecrã.
De um lado, uma senhora queria aprender a ver as ruas de Arouca no mapa. Noutro ponto da sala, um grupo preparava-se para transformar uma fotografia de rosto numa imagem diferente, recorrendo a ferramentas de inteligência artificial.
O trabalho, porém, começa sempre pelo básico: criar uma conta de e-mail, aprender a enviar mensagens, fazer videochamadas com familiares emigrados, navegar na internet com segurança e dar os primeiros passos nas novas ferramentas digitais.
“É importante para mitigar o isolamento de muitos idosos nas nossas freguesias mais recônditas”, nota o professor Vítor. “A tecnologia deixa de ser um eletrodoméstico encostado a uma parede que só o netinho sabe mexer. O objetivo é democratizar a tecnologia que temos ao nosso alcance.”
As sessões juntam normalmente turmas de cerca de 16 alunos e grupos pequenos de seniores, para que todos tenham acompanhamento. A ideia é trabalhar com grupos reduzidos, à volta de 10 pessoas por sessão, realizando várias ações ao longo do ano letivo.
Em representação da direção, a vice-diretora professora Ana Isabel – a substituir a diretora, atualmente em mobilidade Erasmus – sublinhou o orgulho da escola neste projeto pela abertura à comunidade que representa.
Enquanto os seniores aprendem a dar os primeiros passos no computador ou no telemóvel, são os alunos que recebem deles algo “que não vem nos manuais”: valores, histórias de vida e formas de estar. “O saber estar, o saber falar, o dialogar, o trocar ideias – tudo isto é muito importante para os nossos jovens hoje em dia”, afirmou, lembrando que muitas destas aprendizagens chegam precisamente através das pessoas que vêm de fora.
Ao lado, o professor Vítor deixava também o seu agradecimento à Câmara Municipal “pela existência do orçamento participativo em si mesmo” e à técnica Vânia Gonçalves, que trabalha diretamente com os seniores e tem sido uma das pontes entre autarquia, escola e salas sénior.
Nas declarações aos jornalistas, Margarida Belém explicou que a atividade desta manhã se insere numa dinâmica já existente entre escola, município, salas sénior e clubes sénior do concelho. Quem quiser, no futuro, integrar sessões semelhantes deverá contactar a Escola Secundária de Arouca e o professor responsável pelo centro, Vítor.
A limitação é sobretudo física: há uma única sala e um número definido de postos de trabalho. Por isso, mais do que inscrições individuais avulso, a intenção é organizar grupos e projetos concretos, ajustados ao calendário letivo e às disponibilidades dos seniores.
“Durante o ano letivo teremos de organizar as pessoas em grupo, promover projetos para as enquadrar e usar com regra e organização todo o material que aqui está”, explicou o professor.
No final da manhã, entre retratos reinventados com inteligência artificial, mapas de Arouca vistos pela primeira vez num ecrã de computador e a satisfação de quem conseguiu enviar o primeiro e-mail, a sensação era de que o projeto ainda agora começou. Ou, como resumiu Margarida Belém, é “criatividade em ação”.
Em Arouca, pelo menos nesta sala, a tecnologia deixou de ser um muro difícil de escalar para muitos seniores e começou a ser uma ponte entre gerações.

Pedro Gonçalves

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