
Quando uma solução benéfica para ambos os lados parece não estar à vista, entre docentes e Governo, os professores mantêm-se em greve pelo ensino e prometem continuar a luta, assegurando que perante propostas como as que foram apresentadas pelo Ministério, no passado dia 22 de março, as manifestações não têm data para terminar. Deste modo, o DD decidiu recolher o testemunho de dois professores deslocados; do arouquense Ricardo Oliveira e de Elisabete Ferreira (nome fictício) para que nos dessem a sua perspetiva de como é lecionar longe de casa, e a somar a isso todos obstáculos a nível financeiro, habitacional, emocional, psicológico e de carreira que essa “escolha” acarreta.
Deslocado
O arouquense Ricardo Oliveira tem 42 anos e é professor de Geografia no ensino Público, desde 2007, sendo que antes exerceu funções, num curto período de tempo como formador.
Ao DD confidenciou que o local “mais distante” onde foi colocado para lecionar foi o Algarve, mais precisamente, Faro. O docente mais adiantou que no início da sua carreira a maior dificuldade que enfrentou centrou-se em lecionar no distrito de “Lisboa, local onde há muitos anos se sente a falta de professores e onde as necessidades são maiores”. Num primeiro momento, “os maiores obstáculos estiveram relacionados com a dificuldade em gerir” jovens provenientes de bairros sociais “muito problemáticos oriundos de famílias completamente disfuncionais, em que a convivência com o crime e delinquência faziam parte do seu dia a dia”. Acrescentou que “focar estes alunos no desenvolvimento das suas aprendizagens, procurando que se abstraíssem da realidade que os circundava”, foi um dos maiores desafios para “um recém-licenciado”, que desconhecia “por completo” a “realidade suburbana lisboeta”.
Ricardo Oliveira lecionou em 11 escolas, “um pouco por todo o país, desde Valpaços-distrito de Vila Real até Faro”, respondendoà pergunta do DD sobre como funcionam os concursos de professores, no sistema de ensino português, que “de forma genérica”, estes são inseridos de acordo com o seu grupo de recrutamento, “numa lista graduada” que leva em consideração a nota final da licenciatura, e os “anos de experiência acumulados”. Desse modo, a “partir dessa lista”, e de acordo com a “manifestação de preferências que os professores revelam”, aquando do concurso que anualmente realizam, “onde identificam as zonas pedagógicas onde pretendem lecionar e os horários a que concorrem”, os professores são assim colocados.
Por sua vez Elisabete Ferreira é licenciada em Línguas e Literaturas e é natural de Aveiro, mas já esteve colocada em Peniche, encontra-se, neste momento, a dar aulas na Escola Secundária de Arouca.
“O caminho para se chegar até perto de casa é muito longo e penoso”
O arouquense clarificou ainda a realidade para muitos professores contratados, “originários do Norte do país, região onde ainda não se sente tanta falta de professores, como no sul ou nas ilhas”, (onde o concurso é independente), esta situação faz com que não consigam colocação perto de casa. Para esses profissionais, “uma vez que os lugares disponíveis estão ocupados por colegas mais antigos, pertencentes ao Quadro de Escola ou ao Quadro de Zona Pedagógica”, a única opção é “sujeitarem-se a deslocarem-se para zonas distantes do país”. Tudo isto para “conseguirem trabalhar, e poderem aumentar a sua graduação profissional”, de modo a subirem na “lista graduada”, e no “futuro poderem ter maior possibilidade de lecionar perto de casa”. O professor mais referiu que “atualmente” o caminho “para se chegar até perto de casa é muito longo e penoso”, e que a seu ver para os docentes contratados é “quase utopia”.
Para Elisabete Ferreira o fator que mais obstáculos lhe coloca na sua vida profissional e pessoal, ser professora deslocada parece ser o mesmo de Ricardo Oliveira, “as normas que regem o concurso de mobilidade interna”. No seu ponto de vista, “se a colocação fosse feita respeitando a lista de graduação, independentemente de se ser professor do quadro ou de zona pedagógica”, estaria a lecionar na sua área de residência. É com desagrado que constata que há professores a lecionar onde reside que estão muito depois dela na lista de graduação. Além disso, “ao longo dos anos, o regime de colocação de professores foi objeto de algumas alterações”, confidenciando que quando começou a trabalhar os concursos eram anuais e só mais recentemente passaram a ser de quatro em quatro anos “tendo já ocorrido concursos extraordinários.”
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