Os principais marcos históricos do antigo GDSC Alvarenga

Dado o surgimento do ADR Alvarenga, o novo clube da Capital do Mundo e do Bife, foi inevitável pensar no GDSC Alvarenga, clube cuja existência terminou em 2022, ao cair do Campeonato de Portugal para as distritais da AF Aveiro (concretamente, o Campeonato SABSEG).

Neste artigo, fazemos um compacto dos principais marcos históricos do GDSC Alvarenga, com base na imprensa desportiva portuguesa, mas principalmente na obra «Reviver – Mais Alvarenga 1928-2000», da autoria de António Dias Madureira, com edição da empresa “Mobilidade” de Paula Teles, uma das impulsionadoras deste novo clube. Desde já, fica igualmente a nossa recomendação para a leitura desta obra.

Os principais marcos históricos do antigo GDSC Alvarenga

  • A primeira direção do GDSC Alvarenga: Luís Noronha, Manuel António Noronha, Reinaldo Noronha (Filho) e Fernando Galvão Teles
  • Os primeiros registos da prática de futebol em Alvarenga apontam para o verão de 1928, com o seguinte grupo de jovens a dar os primeiros pontapés na bola: irmãos Durval, Álvaro e Ricardo Lima, de Carvalhais, os irmãos Reinaldo e Manuel António Noronha, de Chieira, e os irmãos Alberto, Inocêncio, Fernando e Luís Galvão Teles, do Cimo da Aldeia, aos quais se juntaram outros rapazes da freguesia.
  • O primeiro campo de futebol foi criado num terreno a monte, chamado de Campo do Santo, porque o terreno pertencia à Quinta do Santo de Cima, em frente à Casa do Santo.
  • Aos redatores da obra, a primeira equipa completa que conseguiram confirmar era composta pelos seguintes jogadores: Alberto Teles, Nequinha, Óscar, Artur Ribeiro, Neco Sarralheiro, Moisés, Quim do Santo, Reinaldo Noronha, Inocêncio Teles (Nené), Durval Lima e Américo Cunha, tendo jogado ainda “Americano”, Ricardo Lima e Raul Azevedo.
  • Dados os difíceis acessos, que dificultavam o contacto, e as pouquíssimas equipas disponíveis, só em 1937 é que surgiu a primeira agremiação desportiva, denominada Alvarenga Futebol Clube, mas rapidamente “agarrou” o nome de Desportivo, com a direção do clube, em 1948, a assumir em definitivo a designação de Grupo Desportivo de Santa Cruz de Alvarenga, bem como o icónico símbolo que todos conhecemos: a Cruz de Cristo, com uma bola ao centro e, nos vértices, as letras GDSC, com o A de Alvarenga ao centro, por cima da bola. É também aí que o clube passa a jogar com cores à Vasco da Gama, ou seja, preto e branco, e já aí o clube estava ligado ao Brasil.
  • O primeiro jogo relatado na Defesa de Arouca foi a 10 de janeiro de 1942, frente à União Desportiva Operária Valonguense. O 4-1, favorável ao Alvarenga, terminou em festa que deu para o torto: «No regresso deste jogo, esteve iminente uma tragédia no Santa Cruz de Alvarenga. Pelo caminho resolveram comprar foguetes para festejar a vitória. Ao passar por Carvalhais, começaram a foguetear ainda dentro da camioneta. Só lançaram um foguete, porque os outros rebentaram por simpatia, feriando alguns elementos da comitiva, principalmente Óscar Galvão».
  • Em 1942, o clube foi forçado a sair do Campo do Santo. A direção presidida por Fernando Galvão Teles meteu mãos à obra e, depois de solicitar terrenos a Reinaldo de Noronha (Pai) e Manuel Mendes, criou-se o Campo Desportivo de Santo António.
  • O jogo inaugural foi frente ao FC Arouca, mas não o FC Arouca que hoje conhecemos, esse só foi fundado a 25 de dezembro de 1952, como já referimos num artigo a propósito do 72 aniversário do clube (e mesmo que existisse, seria com a 1ª designação de Ginásio Clube de Arouca). Um jogo em que os da casa venceram e, por isso, mas também pelas atitudes reveladas de ambas as partes, gerou-se uma longa rivalidade desportiva, mas saudável. Denotar que o jogo registou uma assistência considerável, que rapidamente se tornou imagem de marca dos jogos do Alvarenga, que tinham bastante público. À data, as cores do Alvarenga eram o azul e o branco.
  • A Segunda Guerra Mundial acabou por abrandar o ritmo futebolístico em Alvarenga, dado que os principais impulsionadores, especialmente entre 1945 e 1948, ou viviam fora ou estavam ligados à extração de volfrâmio. Isto e o falecimento de Joaquim Gomes, que levou a que Abel Teles nunca mais jogasse.
  • A Guerra da Coreia, nos anos 50, levou a uma nova corrida ao volfrâmio, que, desta vez, impulsiona o clube, pois Alvarenga que, segundo constava nos censos de 1950, tinha 3137 habitantes, acolheu uma «segunda vaga de migrantes que procuravam o “enriquecimento fácil», aumentando o número de público, de praticantes do clube e também as finanças.
  • Foi por essa altura que surgiu o hino de Alvarenga, criado por “Ernestito” de Várzeas e Fernando Mendes (conhecido como Fernando Mestre), «cantado e dançado como uma marcha», que tinha esta letra:

Certo dia em Alvarenga

Onze rapazes foram jogar

E daí nasceu a ideia

De um grupo se formar.

 

Hoje, passados alguns anos,

Tem uma equipa bem afamada

Que está sempre disposta

A honrar a terra amada.

 

Quem é que sabe jogar? Alvarenga!

Quem é que tem firmeza? Alvarenga!

 

Assim a driblar

Fintar e rematar

Bate qualquer defesa.

 

E quando o grupo joga

Alvarenga!

Ninguém pode resistir

Alvarenga!

Porque a nossa linha

A brincar com a bolinha

Vence o rival a sorrir

Alvarenga!

 

Um hino que era cantado pelo povo «nas camionetas quando se dirigiam para os campos dos adversários, nas desfolhadas, no momento em que o Desportivo entrava no campo de Santo António ou no recinto das outras equipas».

  • Também nessa altura surgiu uma música sobre a equipa propriamente dita, citando os jogadores da época.
  • Na 2ª metade de 1953, uma série de saídas forçadas da direção levaram a que o clube permanecesse meio “partido” até aos anos 70, sobrevivendo até lá «à custa de alguns impulsos individuais e entusiasmantes, geralmente protagonizados por emigrantes brasileiros».
  • Entre 1956 e 1959, foram muito poucos os jogos realizados, com o clube a acabar “lesado” em todos os aspetos. A vida em Alvarenga era difícil e muitos jovens emigraram. O clube acabou por ver «desaparecer equipamentos, degradar-se os balneários e a vedação do campo de jogos, que era feita em madeira, foi pasto fácil para alimentar o apetite voraz dos amigos do alheio».
  • No final dos anos 50 e início dos 60, a «promessa oficial da construção da grande barragem sobre o rio Paiva» encheu de esperança a população e acabou por trazer consigo Jesus Gutierrez, um engenheiro que jogou futebol e, gratuitamente, deu treinos ao Desportivo, especialmente aos mais novos, desenvolvendo as suas apetências para o futebol.
  • Em 1962 e 1963, à boleia do impulso do início dos anos 60, foi ampliado o campo de futebol.
  • Em 1969, surge o apelo para que o clube se filiasse, como sucedida, por exemplo, com o Arouca e o Paivense, contra os quais o Alvarenga deixou de jogar e passou a jogar com «grupelhos», como algumas pessoas sarcasticamente chamaram.
  • Os anos 70 mudaram tudo, não só no país, com o 25 de Abril em 1974, mas também em Alvarenga e no clube especialmente. Já com a estrada para Arouca concluída, passa a ser do centro do concelho que surgem a maioria dos jogadores do Alvarenga nessa década. Isto quando o clube já se encontrava filiado na AF Aveiro e passa a disputar provas oficiais.
  • O clube torna-se oficialmente criado a 26 de agosto de 1977, passado a ter estatutos.
  • Em 1977, surge a primeira direção, depois da oficialização do clube. É presidida por Fernando Rodrigues da Silva, com Amadeu Esteves como vice-presidente. Fernando Mendes Soares era o presidente da Assembleia Geral e Hilário Noronha Soares o do Conselho Fiscal.
  • O primeiro treinador foi Gainza, que tinha sido treinador de guarda-redes no Leixões, tendo começado a treinar a 15 de novembro de 1977. Já aí, o clube treinava fora de Alvarenga, neste caso em Leça, Matosinhos, duas vezes por semana. O treinador só durou um mês, sendo rapidamente substituído por Jorge Vareta, na condição de treinador-jogador, em dezembro.
  • A temporada 1977/78 foi a primeira em que o Alvarenga competiu oficialmente, contando com vários reforços, como Ferreira Pinto, vindo do FC Arouca. O saldo da primeira temporada (na 2ª Divisão – Zona Norte) foi positivo, com o Alvarenga a acabar em 6º lugar, com 11 vitórias, 3 empates e 8 derrotas, um total de 47 pontos. No que toca a golos, 38 marcados e 35 sofridos. Uma época em que regressaram os equipamentos à Vasco da Gama.
  • Na 2ª época de competições oficiais, 78/79, registou-se a 1ª subida de divisão: depois de terminar o campeonato em 2º lugar, com 70 pontos (a 2 do 1º classificado Fajões), disputaram uma liguilha com o Aguim, terminando as duas eliminatórias com um 6-4 favorável ao Desportivo, subindo assim à 1ª Divisão Distrital.
  • Na 3ª época, a de estreia na 1ª Distrital, acabaram em antepenúltimo, descendo de divisão. São relatados problemas como o campeonato muito longo, despesas inesperadas e a “orientação técnica bicéfala” de Henrique Calisto que não foi bem recebida. Sim, Henrique Calisto, figura de renome do futebol nacional, pendurou as chuteiras em Alvarenga como jogador e, já aí, deu os primeiros passos como treinador. Para além disso, José Carlos Noronha, diretor clínico da Seleção de Portugal desde 2014, fazia parte do plantel.
  • Em 80/81, com a inauguração da luz elétrica no campo Afonso Pinto de Magalhães, passaram a treinar lá.
  • Depois da temporada 1982/83, José Carlos Noronha deixou as quatro linhas, devido a uma entorse do joelho direito, de que resultou rotura do ligamento cruzado anterior e do menisco interno.
  • Na época 83/84, o Campo de jogos de Santo António passou a ter iluminação
  • Em 85/86, caíram para a 3ª Divisão Regional, ao ficarem em último lugar. Uma época onde o plantel foi bastante curto (15 atletas) e existiu também uma direção demissionária e um saldo negativo no fim da época.
  • Em 87/88, José Artur Neves foi o treinador da equipa, depois de ter sido jogador.
  • Em 88/89, foram campeões da 3ª Divisão Distrital, sendo o 1º título oficial do clube. Terminaram a fase regular em 1º, com 47 pontos e, no apuramento de campeão, bateram o Vila Nova de Monsarres (Anadia) por um agregado de 3-1. E sim, José Artur Neves foi o treinador que conduziu o clube ao título
  • Na temporada seguinte (89/90), nova subida de divisão, desta vez administrativa. Como é normal nos campeonatos distritais, no final da época, o Alvarenga foi colocado em 5º lugar (mesmo tendo terminado em 7º), isto porque existiam “vários casos pendentes à espera de resolução”. Assim, como o Alvarenga era o 5º classificado das 3 zonas (Norte, Centro e Sul) que mais pontos tinha (63), foi um dos 2 melhores 5º classificados a subir à 1ª Divisão. Segunda subida consecutiva, ainda com José Artur Neves no comando técnico da equipa.
  • Em 90/91, regressaram os dérbies a valer frente ao Arouca, sempre com muito público. O Alvarenga treinava em Lobão.
  • Em 91/92, criou-se uma comissão para ampliar e beneficiar o Campo de Jogos de Santo António (novos balneários, secretaria, lavandaria, espaço para o público e aumento das dimensões do campo). A Câmara Municipal apoiou com mil contos.
  • Em 92/93, foram forçados a jogar toda a época em campos emprestados, como o Afonso Pinto Magalhães. Em 93, foram inauguradas as novas instalações do campo de jogos.
  • Em 94/95, caíram para a 2ª Divisão.
  • Subiram em 95/96, mas caíram na época seguinte
  • Em 97/98, ficaram em último. Edgar Soares foi eleito presidente e teve de enfrentar as dificuldades financeiras. Na altura, pediam para que se extinguisse o clube. Com a devida distância, até certo ponto, foi um prenúncio do que estaria por vir.
  • Em 98/99, ficaram na 1ª Divisão, a convite da AFA, que reestruturou os seus campeonatos.
  • No novo milénio de 2000, o Alvarenga atingiu o seu expoente máximo, desaparecendo após a queda.
  • Na época 09/10, estavam na 2ª Divisão Distrital, saindo da 3ª.
  • Foram garantindo a manutenção, até que, na época 15/16, acabam a fase regular em 1º lugar, com 74 pontos (2 a mais que o vice Romariz FC) e, no apuramento de campeão, numa liguilha a 3 com o Beira-Mar e o GD Mealhada, garantiram o título no Estádio Mário Duarte.
  • Em 16/17, garantiram a manutenção na 1ª Divisão e foram até à final da Taça distrital, perdendo frente ao Esmoriz, nos penalties. Venceram o Avanca, o Macieira de Cambra, o União de Lamas, o Milheiroense e o Paivense para chegar aí. Desses 6 encontros, 3 deles o Alvarenga venceu precisamente nas grandes penalidades.
  • Em 17/18 e 18/19, Ruan Muniz, sobrinho de Liedson, esteve no clube, sendo os únicos registos deste em Portugal.
  • Em 18/19, caem da 1ª Divisão (agora chamada Divisão de Elite).
  • Sobem na época seguinte, 19/20, ao ficarem em 3º lugar. Isto numa edição da prova em que, devido à pandemia, só se jogaram 22 jornadas das 34.
  • Em 20/21, foi um ano de sonho. Os campeonatos foram forçosamente interrompidos, mas regressaram, numa versão reduzida, para se apurarem os campeões. Na 1ª Fase, jogada entre 4 equipas (Oliveira do Bairro, S.Vicente Pereira e Gafanha), o Alvarenga terminou em 1º lugar, com 26 pontos, conquistando o apuramento para a fase de campeão. Bateram o Avanca (2-0) e o CD Estarreja (2-1), garantindo um lugar na final contra o União de Lamas. Um auto-golo de Diogo Barbosa resultou no único golo do encontro, com o qual o Alvarenga venceu e foi campeão do Campeonato SABSEG, conquistando uma histórica subida aos campeonatos nacionais (Campeonato de Portugal) e também a 1ª presença na Taça de Portugal. O encontro foi disputado no Estádio Municipal de Aveiro. Isto num plantel conduzido pelo técnico Hugo Oliveira, cujo destaque do plantel era o experiente Artur, que havia passado pouco antes pelo FC Arouca.
  • O treinador Hugo Oliveira delineou a manutenção como objetivo. O clube treinava em Macinhata do Vouga, mas a disputar os jogos em Alvarenga.
  • A época 2021/22 teve tanto de bom como de mau. A estreia na Taça de Portugal foi com uma receção ao GD Gouveia, onde o Alvarenga venceu por 3-1. Destaque para o 1º golo do jogo, de João Pedro Silva, marcado dentro do primeiro minuto de jogo. A 2ª Eliminatória ditou uma longa deslocação ao terreno do histórico Olhanense, com o Alvarenga a cair de pé, pois perdeu por apenas 1-0. Referir também a estreia no CP, em casa, frente ao Valadares Gaia. João Pedro Silva (Jota Silva) foi o autor do 1º golo de sempre do Alvarenga no CP. Série C do CP
  • A estreia nos nacionais acabou por ditar o fim do clube. Na fase regular, 18 jogos, terminaram em 6º lugar, com 20 pontos, indo para a fase de manutenção. Aí, tudo correu mal. Nos 6 jogos da fase de manutenção disputada a 4 (Valadares Gaia, Gondomar e SC Espinho, terminaram em último, com apenas 1 pontos. O plantel já era mais curto e, nessa fase, eram os 11 titulares e apenas 4 suplentes.
  • Desde aí até ao momento em que o Vila Viçosa teve de recorrer ao Estádio Reinaldo Noronha como casa emprestada, nunca mais rolou uma bola num encontro oficial naquele estádio e Alvarenga deixou de ter uma equipa de futebol. Assim terminou o clube arouquense que, depois do FC Arouca, mais longe foi nas provas nacionais, tendo chegado ao CP e quem sabe onde poderia ter chegado daí em diante, especialmente nos tempos atuais, onde investidores estrangeiros adquirem SAD’S de clubes “pequenos” ou “à deriva”, especialmente de clubes de terras remotas, como forma de dinamizar as regiões.

Por fim, nota para o interesse noticioso que decorreu da história mais recente do clube. Em 2017, o Maisfutebol destacou “Na Capital do Mundo só o lar dá mais emprego do que o clube” e ainda o caso de Fernando Davidoff “Jogou com Ederson e Kelvin, agora está na Capital do Mundo”.

Sahil Tavora, em 2018, foi destacado por ter sido o 1º indiano a marcar em Portugal: “Da Índia à Princesa do Paiva, o futebol a proporcionar aventuras pelo mundo”.

Em 2021, o programa “Unidos ao Clube”, um spinoff da Liga dos Últimos, veio a Alvarenga ver um Alvarenga x União 1919 (Coimbra).

Em 2022, o Maisfutebol e também a SIC destacaram o caso de Iago Sequeira, jogador do Alvarenga, que esteve prestes a ir para a Ucrânia jogar, escapando à guerra.

Simão Duarte

Fotos: Facebook GDSC Alvarenga

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