
Dos fracos não reza a história e Adelino Pinho é um bom exemplo disso mesmo, tem uma história de vida e um percurso profissional de luta, resistência e dedicação à Rádio Arouca, uma rádio de dimensão regional e que todas as manhãs chegam ao mundo inteiro. Tony Noites é o arouquense que mantém o contacto diário com os portugueses espalhados pelo mundo, no programa “ As Manhãs do Regional”.
Em 1986, num período de grande efervescência das rádios piratas, Adelino Pinho lançou uma rádio local que funcionava na Capela de Santiago em Arouca, a Rádio foi fechada como muitas outras mas o projecto estava lançado e Adelino Pinho não desistiu. Assumiu desde o primeiro momento o papel de director, locutor e de principal impulsionador do projecto, conseguiu vencer e legalizar a rádio, mas não foi nada fácil.
Em 1988 saiu uma lei que tornou possível a legalização das rádios livres (Lei n.º 87/88 (a primeira Lei da Rádio, a 30 de Julho de 1988), Arouca teve uma frequência atribuída e Adelino Pinto sabia que valia a pena investir.
“Tentei que outros se juntassem a mim, eu sou de Rossas mas vivo em Vale de Cambra, fiz-me ao caminho e ainda são alguns quilómetros e falei com jornais, com empresários, ninguém quis avançar, por isso avancei sozinho, fiz um investimento grande, na altura 8 mil contos, comprei o equipamento no Porto”.
Ao longo das décadas, Adelino Pinho adaptou a rádio às exigências tecnológicas, expandindo a sua presença para o ambiente digital através da marca Rádio TV Regional de Arouca, é assim que chega a todo o mundo. Transformou a estação de rádio numa voz identitária para a comunidade arouquense. Chegou a líder de audiências a nível regional, uma história de sucesso, sem dúvida alguma, mas com muito esforço pessoal “Hoje tenho património, não tenho dívidas mas também nunca tive férias nem vida de luxo, lutei muito e continuo a lutar mas agora já passei os 80 e por muito que queira às vez já não consigo, já me faltam forças, isto é uma luta diária”.
No coração das montanhas de Arouca, há uma frequência que bate ao ritmo das gentes da terra (103.2 FM) e que se transformou em muito mais do que um meio de comunicação. Tornou-se um membro da família, uma presença acolhedora na cozinha de casa, no rádio do carro ou no ecrã de um telemóvel a milhares de quilómetros de distância, a estação orgulha-se de ser uma das rádios locais mais ouvidas e acarinhadas no Norte e Centro do país, alcançando posições de grande destaque nos estudos regionais da Marktest.
Tony Noites é a voz das manhãs há 29 anos, é ele que recebe chamadas de todo mundo; da Austrália, Canadá, Brasil e Europa que continuam diariamente a “ligar para dedicar”, aos sábados o programa segue com Manuel António e aos Domingos com Anabela Mesquita.
Para a diáspora arouquense, as emissões on-line funcionam como um cordão umbilical que os liga às suas raízes. Ouvir a Rádio Regional de Arouca é, para quem está longe, o conforto de voltar a casa através do som de uma voz amiga.
Multifacetado, talentoso, nasceu com sensibilidade artística e esse é o caminho que tem seguido, Tony Noites é também fotógrafo e autor de projectos culturais e educativos na região. Colabora com escolas locais em acções pedagógicas sobre património e criação de conteúdos de áudio e publicidade “ A minha primeira emissão foi para o ar no dia 01 de agosto de 1997 e não, não tinha qualquer experiência na área da rádio. A música esteve sempre ligada à minha vida, venho de uma família de músicos, e como costumo dizer, a minha vida seguiu um curso quase natural, se não fosse na rádio teria que trabalhar numa área relacionada com música”.
Adelino Pinho é conhecido por ser um homem persistente, lutador, por vezes com mau feitio ou intempestivo, mas foi assim que conseguiu vencer. O prazo para legalizar a rádio em 1988 estava a acabar, foi à Câmara Municipal, tanto quanto se lembra, diz que teve que se impor para mostrar a importância de Arouca ter uma frequência de rádio e foi assim consegui uma antena no alto da Serra da Freita “ Isto foi com o Presidente Zeferino, disseram que sim, mas era preciso uma antena e a obra não aparecia e podíamos perder a frequência, depois lá arrancaram com a cabine na Freita” conta Adelino Pinho. Ao longo deste projecto conta-nos que esteve sempre a lutar sozinho “ na altura falei com um senhor do banco, falei com investidores e jornais da terra e ninguém quis avançar com a rádio, eu queria dar a oportunidade a um grupo de amigos de Arouca mas não quiseram. Em Vale de Cambra já funcionava e aqui nada. Depois muita gente ficou arrependida porque a rádio deu sucesso, ganhei algum dinheiro e guardei-o para aguentar agora as dificuldades. As rádios não têm ajuda nem da Câmara nem do Estado, as rádios vivem de publicidade. As Câmaras devem fazer anúncios, patrocinar espectáculos, mas não, eles agora fazem tudo”.
Em 40 anos de existência a Rádio Arouca fez 20 festas, todas ela festa de arromba, agora não vai haver festa, disse-nos que se sentiu maltratado pela actual câmara “ Ora bem eu não gosto de fazer coisas no ar, eu trazia artistas importantes, trouxe 600 artistas, desde o Tony Carreira a muitos outros, até trouxe o Zé Cabra, a SIC andou três dias atrás dele, mas eles não vêm de graça. Essas festas movimentaram muito dinheiro nesta terra, até os talhos abriam à noite para fornecer os restaurantes”, conta Adelino Pinho.
Discurso Directo. Agora a câmara faz festas o ano todo, já não há lugar para as festas da rádio?
Adelino Pinho. Pois claro para eles o dinheiro é de borla…e têm verbas muito elevadas, chegam a fazer concorrência às festas da freguesia, uma falta de respeito. Fizeram isso com Rossas, em Tropeço e muitas outras, para eles é só passar cheques…
D.D. Voltando ao aniversário da rádio, porque não faz a festa dos 40 anos?
A.P. Primeiro tenho que guardar dinheiro para os salários e para as despesas. Segundo eu queria um apoio, aquilo que sempre fizeram, não era pedir dinheiro.
D.D. Mas qual era o apoio que queria?
A.P. Primeiro pedir a autorização, marcar o dia e o apoio habitual; ajudar com as refeições dos artistas, como a Câmara já fez, dormidas, palco e som que a Câmara tem um muito bom, mas o resto, o pagamento aos artistas, o pão-de-ló, os presentes para os artistas era tudo comigo
D.D. Portanto queria o palco que é usado nos vários eventos, refeições e dormidas, e o que é a Câmara lhe disse?
A.P. Disseram que me colocavam umas grades nas ruas para marcar o espaço…sinceramente, isso doeu-me muito, e há mais, nunca fomos recebidos pela presidente, na rua está tudo bem mas nunca nos recebeu. Eu sempre tive um protocolo de prestações de serviços com a câmara e com ela, com a Margarida, acabou, eu perguntei-lhe se era para continuar e ela disse-me é sim senhor, mas nada, 6 anos sem nenhum contrato de prestação de serviços. Entretanto falei com a vice-presidente a ver se ela resolvia a situação da prestação de serviços porque a presidenta virava-me as costas. Com a Cláudia já consegui o tal acordo de prestação de serviços, cerca de 18 mil € mas sobre a festa disseram que que punham umas grades na rua, então?! Estamos a brincar, eles dão o palco a toda a gente.
D.D. Mudando de assunto, a família está orgulhosa?
A.P. Sim estão mas não tenho ninguém para seguir o negócio, eu privei-me de muita coisa, nem férias tinha como as famílias normais
D.D. E o Adelino como se sente? Satisfeito?
A.P. Neste momento, totalmente triste pelo tratamento que me deram na câmara por causa da festa, mas quando é das eleições eles lembram-se da rádio …Agora tenho que ganhar juízo e guardar dinheiro para os tempos que aí vêm
D.D. Mas sente-se orgulhoso do seu percurso?
A.P. Sim claro, veja aqui estas paredes, reconhecimentos de várias entidades, fui cidadão honorário em 2012, tive uma homenagem do Rotary Club como personalidade do ano, veja estas lembranças das reportagens que fizemos em todo o lado, destas, associações, empresas, sei lá tanta coisa, são muitas recordações, as pessoas reconheciam-me na rua pela minha voz, quando eu falava.
D.D. Quando era miúdo era isto que queria ser, trabalhar na rádio?
A.P. Quando era pequeno pensava que ia emigrar como os outros… trabalhar para ganhar dinheiro. Devo dizer que ajudei muita gente mas também houve gente boa que me ajudou, um deles foi o Sr. Cavadinho, não me esqueço dele.
D.D. Não emigrou mas cá está a transmitir para todo o mundo.
A.P. A resposta a esta afirmação foi uma reacção gestual, primeiro uma pausa, depois um sorriso tímido seguido de uma expressão de felicidade, as duas mãos subiram e pousaram sobre o coração.
Fotos: Carlos Pinho
Margarida Ferreirinha

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