
Há instituições que se percebem melhor na estrada do que no gabinete. No Centro Social Paroquial de São Salvador do Burgo, uma parte importante da resposta faz-se assim: por curvas, subidas e desvios, serra acima, até chegar a casas onde, muitas vezes, quem bate à porta leva mais do que uma refeição ou uma medicação. Leva companhia.
Foi esse lado mais invisível do trabalho da instituição que ficou à vista numa deslocação acompanhada pelo Discurso Directo com uma equipa do Apoio Domiciliário pela Serra da Freita, uma experiência que, por si só, daria matéria para uma reportagem inteira. Em cada paragem, repetia-se o essencial: a entrega da comida, a organização da medicação, a medição da tensão arterial, a ajuda nas rotinas diárias e, quase sempre, uns minutos de conversa. Em muitas destas casas, aquela visita é a principal – ou mesmo a única – companhia do dia.
“Se não fossem estes anjos, não sei o que seria de mim”, desabafou uma das utentes. A frase, simples e espontânea, diz muito sobre o papel que a instituição tem vindo a desempenhar junto de dezenas de idosos do concelho.
Atualmente, a equipa do Apoio Domiciliário é composta por oito pessoas, incluindo a coordenadora, e assegura apoio a 40 idosos, recorrendo a três carrinhas. O serviço funciona todos os dias da semana e vai muito além da entrega de refeições. Inclui higiene pessoal, higiene habitacional, apoio ao nível da saúde, acompanhamento a consultas quando não existe retaguarda familiar, organização diária da medicação e outros cuidados ajustados às necessidades de cada pessoa.
Uma vez por mês, este apoio ganha ainda outra forma: os utentes são trazidos à instituição para passarem ali o dia, conviverem, fazerem pequenas compras ou tratarem de assuntos pendentes, desde idas ao banco a “papelada” em organismos oficiais. É mais uma forma de combater o isolamento e de aproximar da comunidade pessoas que, de outra forma, poderiam passar semanas quase sempre fechadas em casa.
Mas o Centro Social do Burgo não se esgota no apoio domiciliário. A instituição conta atualmente com seis respostas sociais e acompanha cerca de 209 utentes. Entre elas estão o Centro de Dia, a Creche, o CATL, o CAF/AAAF, o Acolhimento Familiar e o Serviço de Apoio Domiciliário, sendo que a capacidade está, segundo a própria instituição, praticamente esgotada.
Durante a entrevista, o padre Luís insistiu várias vezes na mesma ideia: esta não é uma casa virada para dentro. “Esta casa é de todos”, afirmou. E noutra passagem reforçou: “Esta casa faz parte da comunidade, e a comunidade também faz parte dela.”
A procura crescente ajuda a perceber a dimensão da resposta que ali vai sendo construída. No caso do apoio domiciliário, a instituição já viu a capacidade aumentar de 30 para 40 utentes e prepara agora uma nova resposta, ao abrigo de uma candidatura PRR, com capacidade para 72 utentes. Na prática, o Centro Social poderá passar a ter capacidade total para 112 pessoas nesta valência. Ainda assim, a convicção deixada pela direção é clara: mesmo com este reforço, dificilmente a necessidade ficará totalmente coberta.
A mesma pressão sente-se noutras respostas. A creche, com capacidade para 42 crianças, é também muito procurada, tal como o CATL. Já o acolhimento familiar, uma resposta ainda pouco enraizada em Portugal, é visto pela instituição como uma das áreas mais diferenciadoras do seu trabalho, procurando dar a crianças retiradas das suas famílias a possibilidade de crescerem num ambiente familiar, em vez de permanecerem institucionalizadas.
Pelo meio, há ainda um traço que salta à vista logo na chegada: a forma como a casa se mostra. O acolhimento foi caloroso, a disponibilidade constante e o ambiente marcado por boa disposição. A equipa mostrou-se empenhada e orgulhosa do trabalho que faz.
Essa dimensão humana atravessa toda a conversa. “O mais importante é mostrar que temos a porta aberta”, resumiu o padre Luís, numa ideia que atravessou toda a conversa. E talvez seja essa a melhor maneira de olhar para a instituição: não apenas como um conjunto de respostas sociais, mas como uma casa que quer permanecer aberta, próxima e reconhecível para quem dela precisa.
Esse mesmo espírito teve expressão recente no Arraial Popular promovido pela instituição, um momento pensado para juntar no mesmo espaço utentes, famílias, funcionários, benfeitores e comunidade. Mais do que a componente festiva, a iniciativa foi descrita como um raro momento de encontro entre todas as valências da casa. “É o único momento do ano em que estamos todos juntos”, foi sublinhado durante a entrevista.
A festa incluiu comida tradicional, sorteio de prémios, muita animação e música ao vivo, com atuação dos Malucos da Concertina e animação de Animeart. Mas, para lá do programa, o que a instituição quis afirmar foi sobretudo uma ideia de proximidade e de abertura à comunidade.
No Burgo, a missão social faz-se todos os dias, muitas vezes longe dos olhares, entre carrinhas, refeições, cuidados e escuta. O arraial foi apenas a face mais visível dessa missão: uma forma de reunir a casa, agradecer à comunidade e mostrar, de maneira simples, aquilo que a instituição procura ser ao longo de todo o ano – uma presença próxima, aberta e atenta a quem precisa.
Fotos: Carlos Pinho
Pedro Gonçalves

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