2ª parte da entrevista de Vasco Seabra ao Discurso Directo

O papel de Espen van Ee, os emprestados, a comunicação com um balneário multicultural e a relação com os arouquenses e Arouca

No início do mês de junho, o treinador do FC Arouca, Vasco Seabra, recebeu o Discurso Directo no Estádio Municipal de Arouca, concedendo-nos uma entrevista, a 1ª e única à imprensa local arouquense até à data desta publicação. Depois do compacto da conversa de uma hora com o treinador, que saiu na mais recente edição do nosso jornal impresso, iremos agora publicar  a entrevista na íntegra, dividindo-a em 3 parte, em que a 3ª e última será um jogo de perguntas rápidas sobre o plantel, em texto e vídeo.

Nesta 2ª parte, o técnico falou da gestão efetuada dos jogadores menos utilizados, do papel de Espen van Ee para a solidez da equipa, de como comunica com um balneário de diferentes nacionalidades (onde o Chat GPT dá uma ajuda) e ainda da sua relação com os arouquenses e Arouca.

2ª parte da entrevista de Vasco Seabra ao Discurso Directo

Discurso Directo (DD): Omiti propositadamente um nome dos jogadores que se destacaram, que foi o do Espen van Ee. Ali no arranque da época, e creio que lho dei a entender numa questão, faltava um médio de características mais defensivas ou então mais capaz de fazer uma melhor ligação com a defesa no momento defensivo e não apenas na construção. Como é que o foi trabalhando para ele exibir-se em tão-bom nível como se exibiu?

Vasco Seabra (VS): «O van Ee chega num momento que foi duro. Nós perdemos o Mateo (Flores), pela lesão no joelho. Curiosamente, ele ia ser titular, foi a seguir ao jogo do Rio Ave empatamos 3-3 e íamos a Guimarães jogar, e o Mateo (Flores) ia ser titular, eu já tinha decidido na minha cabeça que ele ia iniciar o jogo e, três dias antes, ele tem o problema no joelho, em que tem que ser operado e nós percebemos que ele ia ficar 3 a 4 meses fora e o nosso movimento de mercado é irmos buscar o Espen.»

«Procuramos um jogador com valências diferentes, características diferentes, um jogador que pudesse dar esse perfil de equilíbrio e roubar bolas, mas que ao mesmo tempo não destruísse o jogo, ou seja, que mantivesse a fluidez do jogo em termos ofensivos. É sempre um perfil difícil de encontrar, porque um jogador que tenha capacidade defensiva e ao mesmo tempo consiga dar fluidez ao jogo, é difícil de encontrar.»

«Ele é um jogador que passa muito despercebido nos jogos, é muitas vezes o equilibrador. Nós quando o analisamos nos jogos da Holanda começamos a gostar dele não ao final de um jogo, mas ao final de 5, 6 jogos, quando começamos a perceber essa mesma estabilidade que ele tinha. Quando ele chegou, ele teve primeiro dificuldade em entender de imediato o nosso jogo.»

«Eu sei que o nosso jogo é um jogo complexo, exige que os nossos jogadores tenham muita coragem, a nossa forma de que os nossos médios se mostrem para o jogo, que não se escondam do jogo, que deem soluções constantes ao guarda-redes, aos centrais, que possam virar-se para a frente e não joguem só para trás e para o lado. Nós queremos que os nossos médios joguem para a frente, queremos que eles alimentem o nosso nº10, os nossos extremos que jogam muitas vezes para dentro também.»

«Obviamente, quando ele chega no final do mercado, já praticamente em setembro, demorou algum tempo a que a estabilidade dele conseguisse criar-se dentro da dinâmica de jogo da equipa. Ele acaba por fazer, lembro-me perfeitamente de ter decidido por ele em vez do Fukui na Luz, em que ele iniciou o jogo e não fez um bom jogo. Eu sei que às vezes um jogo não é suficiente para ver se o jogador está preparado ou não, mas naquele momento senti que era um jogador que ainda não estava no ponto que era melhor para nos poder ajudar da forma que nós achávamos que ele tinha capacidade para o fazer mais tarde.»

«Tivemos que o ir preparando em termos daquilo que é a dinâmica coletiva, as relações, a forma como está no meio mas sai do bloco para receber de frente para o jogo, a forma como toca quando tem pressão nas costas, como é que descola do adversário para tentar libertar-se para poder receber, todos esses pormenores que lhes fomos estimulando. E ele tem uma capacidade incrível de se entregar. É mais um jogador que vem sempre com uma energia muito boa, tem uma oportunidade fantástica de interajuda, de humildade. Eu sei que a gente olha para ele e parece que ele tem 26/27 anos, ele só tem 22.»

«É um jogador que, no momento em que surge, acabou por surgir preparado. E surgiu preparado na 2ª fase da época, começa realmente a fazer mais jogos, já antes do jogo das Aves que inicia a segunda volta, já tinha jogado em Tondela, fez até a assistência para o Trezza.»

«No jogo de casa contra o Gil, também acho que já tinha jogado, mas estava inicialmente a jogar com o Pedro Santos. Foi uma fase em que o Fukui eu estava a picá-lo um bocadinho mais, porque às vezes os jogadores também têm que sentir que não é só por palavras, é por atos e também vão fora e às vezes também é para os ajudar e para os picar um pouco, para eles se estimularem a poder voltar mais forte, isso aconteceu um bocadinho com o Fukui também.»

«O Espen entra num momento que eu acho que foi o momento preparadíssimo para ele. É quando ele estabiliza a equipa, ajuda muito, tem uma abrangência de espaço gigante, consegue recuperar muitas bolas. Não é um jogador do ponto de vista físico que eu diga que é um armário, mas é um jogador que pela capacidade que tem de chegada, pela velocidade que tem para chegar, consegue recuperar muitas bolas e depois naturalmente consegue dar fluidez, liberta jogadores como o Lee, como o Pablo, como o Fukui, o Pedro Santos, tudo jogadores que são muito refinados e no acumular de ambas as características creio que foi uma entrada muito importante para a nossa equipa»

DD:  Passando de entradas para saídas, o FC Arouca fez algo esta época com mais frequência, que foi emprestar jogadores. O Mantl regressou à Áustria e teve tempo de jogo, o Solà o mesmo em Espanha, o Marozau reencontrou-se com os golos e o Jansonas esteve no Belenenses, mas sem espaço. Qual o balanço que faz dos empréstimos deste quarteto e o que projeta destes para a próxima época?

VS: «Primeiro de tudo, eles saíram precisamente para esses contextos, para que pudessem ressignificar aquilo que é a capacidade para competir e para jogar. Sentíamos que esses 4 jogadores em particular, depois juntamente com o Alex (Pinto) e com o David que acabaram por sair também, o Alex (Pinto) para o Farense e o David que acabou por não jogar mais, mas achamos que esses jogadores iriam ter um perfil de espaço de minutagem curto na 2ª fase da época. Perante as contratações que nós queríamos fazer em Janeiro, perante o perfil dos jogadores que nós tínhamos internamente e aquilo que nós sentíamos que iríamos necessitar para a 2ª volta, fizemos uma reflexão rápida, de 24 horas, minha com o Joel (Pinho) e depois passada posteriormente ao Presidente, uma reflexão rápida em que definimos que estes jogadores vão ter poucos minutos.»

«Ao terem poucos minutos, os que vamos conseguir emprestar, é importante que eles consigam ter uma perspetiva de jogo alta para que se possam valorizar, seja para poderem ser vendidos, seja para poderem regressar com outro tipo de capacidade e esse foi sempre o propósito.»

«Dos 4 que saíram por empréstimo, 3 realmente tiveram muito tempo de jogo. Ainda não sabemos se todos eles vão regressar, porque podem existir, inclusive, vendas. O Marozau valorizou-se muito, é um jogador que ainda agora fez um golo na seleção, acabou, penso, com 10 golos. São números importantes e, obviamente, nós temos que sentir que há momentos e há fases em que, por vezes, isso acontece. Antes de ele regressar, já tem uma possibilidade de venda e, provavelmente, até poderá acontecer.»

«Essa foi a perspetiva e o nosso acompanhamento foi feito. Continuamos sempre a ver aquilo que eles foram fazendo externamente. Acreditamos que, os que voltarem, vão voltar melhores. De qualquer das formas, obviamente, queremos sempre fazer crescer a qualidade interna e esse é o momento em que, quando sentimos que há um jogador que vai ter pouquíssimos minutos, temos que tomar este tipo de decisão.»

DD: Ainda sobre os jogadores no geral, há aqui um balneário com uma fusão de várias culturas, porque, se por um lado há esta forte presença ibérica, também temos muitos uruguaios e depois temos jogadores de vários cantos do Mundo. Comunicacionalmente, como é que se consegue desdobrar para dialogar e transmitir as suas ideias ao plantel?

VS: «É giro, às vezes confundo-me todo e estou a falar com um inglês em espanhol e estou a falar com um espanhol em inglês. É um desafio multicultural, de facto. Porque, além da linguagem, é a parte cultural, que é muito diferente. Falar com o Fukui ou com o Lee não tem nada a ver em termos de motivações, de paixão, de ambição, de expectativas. Não tem nada a ver com falar com um Trezza. Porque a cultura é completamente distinta. A forma como um encara uma situação é completamente diferente da forma como outro encara a mesma situação.»

«Primeiro, para mim, foi extraordinário a forma como conseguimos, ou como tentamos, conhecê-los a fundo. Eu, no início da época, gosto sempre de ter reuniões individuais com todos os jogadores. Procurar perceber como é que é o passado deles, a cultura deles, o que é que eles valorizam mais, o que é que valorizam menos, que expectativas têm para a época, que expectativas têm para a vida. Como é que é o seio familiar deles, como é que eles lidam com a família, se têm namoradas, se têm filhos. Porque todos eles, quando às vezes nós queremos motivar mais este ou mais aquele, para um, se calhar, se eu lhe falar da família é uma motivação gigante, e se calhar para o outro, se eu lhe falar da namorada, aquilo vai lhe criar um peso. Ou seja, eu tenho que sentir onde é que eu chego e como é que eu consigo mexer com eles.»

«E eu sou também alguém que, apesar de ser português e de gostar de falar a minha língua, não sinto que esteja a ser demasiado adaptado se sentir que a minha comunicação chega mais facilmente a um espanhol se eu lhe falar em espanhol e se ele me perceber de forma mais rápida do que eu estar a falar em português e nem sempre as palavras estarem exatamente com o significado que eu quero que elas tenham.»

«Eu falo muitas vezes em espanhol, falo muitas vezes em inglês e falo muitas vezes em português, obviamente, maioritariamente falo em português. Em coreano e em japonês ainda não consigo, mas aí é o Chat GPT que me ajuda. Tive que comprar a função premium, que era para poder traduzir mais vezes e muitas vezes. Portanto, aí temos uma comunicação mais descrita com o Lee e com o Fukui. Com o Lee, eu consigo comunicar em inglês. Às vezes, para que as palavras sejam ainda mais concretas, eu prefiro ir à tradução do Chat GPT, quando é uma coisa mais clara que eu quero que fique mesmo vincada. Com o Fukui, prefiro sempre falar em Chat GPT, porque ele diz que percebe em inglês, mas eu tenho sempre muitas dúvidas ainda, apesar que ele já está muito melhor.»

«E também não escondo que, obviamente, esse também foi um desafio de início de época, eu creio que há um jogo em que nós temos, em 11 jogadores, 11 nacionalidades diferentes. É muita nacionalidade diferente. E como é que eles se comunicam? Timings de pressão? Relações que têm que ter? Como é que conseguimos que um Fukui, que é um apaixonado pela bola, consiga correr muito e trabalhar muito? E como é que conseguimos que um Trezza, que vive tudo a mil à hora, consiga, nos momentos em que tem bola, pausar e sossegar um pouco e respirar? Ou seja, são coisas absolutamente díspares e que nos obrigam a permitir que, dentro da própria equipa exista energia, exista propósito coletivo, que é como é que nós nos defendemos todos uns aos outros e, na hora do desespero, nós vamos todos para o mesmo sítio, mas como é que dentro daquilo que eu valorizo, eu me adapto àquilo que é o propósito da equipa. E essas coisas são as que a gente procura aproximar em termos de comunicação, em termos de qual é o alinhamento, o que é que a gente quer fazer, onde é que a gente quer chegar e, portanto, que isso seja o que nos leva todos os dias.»

«Voltando agora à primeira pergunta que fez, isso foi o que nunca nos mexeu, foi para onde é que nós podemos ir. Quando eu às vezes digo nas conferências e às vezes parece que é um chavão, que é jogo a jogo ou que nós estamos preocupados com aquilo que nós controlamos, nem na euforia, nem na depressão, porque esse é o nosso discurso interno também. O resultado nós não controlamos, nós damos tudo pelo resultado, mas não controlamos. Podem acontecer milhentas coisas durante os jogos, mas aquilo que nos vai dar o resultado, na continuidade, nós acreditamos que é o processo e esse processo é muito claro para toda a gente. Podemos depois fazer alterações, como eu disse que nós fizemos, mas as bases que sustentam os valores, a coragem, a agressividade, a capacidade para nos predispormos para ajudar a equipa, o nunca abdicarmos de defendermos todos, corrermos todos para ajudar a equipa, quando isso não muda, nós estamos mais próximos que as coisas possam ir para o lugar e isso é o que nos liga nas diferentes conclusões.»

DD: Como usa o Chat GPT, nunca teve receio de estar a escrever, por exemplo, «Bom dia, como estás» e sair um palavrão sem querer?

VS: «Tenho, até porque eu não percebo a ponta de um chavelho do que lá está escrito. Aquilo são só caracteres Eu muitas das vezes escrevo em inglês para eventualmente ser mais prático ou mais fidedigna a tradução. Eu acho que ele sempre conseguiu perceber mais ou menos o que eu estava a dizer, mas sim, já tive alguns momentos em que, principalmente até com o Lee, com o Fukui menos, mas com o Lee quando passava para coreano, depois dizia-lhe em inglês se ele estava a perceber e ele dizia que sim, que era o mesmo. Portanto, aí ficava mais descansado, a coisa fluía dentro de tudo que era o propósito.»

DD: Assim que chega ao banco pela 1ª vez antes do arranque do jogo, cumprimenta e troca uns aplausos com a massa adepta. É um cuidado especial que tem? E como é, para si, a massa adepta do FC Arouca e o apoio que esta lhe transmite?

VS: «Eu gosto de agradecer a presença, porque nós vivemos dos adeptos. E se me disserem: mas é o dinheiro que eles dão nas quotas ou no dia dos jogos que consegue cumprir uma época? Não, mas sem eles, o jogo não existe, sem os adeptos é um jogo-treino. Sem os adeptos, não existe a tensão do jogo diária. Nós jogamos sem adeptos no Covid, foi muito duro, faltava sempre qualquer coisa.»

«Faz parte do meu ser agradecer a presença deles e tentar que venham sempre mais vezes, e eu sei, eu às vezes fico chateado, com uma ou outra expressão que possam ter em relação a mim, mas isso faz parte do jogo, a minha profissão é assim. Quando decidi ser treinador, já sabia que ia ser insultado algumas vezes, já sabia que ia ser aplaudido quando ganhasse jogos, isso é uma coisa que é normalidade, e nós temos que saber que vai acontecer, para nós também estarmos preparados para isso.»

«Eu sempre senti em Arouca, eu gosto de estar cá, eu gosto de viver cá. Nós não temos muita gente a ver os jogos, acho que fomos crescendo durante a época no número de assistência, mas é óbvio que gostávamos de ter mais gente ainda, gostávamos de ter sempre o estádio mais composto ainda, mas eu, quando saio do estádio e vou almoçar à vila, ou passear, eu sempre senti um apoio grande das pessoas, um respeito muito grande de toda a gente.»

«Eu vivo em Arouca precisamente porque gosto de viver cá, sinto-me bem, sinto-me acarinhado pela vila, sinto-me acarinhado pelas pessoas. (Os aplausos) é uma forma de reconhecimento, no final, antes e no final do jogo, a presença deles».

Simão Duarte

Foto e vídeo: Pedro Gonçalves

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