Mais de 30 anos depois, arranca a ligação da EN222 à A32

Empreitada de 70,2 milhões de euros tem um prazo de execução de 900 dias. Ricardo Cardoso anunciou uma candidatura para ampliar a zona industrial de Lavagueiras e Luís Montenegro desafiou a DST a antecipar a conclusão dos trabalhos.

A assinatura do auto de consignação da empreitada que vai ligar a EN222 ao nó de Canedo da A32/IC2 marcou, na manhã desta segunda-feira, 13 de julho, o início formal de uma obra aguardada há mais de três décadas pela população de Castelo de Paiva.

A cerimónia decorreu em Lavagueiras, na freguesia de Pedorido, e contou com a presença do primeiro-ministro, Luís Montenegro, do ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, dos presidentes das câmaras de Castelo de Paiva e Santa Maria da Feira, Ricardo Cardoso e Amadeu Albergaria, e do presidente do Conselho de Administração da Infraestruturas de Portugal, Paulo Carmona.

O auto de consignação foi assinado por Paulo Carmona, presidente do Conselho de Administração Executivo da Infraestruturas de Portugal, e por José Teixeira, presidente do DST Group, formalizando a entrada da empreitada na fase de execução.

Adjudicada à empresa bracarense por cerca de 70,2 milhões de euros, a obra tem um prazo de execução de 900 dias. A nova variante terá cerca de dez quilómetros e fará a ligação entre a zona industrial da Serrinha, junto a Lavagueiras, e o nó de Canedo da A32/IC2, atravessando os concelhos de Castelo de Paiva, Gondomar e Santa Maria da Feira.

A via terá uma faixa de rodagem com uma via em cada sentido e contará com vias para veículos lentos em cerca de metade do percurso. O projeto inclui ainda dois entroncamentos, seis rotundas, duas passagens superiores, três viadutos e duas pontes, uma sobre o rio Inha e outra sobre o ribeiro do Portal.

Ricardo Cardoso anuncia ampliação da zona industrial

Na abertura da cerimónia, Ricardo Cardoso afirmou que a consignação representa “muito mais do que o início de uma obra”, considerando-a a concretização de uma aspiração que atravessou várias gerações e diferentes ciclos políticos.

O presidente da Câmara Municipal de Castelo de Paiva recordou alguns dos acontecimentos que marcaram económica e socialmente o concelho nas últimas décadas, desde o encerramento das minas do Pejão e da fábrica da Clarks até à tragédia de Entre-os-Rios e ao incêndio que destruiu o antigo centro de apoio empresarial.

Para o autarca, estas dificuldades tornaram ainda mais evidente a necessidade de aproximar Castelo de Paiva dos principais eixos rodoviários e de criar melhores condições para atrair investimento, gerar emprego e fixar população.

“Nenhuma estrada, por si só, transforma um território. As infraestruturas aproximam pessoas, reduzem distâncias e criam oportunidades. Mas o desenvolvimento depende da capacidade que tivermos para aproveitar essas oportunidades”, afirmou.

Ricardo Cardoso anunciou também que o município vai avançar “imediatamente” com uma candidatura para ampliar a zona industrial de Lavagueiras, procurando aproveitar as novas acessibilidades para atrair empresas, criar postos de trabalho, aumentar a oferta habitacional e fixar população.

“O verdadeiro sucesso desta obra não será medido apenas pelos quilómetros construídos ou pelos minutos que vamos poupar nas deslocações. Será medido pelas empresas que vierem, pelos empregos que forem criados e pelas famílias que escolherem Castelo de Paiva para construir o seu projeto de vida”, defendeu.

O autarca comparou ainda a atual ligação rodoviária a uma “porta fechada”, símbolo das dificuldades de acesso e do isolamento sentido no concelho ao longo de várias décadas.

“Hoje, o Estado mostra que vai abrir essa porta. Mas abrir a porta será apenas o primeiro passo, porque ela tanto pode servir para entrar como para sair. O que fará toda a diferença será a visão, a estratégia e a determinação com que soubermos aproveitar esta oportunidade”, acrescentou.

“Um ato mínimo de reparação histórica”

Também o presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira destacou o peso simbólico e estratégico da obra, classificando-a como “um ato mínimo de reparação histórica” para uma população marcada pelas dificuldades de acesso e pela tragédia de Entre-os-Rios.

Amadeu Albergaria considerou que o projeto resulta de “quase quatro décadas de luta” e reconheceu o contributo dos diferentes responsáveis políticos que, ao longo dos anos, mantiveram a reivindicação.

O autarca salientou ainda a importância da variante para o nordeste do concelho de Santa Maria da Feira, defendendo que a nova ligação reforçará a mobilidade, a atividade empresarial e a articulação entre os territórios abrangidos.

“Esta via vai trazer seguramente mais empresas, mais emprego, mais habitação e fixação de população”, afirmou, acrescentando que caberá agora aos municípios transformar o investimento público em criação de riqueza.

Obra terá vias para veículos lentos em mais de metade do traçado

Na sua intervenção, Paulo Carmona destacou o impacto que a nova ligação terá na mobilidade e na economia da região, ao permitir um acesso mais rápido e seguro à A32/IC2 e melhorar a ligação à área empresarial de Lavagueiras.

O presidente da Infraestruturas de Portugal salientou ainda a complexidade técnica da intervenção, que contempla várias pontes, viadutos e restabelecimentos, num território particularmente exigente do ponto de vista da construção.

Montenegro espera conclusão antes dos 900 dias

Luís Montenegro destacou a dimensão financeira e a complexidade da obra, lembrando que um investimento de cerca de 70 milhões de euros em apenas dez quilómetros demonstra a necessidade de o Governo estabelecer prioridades perante os recursos disponíveis.

O primeiro-ministro deixou ainda um desafio à DST, manifestando a expectativa de que a empresa consiga antecipar em alguns meses o prazo previsto para a conclusão dos trabalhos.

Montenegro recordou as várias deslocações que fez ao concelho ao longo dos últimos 22 anos e admitiu sentir-se “sensibilizado e até emocionado” por participar, enquanto chefe do Governo, na concretização de uma infraestrutura que acompanhou desde os tempos em que era deputado eleito pelo círculo de Aveiro.

“Esta é, efetivamente, a ligação de Castelo de Paiva à rede viária nacional, de uma forma rápida e expedita”, afirmou.

Para o primeiro-ministro, a nova estrada terá impacto não apenas no transporte de pessoas e mercadorias, mas também no acesso a serviços públicos, estabelecimentos de ensino, instituições sociais e unidades de saúde.

Luís Montenegro rejeitou, contudo, que a decisão tenha sido tomada apenas por razões sentimentais ou pela sua ligação política ao distrito de Aveiro.

“Tem de ser com um critério de justiça, com um critério de que vale a pena e com um critério de que esta é a melhor forma de proteger o interesse público”, declarou.

Durante a intervenção, o chefe do Governo voltou ainda a referir a importância do IC35 para a ligação entre a A4 e a A25 e para a aproximação de territórios como Castelo de Paiva, Cinfães, Arouca, Vale de Cambra e Sever do Vouga, embora não tenha anunciado novos prazos ou decisões relativamente a essa infraestrutura.

Com a assinatura do auto de consignação, fica encerrada uma longa fase marcada por estudos, promessas políticas e concursos públicos. Mais de 30 anos depois, a ligação entre Castelo de Paiva e a A32 deixa formalmente de ser apenas uma reivindicação e entra na fase de execução.

Fotos: Arquivo/Facebook Luís Montenegro

Pedro Gonçalves

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