
“Não é um ‘trabalho’ que me dê direito a férias.” A frase é de Adelaide Gomes, de 45 anos, residente em Vér, na freguesia de Escariz. Com o marido emigrado na Suíça, vive da agricultura e cuida diariamente de duas familiares idosas, a mãe e uma tia, a quem chama “as minhas velhinhas”.
Antes de se dedicar à agricultura, trabalhava numa fábrica em Arouca. A mudança surgiu quando o pai adoeceu: com a filha ainda criança e a necessidade de acompanhar o pai doente, Adelaide deixou o emprego. Foi nesse período que começou a ir para o campo, que já era trabalhado pelo pai, “para se distrair”. Com o tempo, continuou o trabalho do pai e acabou por fazer da agricultura a sua principal atividade.
Atualmente, está coletada e comercializa os produtos tanto a nível local como através do Arouca Agrícola. Entre a produção, os ovos destacam-se: tem cerca de 100 galinhas e refere que será uma das maiores produtoras e vendedoras a nível local. Explica também porque não vende para grandes superfícies: os ovos não estão “carimbados” e, por isso, não têm o controlo exigido para esse tipo de circuito.
Na exploração, mantém uma vaca e, habitualmente, também cria porcos – não para produção comercial, mas para consumo próprio – embora de momento não tenha nenhum. Ao longo do ano, trabalha uma variedade de hortícolas – grelos, cenouras, ervilhas, alfaces, alho-francês, batatas, cebolas, tomates, pepinos, abóboras, repolho, brócolos, entre outros. Neste momento, porém, está apenas a cultivar grelos, depois de o mau tempo e as tempestades das últimas semanas terem dificultado o trabalho de semear e plantar novas culturas.
Além da agricultura, Adelaide continua a cuidar de duas idosas, a mãe e uma tia (irmã do pai) a quem chama “as minhas velhinhas”. De manhã, começa por garantir que a filha, hoje com 14 anos, sai para a escola com tudo encaminhado. Quando precisa de sair para fazer uma entrega ou tratar de algum assunto fora de casa, procura que seja rápido, “uma ou duas horas”, para regressar. “Se fosse pelos animais, dava-lhes comida de manhã ou à noite e podia ir para qualquer sítio”, acrescenta. “Não é um ‘trabalho’ que me dê direito a férias”, resume.
Ligada à comunidade, Adelaide integra a Comissão de Festas de Vér. Ou seja, para lá do trabalho no campo e da rotina que mantém com as duas familiares idosas a seu cargo e com a filha, também reserva tempo para a vida da aldeia e para a organização das tradições locais. Sobre a comissão, deixa ainda um sublinhado: este ano é só de mulheres.
Hoje, Adelaide vive da terra que o pai já trabalhava e mantém a venda em circuitos locais, com apoio do Arouca Agrícola, ajustando a produção ao que cada estação permite. A sua história, contada a partir de Vér, é a passagem de um “passatempo” a atividade principal, sem romantismos e com a responsabilidade familiar sempre ao lado.
Pedro Gonçalves

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