
A porta abre-se com esforço e o pó denuncia anos de abandono. Lá dentro, as paredes e as máquinas guardam o que resta de uma das marcas mais antigas da imprensa local arouquense: o jornal “Defesa de Arouca”, hoje extinto. Foi este o cenário encontrado numa visita às antigas instalações, feita na companhia de Arlindo Matos, proprietário do título e rosto central dessa memória, a apontar, sala a sala, para o que ali funcionou e para o que ficou para trás.
A reconstituição do percurso do jornal ficou completa noutro momento, já fora daquele espaço, numa conversa com Alberto Gonçalves, antigo trabalhador e colaborador com décadas de casa. Entre memórias técnicas, histórias pessoais e episódios de bastidores, os dois testemunhos ajudam a reconstruir a vida de um semanário feito “à mão”, de chumbo, frio e rotinas duras – e que acabou por fechar, com a última edição em janeiro de 2008.
“Era tudo manual”, resume Arlindo Matos, enquanto percorre o espaço e aponta para o que ali funcionou: redação, composição, impressão, gráfica e papelaria. “Foi aqui a minha vida”, acrescenta, num tom que mistura orgulho e cansaço.
Arlindo Matos recua à infância para explicar o início na “Defesa”, começou a trabalhar no jornal com 11 anos, num período em que a prioridade era cumprir, semana após semana, a edição do semanário, e em que aprender passava por começar pelo essencial, “meter as mãos” nas tarefas do dia a dia. Com o tempo, porém, o projeto foi ganhando outra escala: à edição do jornal somaram-se serviços e trabalho comercial. Já Alberto Gonçalves situa o seu arranque com maior precisão cronológica e é a partir do seu testemunho que se consegue datar com segurança a entrada de um dos trabalhadores.
Muito antes dos computadores, a “Defesa de Arouca” fazia-se a chumbo, força de braços e paciência, um trabalho físico, repetitivo e exigente, marcado por rotinas duras. “Eu comecei a trabalhar lá em 66. Julho, agosto, por aí”, recorda Alberto Gonçalves, situando a entrada ainda jovem. “Quando comecei ia buscar água ao tanque da Rua da Arca para lavar as mãos porque não havia água canalizada.”
A produção do jornal implicava tarefas que hoje parecem impensáveis. “Dobrar os jornais era tudo manual”, conta Alberto Gonçalves. A montagem das páginas fazia-se peça a peça, com tipos, espaços e alinhamentos construídos com rigor. “As letras eram todas colocadas ao contrário”, diz, explicando que o texto era composto em chumbo e colocado de forma invertida para depois “marcar” no papel.
O trabalho ocupava a semana. “Antes era só fazer o jornal, eram quatro páginas e ocupava-nos a semana toda”, descreve Arlindo Matos. Mais tarde, o jornal abriu-se ao trabalho comercial como forma de equilibrar contas: “Começou-se a fazer trabalhos comerciais, faturas, esse tipo de coisas.”
Arlindo Matos não fala apenas de um jornal, fala do edifício como quem percorre uma biografia. Ao apontar para a velha máquina de impressão, lembra que “tinha uma manivela” e que, mais tarde, “foi adaptado o motor”. Mas havia um teste incontornável, repetido ao longo de décadas: quando a eletricidade falhava, voltava-se ao princípio. “Quando falhava a luz, era a mão”, diz, explicando que, mesmo com motor, a oficina tinha de estar preparada para trabalhar “à moda antiga”.
Na forma como os dois falam do espaço, surgem também os nomes das máquinas e das peças que marcavam a rotina. Arlindo aponta para a antiga “maquineta de composição” e identifica ainda “uma máquina de fazer faturas”, lembrando a vertente comercial que ajudava a sustentar a casa. Já Alberto Gonçalves dá nome ao salto tecnológico que mudou o ritmo da composição: a Linotype, onde as letras “eram sempre novas” por serem fundidas na própria máquina. E, antes de imprimir, havia um ritual obrigatório: tirar “provas” e enviá-las para validação – um processo que, além de técnico, era também político.
Nessa memória entra também o lado mais físico do ofício. Arlindo reforça que “o jornal era dobrado a mão” – folha a folha – e descreve um ritmo que ocupava tudo: “nunca tive férias, nem tinha horário de trabalho”, recorda, porque a edição semanal não esperava por ninguém. A dobragem manual, como sublinha Alberto Gonçalves, significava horas seguidas a repetir o mesmo gesto, até tarde, para que o jornal estivesse pronto para distribuição.
Do lado técnico, Alberto ajuda a pôr nomes e processos naquilo que Arlindo aponta no espaço. Antes do offset e dos computadores, o coração do jornal era a tipografia de chumbo: composição letra a letra, composição e impressão a partir de formas montadas. A matéria-prima dessa rotina era uma liga metálica que ele descreve sem hesitar: “Aquilo era antimónio, chumbo e estanho”, enumera, explicando que o metal precisava de ser fundido e recuperado continuamente.
A modernização chegou com máquinas que aceleraram a composição – e com novos riscos. Alberto descreve o funcionamento e o preço a pagar: “Quando aquilo não ajustava bem, o chumbo saltava… ainda levei algumas queimadelas.” E sublinha a toxicidade do material: “O chumbo é altamente tóxico.” A rapidez aumentava, mas a oficina continuava a ser um lugar de atenção constante, onde um desvio mínimo podia significar falhas, desperdício e acidentes.
Quando o jornal entrou no ciclo do offset, o trabalho voltou a mudar de forma – mas não perdeu o lado artesanal. Alberto recorda que a transição foi feita sem preparação formal: “De princípio tudo aquilo era novidade, não tínhamos formação nenhuma.” O método era híbrido: escrevia-se o texto no computador, imprimia-se em folhas A4, recortava-se e montava-se em páginas, e só depois seguia para fotografia e película, numa cadeia que ainda exigia precisão manual. Já nas imagens, o caminho era outro: as fotografias tinham de ser tratadas como “peça” cara e demorada, enviadas para Aveiro para se transformar em chapa, antes de voltar à oficina para entrar na impressão.
O resultado destas etapas – manivela, chumbo, offset e computador – é a evolução inteira de um modo de fazer jornal.
A pressão sobre a “Defesa” não se esgota na censura do Estado Novo. Arlindo Matos, ao revisitar a história do jornal, fala de intimidação em diferentes momentos e garante ter vivido “ameaças de morte, muitas” e até “ameaças incendiárias” por causa do que se escrevia e do impacto que o jornal tinha na vila.
No período do Estado Novo, é Alberto Gonçalves quem explica o mecanismo formal da censura prévia: “Tínhamos que tirar provas e mandávamos para Aveiro para serem revistas.” Depois, esperava-se a resposta e, quando havia corte, desmontava-se e substituía-se: “Aquilo que eles lá cortavam, a gente tirava e punha lá outra coisa qualquer. Alguns jornais que deixavam o espaço em branco, para saberem que tinha sido cortado, mas nós substituíamos.”
O episódio mais marcante surge na única vez em que o jornal não saiu e os exemplares foram destruídos. “Queimamos os jornais todos”, afirma Alberto Gonçalves, descrevendo a ida aos correios para recolherem os jornais antes que estes fossem distribuídos e a eliminação dos exemplares para evitar consequências. “Tenho pena de não ter guardado uma cópia, queimamos mesmo tudo.”
Já no rescaldo do 25 de Abril, Alberto Gonçalves recorda um outro tipo de tensão – agora com a rua a falar mais alto – quando apareceu escrito numa parede “abaixo a ‘Defesa de Arouca, jornal fascista’”. O episódio, diz, obrigou a uma reação imediata para evitar que a marca ficasse colada ao rótulo que ali lhe queriam impor.
Arlindo Matos descreve a “Defesa” como uma casa onde a semana era organizada em função do fecho. O ponto crítico, recorda, chegava a meio: “na quarta-feira, à noite, tinha-se de ficar” para fechar e, no dia seguinte, “na quinta, era para o Correio”. O arranque era cedo, “Às 6 da manhã, já subíamos para o jornal”, num ritmo que deixava pouco espaço para pausas.
Enquanto Arlindo fala do ritmo, Alberto Gonçalves desenha o mapa humano do jornal. Recorda uma ligação forte à comunidade e à emigração: “Tínhamos um número de assinantes muito bom, tinha muitos assinantes no estrangeiro também.” O funcionamento assentava ainda numa rede de correspondentes e colaboradores nas freguesias, muitas vezes informais, com foco em vida local e falecimentos.
E havia um capítulo inevitável: o futebol. “As pessoas estavam à espera sempre do relato da bola”, conta Alberto Gonçalves. Nem sempre era o trabalho mais desejado, admite, mas fazia parte do contrato tácito com os leitores: o jornal podia falhar em muita coisa, mas não podia falhar naquilo que a vila queria ler no fim de semana.
A parte mais dura das conversas surge quando se pergunta pelo fim e pela dimensão empresarial do projeto. Aqui, o relato central vem de Alberto Gonçalves, que descreve um modelo onde jornal, gráfica e papelaria funcionavam como um só corpo – e onde faltou controlo e transparência. A frase volta várias vezes: “Nunca houve contas.”
Alberto Gonçalves fala de conflitos societários, de responsabilidades que recaíam sobre quem estava formalmente ligado à gerência e de um encerramento abrupto. “Ele fechou o estabelecimento, disse ‘olha, está aqui a chave’ e virou costas”, descreve, apontando problemas de pagamentos, faturação e dívidas.
Arlindo Matos, proprietário do título, acrescenta um dado concreto sobre a sustentabilidade do projeto: diz que o jornal se aguentava porque a gráfica e a papelaria garantiam receita ao longo da semana – com trabalhos comerciais (como impressos e faturas) e vendas de balcão – ajudando a suportar os custos da edição. Sobre o espaço e o património, Arlindo entra em pormenores: diz que o edifício e parte do recheio acabaram por ser alvo de “propostas” e de um processo de venda em que, segundo se recorda, a compra terá passado por uma empresa e por ligações ao universo familiar. No meio desse percurso, ficaram as marcas físicas: as máquinas ainda no interior – incluindo a velha maquinaria de composição e de impressão que ele vai identificando durante a visita – e um edifício que, para Arlindo, é mais do que um imóvel: é o lugar onde passou “a vida inteira” ligada ao jornal.
A confirmação do fim chega com uma data e um exemplar nas mãos. No interior das antigas instalações, entre edições guardadas e outras já espalhadas pelo chão, Arlindo Matos folheia números recentes e fixa o ponto final: “A última foi em 18 de janeiro de 2008”, diz, apontando para o cabeçalho. Sobre o momento da decisão, resume-o de forma seca: “Entreguei a chave.”
Alberto Gonçalves recorda um fecho igualmente abrupto, vivido já do lado de dentro da operação. “Nós estamos a trabalhar e ele chega lá e diz: ‘olha, está aqui a chave, agora toma conta’”, conta, descrevendo um corte “de um dia para o outro”. A edição que estava pronta, ainda seguiu para o correio, mas, a partir daí, a estrutura desfez-se: os trabalhadores ficaram “à porta” o tempo necessário para formalizar a situação e aceder ao fundo de desemprego.
No fim da visita, o que mais impressiona não é apenas a ferrugem ou o silêncio, mas a sensação de que ali ficou um património técnico e humano sem destino claro. Entre armários, ferramentas e máquinas, está um modo de fazer jornal que praticamente desapareceu.
Alberto Gonçalves, que descreve o ofício com precisão de quem o fez durante décadas, deixa um retrato do compromisso: noites de fecho, frio, trabalho repetitivo, e a sensação de que, apesar de tudo, “dava-se o máximo” para que o jornal saísse. Arlindo Matos, proprietário, resume o resto num fio emocional simples, olhando, de forma emotiva, para o edifício ao qual já não regressava há 18 anos: “Foi aqui a minha vida.”
Fotos: Carlos Pinho
Pedro Gonçalves

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