
No início de novembro, o treinador arouquense Luís Figueiredo, natural de Minhãos (Santa Eulália), registou um novo capítulo na sua carreira, com uma nova experiência além-fronteiras: aceitou o desafio de treinar os sub-21/equipa B do Al Jabalain, onde também foi treinador-adjunto da equipa técnica da equipa principal, totalmente portuguesa.
A nova aventura, o novo desafio na Arábia Saudita terminou em meados de fevereiro. De regresso a Portugal e ao comentário desportivo n’A Bola TV, Luís Figueiredo confessou que gostaria de ficar em Portugal, estando aberto a analisar projetos para a próxima época desportiva (26/27), onde possa inserir-se num contexto ambicioso, com organização e clara intenção de crescimento e competitividade. O Discurso Directo contactou o técnico para obter um balanço desta nova experiência fora de Portugal.
Discurso Directo (DD) – O que é que levou a este término da sua ligação aos Sub-21 do Al-Jabalain?
Luís Figueiredo (LF) – Foi uma experiência fantástica durante o tempo em que eu estive na Arábia Saudita. Culturalmente muito diferente, mas de um crescimento muito rico toda a experiência que eu pude retirar deste projeto. Posso dizer que neste momento sou mais treinador, melhor treinador, do que há 4 meses atrás, sem dúvida nenhuma.
O que levou à minha saída foi o facto de a visão começar a divergir, ou seja, as ideias começarem a divergir e eu penso que quando assim é, nós temos de ter a humildade de não ficar e de chegar a um acordo. Depois, cada um seguir o seu caminho, as portas ficarem abertas para o futuro e, quem sabe, um dia voltar.
DD – Apesar dessas divergências que falou na visão do projeto, fica a ideia de que faz um balanço bastante positivo destes meses de experiência.
LF – Sim! Quando aceitei este projeto, foi também para perceber como é trabalhar numa equipa de sub-21 ou equipa B, porque o contexto é completamente diferente do que uma equipa sénior. Era uma equipa B, estamos sempre sujeitos aos jogadores que vêm da equipa principal, nunca é um grupo fechado, é sempre um grupo aberto, podemos receber jogadores da equipa principal, podemos ter que buscar jogadores ao sub-18 ou sub-19 e constantemente a equipa está sempre a mudar de jogo para jogo, porque depende muito dos jogadores que descem da equipa principal. É um contexto difícil, diferente.
Eu procurei também sair da minha zona de conforto e tentar perceber este projeto, como é trabalhar numa equipa B e, sem dúvida, são estímulos diferentes, são questões que nós temos que nos adaptar, o facto de estarmos constantemente a adaptar os jogadores, muitas vezes estarmos a passar informações a jogadores que não trabalharam connosco durante a semana e tentar fazê-los ver aquilo que têm que fazer e depois chegar ao jogo e ver que, apesar de ter havido só um feedback, digamos, verbal e visual através de vídeo, os jogadores tentarem colocar em prática aquilo que nós tentámos abordar.
Uma equipa B é para trabalhar e para desenvolver jogadores, penso que esse objetivo foi conseguido, muitos jogadores foram para a equipa principal e penso que também muitos jogadores da equipa principal vieram ganhar ritmo à equipa B e conseguiram demonstrar também uma boa qualidade de desenvolvimento.
DD – Qual é que foi a ideia de jogo que procurou implementar? Tendo em conta que a sua última experiência foi uma equipa sênior na Distrital de Aveiro e todo o contexto que isso tem, transportar para um contexto como foi este do sub-21 do Al Jabalain, mesmo até em questões de ideia de jogo, dentro do pensamento que teve, também teve de fazer algumas adaptações para esse contexto?
LF – A minha preocupação aqui foi tentar olhar mais para o desenvolvimento individual do jogador, ou seja, o jogador árabe ainda tem algumas lacunas a nível do conhecimento tático, mas é um jogador com potencial. Claro que depois tem aqui em volta toda a questão cultural, que também tem depois alguma influência, como é lógico.
A minha ideia foi tentar transmitir o que é o jogo, como é que se processa o jogo, quais são os aspetos que nós temos que ter muitas vezes consoante a equipa adversária está a jogar, o que é que nós temos que fazer, e penso que foi notório, e através dos feedbacks que fui recebendo, foi notória uma grande evolução de todos os atletas.
E esse foi o principal objetivo, mais do que ter uma ideia de jogo clara, é o desenvolvimento mais dos atletas e depois, claro, tentar adaptar os jogadores que tínhamos, que muitas vezes vinham da equipa principal, e nós tentarmos adaptá-los depois num conjunto e dar algo, digamos, coletivo à equipa.
DD – O futebol saudita tem estado incontornavelmente na ordem do dia, digamos assim, devido à capacidade de atração de astros mundiais para as equipas principais, mas o lado mais de formação, do futebol de formação dos campeonatos da Arábia Saudita, pelo menos a ideia geral que tem existido, é de que o desenvolvimento tem sido feito ao contrário. Como é que se sente que o futebol de formação na Arábia está a ser trabalhado?
LF – O futebol de formação na Arábia está a desenvolver-se a passos largos. Temos muitos clubes que já têm treinadores estrangeiros, muitos deles a trabalhar com treinadores portugueses. Dou o caso, por exemplo, do Neom, que toda a estrutura é treinadores portugueses. O coordenador técnico é o Rodrigo Magalhães, que foi o coordenador técnico do Seixal e o Neom veio buscar o Benfica. Temos o Al-Ula, que também os treinadores da formação são portugueses. Temos agora o Al-Nassr, que também tem muitos treinadores portugueses na formação. O Al-Ahli tem agora também alguns treinadores portugueses que começaram a ir, neste momento, devido ao Rui Pedro Braz, que está lá como diretor no clube.
Por isso, cada vez mais tem havido esta preocupação dos clubes sauditas em tentar organizar. É algo que leva tempo, porque, por exemplo, ainda existe uma lacuna muito grande nas idades mais jovens. Nós só começámos a ver uma competição mais federada, entre aspas, mais a partir dos sub-14, sub-15. E abaixo disso não existe ainda os campeonatos de sub-10, sub-8, sub-7. Existem mais algumas academias privadas em que trabalham essa parte. Nos grandes clubes, sim, mas não em todos, e penso que é algo que terá que ser alterado, até porque o desenvolvimento dos atletas ocorre com a prática. São estudos já realizados, são precisas 10 mil horas de treino para chegar ao alto rendimento.
Acho que é uma das coisas que deve alterar. Eu perspetivo que isso vai acontecer, porque a Arábia Saudita está a apostar muito no Mundial em 2034. Ou seja, nos próximos 8 anos, acredito que vá mudar muita coisa no futebol saudita e será, sem dúvida, um grande mercado para o treinador português, que tenha um bom nome nesse país.
DD – No regresso a Portugal, quais são as perspetivas de futuro?
LF – Neste momento, e devido à exigência que foi estes últimos meses de pressão, de decisão, penso que uma pequena pausa é benéfica. Agora aproveitar a família, aproveitar de ver também os próximos passos. Voltei à Bola TV para análise e comentário desportivo. Tenho também um projeto que estou a lançar de mentoria a treinadores de futebol e vamos ver, a ideia é ficar num projeto em Portugal. Vamos ver como é que vai ser o futuro.
Simão Duarte

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