
A 13 de janeiro de 2026 terá início a 5ª edição da iniciativa “Tratar o cancro por tu”, que se volta a realizar cinco anos depois. Com apoio da Antena 1, esta iniciativa da IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto), que é liderada por Manuel Sobrinho Simões, serviu de pretexto para o Jornal de Notícias entrevistar o médico patologista de 78 anos de idade, nascido no Porto, mas com o seu coração a faze-lo igualmente arouquense.
Relativamente a esta iniciativa agora referida, Manuel Sobrinho Simões explicou, a meio da entrevista, que esta tem-lhe mostrado que “coexiste em Portugal um grande desenvolvimento científico e tecnológico em algumas áreas da saúde e uma fragilidade muito grande da literacia na saúde”, relatando que “os nossos colaboradores fazem perguntas às pessoas e muitas não têm o conhecimento real do que é um cancro”.
Recuando ao início da entrevista, revelou ter “uma dependência do trabalho”, concordando com uma frase sua, dita há alguns anos, onde mostrou-se “aterrorizado” com a reforma. Nesse trabalho, e sendo indiscutivelmente um rosto incontornável da investigação do cancro, reconheceu que, em Portugal, “estamos a ganhar capacidade para fazer o diagnóstico precoce”, mas que, ainda assim, “somos péssimos na prevenção primária, porque continuamos a não mudar os comportamentos”, referindo-se ao sol, tabaco, álcool e obesidade. Reconhece que, “se fizéssemos tudo bem” nestes comportamentos, “conseguiríamos diminuir os casos de cancro em 40%”. Nos 60% restantes, 30% poderiam ser curados ou controlados com um diagnóstico precoce.
A seu ver, “devia deixar-se de usar a palavra cancro”, pois “abrange muitas situações”, como “cancros biológicos, pequeninos, que não são clinicamente muito mortais” e também porque “a palavra começou a ser usada como uma metáfora social, que lhe aumentou a carga negativa”. Por isso, Sobrinho Simões já propôs que “se chamasse tumor ou neoplasia”. Fez algo semelhante em relação à tiroide, com a Proposta do Porto, em 2003, para alterar a designação para “microtumores”, mas “não passou na OMS (Organização Mundial de Saúde)”.
A prevenção primária tem falhado, até porque “o ser humano não é flor que se cheire”, gracejou. Apontando a existência de muito “individualismo e consumismo”, Sobrinho Simões continua sem compreender “porque é que não conseguimos diminuir o consumo de tabaco, sabendo as consequências que tem”.
Manuel Sobrinho Simões também dá as suas perspetivas acerca de inúmeros temas. Um dos quais o Serviço Nacional de Saúde (SNS), que considera ser “das coisas mais extraordinárias feitas em Portugal”, dando como exemplo da sua eficácia a redução da taxa de mortalidade infantis. “Fico sempre muito aflito quando não se percebe que, se arrebentarmos com o SNS, vamos passar a ter muitas dificuldades na capacidade de resposta”, confessou.
Tendo assinado um manifesto contra o esvaziamento dos centros de saúde, considera que um dos primeiros pontos para melhorar a saúde em Portugal é “deixar de estimular uma ideia: a de que a fazer muitos hospitais, como cogumelos, vamos resolver o problema na saúde”, pelo que, a seu ver, é preciso “otimizar a solução da unidade local de saúde (ULS)”. Diz não ter nada contra o setor privado ou o público, mas coloca uma reserva, que é “não se pode viver de explorar o público a partir de coisas privadas”, mas é “totalmente a favor de que a inovação deve ser privada e deve dar lucro”. Mostrou-se também contra a extinção da Fundação da Ciência e Tecnologia (FCT), pois tem “muito medo” que a extinção desta “vá diminuir as áreas das humanidades, como a sociologia ou o português”.
Por fim, falando também dos seus posicionamentos políticos, foi recordado o momento em que foi mandatário da candidatura presidencial de Mário Soares, em 2005. Apesar de confessar a existência de convites para fazer o mesmo este ano, revelou que irá votar em António José Seguro. Diz sofrer muito com o clima de crispação política, considera “um bocado vergonhosa” a notícia da The Economic, que refere que Portugal tem o melhor desempenho económico de 2025.

Simão Duarte
Foto: Município de Arouca

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