Páscoa em Arouca

Por: António Brandão

Chegava a Primavera, pressentia-se o renascer da vida e, para os nossos antepassados, também era o tempo de renovar a fé e a esperança nos mistérios que, através dos séculos, passaram de pais para filhos. Depois da morte, das lágrimas vertidas, a certeza de que um ser infinito zelava pelos seus destinos.

Foi essa a herança que os crentes e menos crentes receberam e, em muitas das nossas comunidades, continua viva. Diferente, bastante diferente, dos tempos dos «livros da desobriga», dos sermões inflamados e a proclamar as penas eternas para as ovelhas tresmalhadas, sem incompreensões e descriminações para os que escolheram outros caminhos, a verdade é que a Páscoa é, ainda é, inclusive, um momento marcante na vida de numerosas famílias. Também é o tempo escolhido para dinamizar e usufruir de várias actividades, confraternizar e ou rumar a outros destinos.

Mas, sobretudo para os mais velhos, a Páscoa da nossa infância está aí. Primeiro «Os Ramos», a entrada de Cristo em Jerusalém montado num burrinho, como símbolo da Humildade, aclamado pelo povo com ramos de oliveira, como o Libertador, o Messias; o mesmo povo que mais tarde pediu a sua morte e o traiu. Por entre a fé e histórias muito antigas, o Compasso, a Visita Pascal, anunciada pelas campainhas, as procissões, algumas emblemáticas como em Arouca a procissão dos Fogaréus ou até os momentos em que a religião popular como «o ementar das almas» se confunde com a religião de que a Igreja Católica se considera portadora e espalhou pelo mundo inteiro. Agora a sofrer de outras doenças e outros destinos. Um mundo onde os que lavam as mãos como Pilatos ou são traidores como Judas não merecem uma única gota de sangue dum Deus que se deixou crucificar.

De qualquer modo, nada que nos faça esmorecer o sorriso inocente duma criança, o olhar terno de um velhinho como símbolos duma nova vida ou do pôr-do-sol que se adivinha. É essa certeza juntamente com a fé de cada um e à sua medida, que nos ajuda no «Calvário da Vida». Porque a vida por vezes é uma cruz difícil de levar por íngremes caminhos.

Mas basta de falsas ilusões e resta-nos viver a Páscoa e enfrentar os novos e velhos pecados que nos afligem. No Domingo deste fim-de-semana é a «bênção dos ramos», que os nossos pais e avós guardavam para afugentar as trovoadas ou recordar dias felizes. Segue-se a Semana Santa, que assume grande importância em algumas terras de Portugal. Depois o Domingo de Páscoa, onde ainda se realiza o Compasso, como em terras de Arouca, a «Visita de Cristo Ressuscitado». Do «senhor abade» e seus acompanhantes ou alguém a representá-lo.

Como aconteceu durante milhares de anos vivem-se tempos de Páscoa em Arouca, dias felizes. Para trás ficam inúmeras histórias, formas de viver a vida e a fé que ajudou a moldar o carácter.

Resta-nos encarar o futuro, num mundo onde se perderam valores e cada vez mais conturbado.

Para todos uma Páscoa Feliz.

Foto: Carlos Pinho

sobre o autor
Ana Isabel Castro
Discurso Direto
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