Boassas fechou “ano zero” com três pontos, mas manteve vivo o projeto sénior

A ARCD Boassas terminou a época 2025/26 no 13.º lugar da I Divisão da AF Viseu, Zona Norte, com três pontos, sem vitórias no campeonato e com uma temporada assumida internamente como um “ano zero”. Num contexto de reconstrução quase total do plantel, limitações financeiras e incerteza sobre o futuro competitivo, o presidente Filipe Torcato valoriza sobretudo a continuidade do clube e a manutenção da equipa sénior em competição.

Antes de se falar de pontos, golos ou classificações, há épocas que começam numa pergunta mais simples: há equipa para continuar? No caso da ARCD Boassas, a época 2025/26 começou praticamente aí.

O clube cinfanense terminou a I Divisão da AF Viseu, Zona Norte, no último lugar, com três pontos em 24 jornadas, fruto de três empates e 21 derrotas. Marcou 21 golos e sofreu 103. Não venceu qualquer jogo do campeonato e também caiu cedo nas duas competições a eliminar.

Os números são pesados e não há forma de os contornar. Mas, para o presidente Filipe Torcato, reduzi-los apenas à tabela classificativa seria deixar de fora o essencial: a época foi encarada como um ponto de recomeço, num clube que teve de reconstruir praticamente tudo para garantir que o projeto sénior continuava de pé.

Em declarações ao Discurso Directo, Filipe Torcato enquadra a temporada como um “ano zero”, marcado por limitações, mudanças e pela necessidade de manter o clube em competição.

A nova direção encontrou uma realidade desportiva frágil, com apenas quatro atletas da época anterior e a necessidade de formar praticamente um plantel novo. Num contexto em que a própria competição se tornou mais exigente, também pela reestruturação prevista pela Associação de Futebol de Viseu, o Boassas sabia que teria uma missão difícil.

“O objetivo principal era garantir a continuidade do clube”, assume o presidente.

Um plantel feito quase do zero

O Boassas não partiu para 2025/26 com a estabilidade de outros adversários. A mudança diretiva, a saída de vários jogadores e a necessidade de reconstruir a equipa condicionaram logo o arranque.

Segundo Filipe Torcato, a direção encontrou o clube numa situação difícil e sem uma base sólida de plantel. Restavam apenas quatro atletas da época anterior, o que obrigou a procurar jogadores disponíveis para aceitar a realidade do clube: orçamento curto, menos condições estruturais do que vários adversários e a exigência de representar uma aldeia num campeonato competitivo.

A prioridade foi, por isso, juntar um grupo possível antes de pensar em objetivos mais ambiciosos. Mais do que montar uma equipa para lutar pelos lugares cimeiros, o Boassas procurou garantir compromisso, presença e dignidade competitiva.

O presidente sublinha que muitos atletas aceitaram uma realidade distante da de outros clubes, jogando num campo pelado e com condições mais limitadas.

Filipe Torcato reconhece que o Boassas não estava a competir com as mesmas armas dos projetos mais preparados da série. Ainda assim, valoriza a disponibilidade de quem aceitou vestir a camisola numa época particularmente exigente.

A expressão usada pelo clube ajuda a resumir o espírito do grupo: havia jogadores que aceitaram jogar praticamente “por amor à camisola”.

Três empates numa época de muitos danos

Dentro de campo, a temporada foi quase sempre de sofrimento competitivo. O Boassas entrou no campeonato com uma série inicial de derrotas e só conseguiu o primeiro ponto a 30 de novembro, no Campo do Facho, diante do Souselo FC.

O empate a uma bola frente ao clube vizinho teve valor simbólico. Foi o primeiro ponto da época e surgiu num jogo concelhio, perante um adversário que estava também a viver uma temporada especial, marcada pelo regresso aos seniores.

Os outros dois pontos chegaram já na segunda volta. Primeiro, com um empate a duas bolas no terreno do Santacruzense. Depois, com um empate a três golos frente aos Ceireiros, novamente no Campo do Facho.

Foram três momentos de resistência num campeonato em que quase tudo correu contra a equipa. O Boassas não conseguiu transformar esses sinais em vitórias, mas houve jogos em que mostrou capacidade para competir durante mais tempo do que a classificação final pode sugerir.

Ainda assim, a dureza dos números não desaparece. A equipa sofreu 103 golos em 24 jornadas, não manteve a baliza a zero em qualquer jogo e teve várias deslocações particularmente difíceis. As derrotas por 9-0 frente ao Tarouquense e à AD Piães foram os resultados mais pesados de uma época em que a diferença competitiva se tornou evidente em vários momentos.

Filipe Torcato não esconde essas dificuldades, mas destaca uma ideia que considera essencial: a equipa “nunca deixou de lutar”.

Taças sem margem para crescer

Nas competições a eliminar, o percurso também foi curto.

Na Taça Sócios de Mérito da AF Viseu, o Boassas perdeu em casa frente ao Sport Vale Madeiros Benfica, por 4-2. Mais tarde, na Taça da 1.ª Divisão, foi afastado pelo GDCP Oliveira do Douro, que venceu por 3-0.

O adversário viria a terminar o campeonato no 3.º lugar da Zona Norte e com a defesa menos batida da competição, um contexto que ajuda a perceber a distância competitiva entre os dois clubes naquela fase da temporada.

No conjunto das competições oficiais, o Boassas terminou a época sem vitórias. É um dado duro, mas que o clube enquadra dentro de uma temporada de reconstrução e não como uma conclusão definitiva sobre o futuro.

O Campo do Facho e a diferença fora de portas

Um dos fatores apontados pelo clube para explicar parte das dificuldades foi a diferença entre a realidade de treino e jogo em casa e aquilo que a equipa encontrava em muitas deslocações.

O Boassas joga no Campo do Facho, em piso pelado, uma realidade cada vez menos comum no futebol distrital. Fora de casa, encontrava frequentemente campos sintéticos, relvados e dimensões diferentes, o que obrigava a adaptações difíceis para um plantel com limitações físicas e competitivas.

Alguns jogadores não competiam há vários anos, o que também pesou na preparação da época. A condição física, as lesões e o desgaste acumulado ajudaram a explicar uma parte das dificuldades sentidas ao longo do campeonato.

O clube reconhece que houve jogos em que a equipa não conseguiu acompanhar o ritmo dos adversários. Mas também entende que essa diferença não pode ser desligada da realidade estrutural em que o Boassas compete.

Para a direção, a época mostrou aquilo que precisa de ser corrigido: maior estabilidade, melhor preparação, reforços ajustados à realidade do clube e uma base de trabalho que permita à equipa competir de forma mais equilibrada.

Manter o clube vivo também é um resultado

Para Filipe Torcato, o principal balanço da época não está apenas na classificação. O presidente reconhece que os resultados ficaram longe do desejado, mas insiste que havia uma missão à parte da tabela classificativa: garantir que a ARCD Boassas continuava em competição.

Nesse plano, a direção entende que o objetivo essencial foi cumprido. O clube manteve a equipa sénior ativa, terminou o campeonato, preservou uma estrutura mínima e continuou a representar a aldeia no futebol distrital.

Filipe Torcato valoriza esse ponto como uma base para o futuro. Para a direção, mais do que discutir apenas derrotas, era fundamental “manter o clube vivo” e começar a “criar bases para o futuro”.

Essa dimensão comunitária é central no discurso do Boassas. O clube não se vê apenas como uma equipa de futebol. Vê-se como uma representação da aldeia, da sua história e de uma rotina que continua a ter peso local: os domingos no Campo do Facho.

Mesmo numa época difícil, o futebol sénior continuou a ser um ponto de encontro. Sócios, adeptos, amigos, famílias e patrocinadores mantiveram ligação ao clube, numa realidade em que a sobrevivência de uma equipa sénior também depende dessa proximidade.

A direção deixou ainda uma palavra de agradecimento aos patrocinadores, sócios, adeptos, simpatizantes, à Câmara Municipal de Cinfães e à Junta de Freguesia de Oliveira do Douro pelo apoio dado ao longo da época.

O futuro preso ao modelo competitivo

O planeamento da próxima época está também condicionado pela reorganização competitiva da Associação de Futebol de Viseu.

A criação da 2.ª Divisão Distrital e o novo modelo das competições levantam dúvidas ao Boassas. A direção olha com preocupação para a possibilidade de séries demasiado curtas, com poucos jogos e menor diversidade competitiva.

Para um clube como o Boassas, um campeonato com poucas jornadas pode tornar mais difícil motivar jogadores, adeptos, sócios e patrocinadores. Menos jogos significam menos competição, menos ritmo e menor capacidade de envolver a comunidade em torno da equipa.

Filipe Torcato defende que qualquer alteração ao modelo competitivo deve ter em conta a realidade dos clubes mais modestos. No entender do clube, a organização das provas não pode ser pensada apenas a partir das estruturas com maior capacidade financeira ou desportiva.

Enquanto o formato definitivo não estiver totalmente estabilizado, o Boassas terá de preparar a próxima época com cautela. A direção sabe que precisa de reforçar o grupo e corrigir fragilidades, mas também sabe que o contexto competitivo terá influência direta nas decisões.

O que ficou de pé

A época 2025/26 não será recordada pelos resultados. Três pontos, nenhuma vitória, 21 golos marcados, 103 sofridos e eliminações precoces nas taças fazem dela uma temporada dura do ponto de vista desportivo.

Mas, para o Boassas, o balanço não termina aí. A época foi também um teste à resistência do clube. Um ano de reconstrução, de contas à realidade e de tentativa de manter viva uma equipa sénior que representa mais do que uma classificação.

O clube não esconde que terá de fazer melhor. A próxima época exigirá mais estabilidade, um plantel mais preparado, maior capacidade competitiva e uma resposta diferente dentro de campo. Mas essa reconstrução terá de ser feita sem fugir à realidade do Boassas.

Filipe Torcato olha para 2025/26 como um ponto de partida. Não foi uma época de afirmação desportiva, nem poderia ser apresentada como tal. Foi, antes, uma época de resistência.

O Boassas caiu muitas vezes no resultado. Mas não saiu do campo. E, para um clube que começou a temporada com a prioridade de continuar vivo, esse é o primeiro passo para tentar reconstruir.

Pedro Gonçalves

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Discurso Direto
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