
Há épocas que se medem apenas pelos pontos. A do Souselo FC, em 2025/26, dificilmente pode ser analisada apenas pela classificação. O clube terminou a I Divisão da AF Viseu, Zona Norte, no 7.º lugar, com 34 pontos, fruto de 10 vitórias, quatro empates e 10 derrotas, com 42 golos marcados e 49 sofridos. Mas o significado desta temporada vai muito além dos números.
Esta foi a época do regresso da equipa sénior masculina do Souselo FC, 19 anos depois da última participação neste escalão. Um momento aguardado há muito pela comunidade e que marcou uma nova etapa na história do clube.
Em declarações ao Discurso Directo, o presidente Marcos Rocha não escondeu a importância deste passo. “O regresso da equipa sénior masculina do Souselo FC após 19 anos representa o culminar de um projeto sustentado e o cumprimento de um sonho partilhado entre o clube e a comunidade. Desde 2010, quando iniciámos a nossa aposta na formação, traçámos um objetivo claro: construir uma estrutura sólida que permitisse aos nossos jovens crescer dentro do clube até chegarem ao futebol sénior. Hoje, esse sonho é uma realidade.”
A ligação à terra foi uma das imagens de marca deste regresso. Segundo o dirigente, cerca de 98% do plantel foi constituído por atletas da freguesia ou do concelho.
“Construímos uma equipa que é constituída 98% por “filhos da terra”, o que valida todo o trabalho desenvolvido ao longo dos anos na formação e reforça a nossa identidade. O regresso dos seniores devolveu a paixão dos domingos de futebol a Souselo, transformando o estádio num ponto de encontro intergeracional e de festa.”
Antes mesmo do início da competição, o regresso do Souselo ao futebol sénior já tinha dado que falar. A utilização do Estádio Municipal de Souselo esteve envolvida numa polémica relacionada com a possibilidade de partilha do recinto com a AD Piães, equipa que viria a disputar a mesma série.
A situação gerou contestação entre a população, com vários adeptos, souselenses e até mesmo a Junta de Freguesia de Souselo a defender a prioridade do Souselo FC na utilização do estádio da freguesia. O processo acabou por ficar resolvido com a confirmação da utilização do recinto pelo clube local.
Mais do que uma questão prática, o episódio mostrou a importância que o regresso dos seniores tinha para a população. O estádio voltou a ser visto como um símbolo da identidade desportiva da freguesia e como o palco de um reencontro há muito esperado.
Dentro das quatro linhas, a temporada começou longe do cenário ideal. O Souselo entrou no campeonato com derrotas frente ao SC Lamego e ao Oliveira do Douro, antes de conquistar a primeira vitória diante dos Ceireiros. Seguiram-se alguns resultados positivos, mas também várias oscilações que impediram a equipa de ganhar consistência.
Ao fim de 14 jornadas, o conjunto orientado por Carlos Jesus somava apenas 11 pontos. Era uma equipa construída de raiz, com muitos jogadores a conhecerem-se pela primeira vez em contexto competitivo.
Questionado sobre esse período inicial, Marcos Rocha reconheceu as dificuldades naturais do processo.
“O início da nossa caminhada foi marcado pelo enorme desafio de unir um plantel totalmente novo. Tínhamos atletas com muito talento, mas faltava o entrosamento, as rotinas e as ligações dinâmicas que só o tempo e o trabalho trazem.”
O presidente fez também questão de deixar uma palavra ao treinador que iniciou a época.
“É justo deixar um profundo agradecimento ao Mister Carlos Jesus. Ele abraçou esta aventura no início da época com total compromisso e ajudou a escrever esta página histórica do clube.”
Com o decorrer da temporada, o clube decidiu avançar para uma mudança no comando técnico, entregando a equipa a Cláudio Gonçalves. A partir daí, os resultados começaram a aparecer com maior regularidade.
“Com a sua entrada, o grupo de trabalho cresceu substancialmente. A equipa começou a acreditar no seu valor e as dinâmicas em campo evoluíram de forma clara”, referiu Marcos Rocha.
A grande recuperação começou em fevereiro. Depois da derrota caseira frente ao Oliveira do Douro, o Souselo iniciou uma série de sete vitórias consecutivas: Ceireiros, Paivense, Alvite, AD Piães, Vilamaiorense, Boassas e Santacruzense foram os adversários derrotados numa sequência que valeu 21 pontos em 21 possíveis.
Foram sete triunfos seguidos, 16 golos marcados e apenas cinco sofridos. A equipa ganhou confiança, estabilidade e passou a apresentar um rendimento muito diferente daquele que tinha mostrado na primeira metade da época.
Para Marcos Rocha, essa série não surgiu por acaso.
“A impressionante sequência de sete vitórias consecutivas não foi um acaso. Foi a prova real de que o plantel tinha qualidade de sobra para discutir os três pontos com qualquer adversário.”
A reta final reforçou essa ideia. Depois da série vitoriosa, o Souselo empatou com o Tarouquense, perdeu frente aos Vouzelenses e encerrou o campeonato com um empate diante do Parada.
O presidente acredita que a classificação final não traduz totalmente o valor demonstrado pela equipa nos últimos meses.
“Fica uma convicção absoluta de que, com mais tempo de trabalho e estabilidade desde o início, a nossa classificação final teria sido muito superior. A reta final provou que o tempo era o fator que nos faltava.”
Apesar da recuperação, o Souselo terminou no 7.º lugar e poderá ser afetado pela reestruturação competitiva prevista pela Associação de Futebol de Viseu, que poderá levar à criação de uma 2.ª Divisão Distrital.
A possibilidade deixa algum desagrado na direção do clube.
“Apesar de termos terminado a época a praticar um excelente futebol e a somar muitos pontos, o 7.º lugar na Zona Norte poderá ditar uma descida devido a esta alteração de modelo, o que deixa uma sensação inglória.”
Questionado sobre a nova organização competitiva, Marcos Rocha foi claro na sua posição.
“Não concordamos com esta reformulação competitiva. Este formato ignora as realidades geográficas e financeiras dos clubes locais, aumentando os custos e o cansaço dos plantéis com viagens longas. Consideramos que o modelo é altamente penalizador para as equipas do Concelho de Cinfães, obrigando a deslocações excessivamente longas e desgastantes por todo o distrito de Viseu.”
Ainda assim, garante que o clube está preparado para qualquer cenário.
“Caso esta nova realidade se confirme, o impacto no nosso projeto será o de elevar a exigência ao máximo. Os nossos objetivos ficarão imediatamente traçados e serão claríssimos: a subida de divisão.”
O planeamento da próxima época já está em andamento e passa, desde logo, pela continuidade da equipa técnica liderada por Cláudio Gonçalves.
“O Mister Cláudio Gonçalves vai continuar ao leme da equipa na próxima época. Esta estabilidade é fundamental para dar sequência ao excelente trabalho que desenvolveu na reta final do campeonato.”
O treinador já identificou algumas necessidades e o clube pretende reforçar o plantel de forma cirúrgica.
Questionado sobre o perfil dos reforços, Marcos Rocha deixou clara a prioridade.
“A nossa grande prioridade na contratação de novos atletas será para jogadores formados no concelho de Cinfães, garantindo que a equipa continua a representar verdadeiramente a nossa gente.”
A aposta nos jovens da formação continuará igualmente a fazer parte da estratégia do clube.
“Vamos continuar a promover e a integrar no plantel sénior os jovens talentos da nossa formação, cumprindo o objetivo primordial do projeto.”
A temporada ficou ainda marcada pela parceria estabelecida com o Sporting Clube de Braga para a criação da Escola de Formação “Gverreiros do Futuro Souselo”.
O projeto permitirá ao clube beneficiar do acompanhamento técnico e metodológico de uma das academias mais reconhecidas do futebol português.
Para Marcos Rocha, trata-se de um momento importante para o crescimento da estrutura.
“A parceria com o SC Braga é um passo de gigante para o nosso clube. Irá aproximar diretamente as nossas metodologias de treino às de uma das melhores academias do país. Os nossos treinadores terão formação contínua e especializada, tanto de forma presencial na Cidade Desportiva em Braga, como através de videoconferência.”
O acordo abrange atletas dos sub-7 aos sub-19 e inclui também o futebol feminino.
“Com esta ligação estreita, queremos promover os nossos atletas e abrir-lhes portas”
O presidente revelou ainda uma das metas para a próxima época.
“Na próxima época, iremos apostar firmemente na criação de uma ou mais equipas femininas de formação, reforçando o nosso compromisso com a igualdade de oportunidades no desporto. Deixo um convite caloroso a todos os jovens atletas, masculinos e femininos, que queiram evoluir connosco: contactem-nos, venham mostrar o vosso talento e façam parte da ‘Escola de Formação Gverreiros do Futuro Souselo’.”
A época 2025/26 do Souselo FC terminou com um 7.º lugar, mas dificilmente será recordada apenas por isso.
Foi a temporada do regresso dos seniores masculinos quase duas décadas depois. Foi a época em que o estádio voltou a encher-se de adeptos aos domingos. Foi o ano de um projeto construído com jogadores da terra, de uma recuperação assinalável na segunda volta e do início de uma parceria estratégica com o SC Braga.
Como resumiu Marcos Rocha, “O regresso da equipa sénior masculina do Souselo FC após 19 anos representa o culminar de um projeto sustentado e o cumprimento de um sonho partilhado entre o clube e a comunidade.” E, independentemente da divisão em que o Souselo venha a competir na próxima época, a sensação que fica é a de que esse sonho está apenas a começar.
Se 2025/26 foi o ano do regresso, 2026/27 será o ano de consolidar o caminho traçado. E, caso a descida administrativa se confirme, o objetivo já foi assumido pelo presidente: lutar imediatamente pelo regresso ao escalão superior.
Pedro Gonçalves

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