
O projeto, que resultou num espetáculo final, juntou grupos comunitários das freguesias do concelho e resgatou as histórias e saberes
“Desbravar” é um projeto artístico e comunitário que, ao longo de mais de um ano, reuniu memórias, canções e histórias de habitantes das freguesias de Vale de Cambra, dando vida ao património imaterial do concelho. O processo criativo culminou num espetáculo apresentado nos dias 22 e 23 de novembro, no Centro Cultural de Macieira de Cambra, combinando música, teatro, vídeo e fotografia participativa.
Todos os espetáculos partem de um processo de criação, mais curto ou mais longo dependendo do mesmo. No entanto, “Desbravar” não se esgota nestas duas apresentações de 90 minutos. É muito mais do que isso. O projeto insere-se num outro projeto – o Caminhos para a Coesão – colocado em prática no âmbito do Plano de Ação das Comunidades Desfavorecidas, financiado pelo PRR, coordenado pela Câmara Municipal de Vale de Cambra e executado pela ADRIMAG. Este programa consumou-se através da criação das Casas da Comunidade que têm como objetivo combater o isolamento social.
Segundo a ADRIMAG, responsável pela execução do projeto “Desbravar”, estiveram envolvidas 132 pessoas, das quais 65 participaram em palco, maioritariamente mulheres, entre os 57 e os 92 anos. O processo juntou seis grupos comunitários das freguesias de Arões, Macieira de Cambra, Rôge, Junqueira, Cepelos e da União de Freguesias de Vila Chã, Codal, Vila Cova de Perrinho e São Pedro de Castelões. Tudo começou com encontros só com uma ou duas pessoas, muitas vezes nas próprias casas das participantes. Mais tarde, os encontros passaram a decorrer quinzenalmente e, posteriormente, todas as semanas, até à construção do espetáculo final.
“Desbravar” – o espetáculo
Feito o devido enquadramento, é tempo de passar ao espetáculo em si. Cada pormenor, iluminação, imagem e melodia marca a diferença e mostra como o património imaterial de Vale de Cambra continua vivo. De referir que os participantes são acompanhados em palco por Inês Lapa e Raquel Melo, da Associação PELE, responsável pela vertente criativa.
A princípio, ouvem-se as vozes que fazem parte deste projeto e que vão pronunciando o respetivo nome e localidade, fazendo-se acompanhar pelo suporte videográfico de várias atividades como, por exemplo, fazer crochê. O espetáculo prossegue a sua própria linha, com a intercalação de músicas e pequenos áudios onde se contam histórias, sem nunca esquecer os vídeos transmitidos que ajudam no fio narrativo. A certa altura, uma das participantes questiona retoricamente o porquê da escolha desta faixa etária. A resposta é curta e concreta: “porque esta é a idade da sabedoria”.
O espetáculo termina com uma canção onde se escuta “Acaba um dia começa outro/E eu farta de trabalhar/Sempre à espera do domingo/Para poder descansar” e que termina suavemente com “Continuar a cantada/Também sabemos fazer/Vamos lá minhas amigas/Nunca é tarde para aprender.”
“É um património que irá ficar agora registado e que passará a fazer parte do arquivo da Câmara Municipal”
Ao Discurso Directo, o presidente da Câmara Municipal de Vale de Cambra, André Martins da Silva referiu que o impacto desta intervenção foi “muito grande”, sobretudo junto das pessoas que vivem “na parte mais alta do concelho, algumas delas isoladas”. Sublinhou que o projeto possibilitou a recolha de “um património imaterial gigantesco”, agora registado e integrado no arquivo da Câmara Municipal que “poderá trabalhá-lo depois à posteriori noutro tipo de projetos”.
“A abertura das Casas da Comunidade, onde iniciou este projeto Desbravar, permitiu que semanalmente uma equipa de técnicas se deslocasse aos territórios e que trabalhasse com as pessoas, aumentando a sua qualidade de vida, o seu bem-estar e que, obviamente, foi em combate à sua solidão e ao seu isolamento”, acrescentou.
Quanto ao futuro, apesar do término do financiamento do PRR no final deste ano, o autarca assegurou que “este tipo de projetos não está dependente de financiamentos”. Deste modo, afirmou a pretensão de continuar com este projeto e com outros do género, porque “são muito impactantes a melhorar a qualidade de vida dos nossos munícipes”.

“Quando o património é colocado numa prateleira fica ali a ganhar pó e nada nos serve”
Inês Lapa e Raquel Melo, da Associação PELE também prestaram declarações ao nosso jornal. Estas explicaram que foi “um longo processo” em que se começou por ir “à história de cada uma delas (participantes)”. Esse ponto de partida permitiu encontrar histórias que, apesar de serem individuais, “depois no grande grupo já se tornavam uma história comum”.
Outro dos primeiros exercícios consistiu na elaboração daquilo a que designaram de “mapa emocional” de cada freguesia. Nele, assinalaram-se locais que marcaram as vidas das intervenientes: onde viviam, onde se encontravam, onde se realizavam festas, a desfolhada, o posto do leite ou dos correios. Assim, começaram a surgir histórias, memórias e objetos com significado particular, que foram fotografados e integrados no processo artístico. “Ao fim de três meses, tínhamos material suficiente para começar a “cozinhar”, recordou Inês. Foi então que se propôs às participantes reinventar letras de cantadas e cantigas antigas que elas já cantam há muitos anos – “mas parece que havia algumas que davam vontade de continuar – e elas acederam”.
Questionadas sobre a história que mais as marcou, destacaram a da tia Augusta, antiga tecedeira cuja paixão pelo tear acabou por lhe ser travada pelo médico por motivos de saúde. “Só que ela tinha uma paixão tão grande pelo tear que o marido teve inclusive de escangalhar o tear para que ela parasse de o fazer. Mas curiosamente quem nos conta essa história é a própria filha que hoje arrepende-se de não ter aprendido a tecer”, acrescentaram.
Para Inês, o espetáculo mostra que “Vale de Cambra é um concelho com um património muito rico e vivo”. Não se trata de lendas, mas de saberes quotidianos, como o bordar, o cultivar, o cantar, muitas vezes desvalorizados por quem os detém e que “este projeto veio mostrar que aquilo que elas sabem é valioso e não é de conhecimento geral”. Embora algumas participantes não tenham podido subir ao palco por motivos familiares, fizeram questão de garantir a sua presença através de gravações de áudio e vídeo.
Por fim, sobre como definiriam o espetáculo, Inês resume-o como “criação a muitas mãos”. Já Raquel salientou a importância do próprio nome: “Acho que é muito literal, nós temos ainda muito para desbravar. Para que este património se torne vivo e não estático, porque ele quando é colocado numa prateleira fica ali a ganhar pó e nada nos serve”.

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