Nasceu em Londres, cresceu em Arouca e sonha voltar a Inglaterra para jogar futebol: a história de Tiga

Em casa de Tiago Rodrigues, fala-se de futebol praticamente a toda a hora. O avô fez relatos dos jogos do FC Arouca, os pais raramente faltam às partidas do filho e o irmão mais novo também já quer começar a jogar. No meio disto está Tiago, ou Tiga, como é conhecido nos campos, que aos 19 anos se prepara para a primeira época completa como sénior no Fiães.

Nasceu em Londres, mas veio para Arouca aos dois anos. Enquanto os pais continuaram algum tempo em Inglaterra, ficou com os avós e foi aqui que começou a jogar futebol, primeiro em Bustelo e depois nos Salesianos de Arouca.

«Foram anos muito bons. Era uma altura em que o futebol ainda se levava muito na brincadeira, na amizade e na diversão», recorda. Os colegas eram praticamente os mesmos da escola e jogar significava, acima de tudo, passar mais tempo com os amigos.

A pandemia interrompeu uma época que prometia ficar na memória. A equipa estava em primeiro lugar, tinha conseguido uma vitória que perseguia há quatro anos e preparava-se para uma viagem à Madeira. Com os treinos suspensos, Tiago foi fazendo o que podia em casa, muitas vezes apenas com uma bola e uma parede. Foi também nessa altura que apareceu o convite do Feirense.

De repente, estava a defrontar FC Porto, SC Braga e Vitória de Guimarães nos campeonatos nacionais. Passou praticamente do futebol de sete para o de onze e encontrou um nível de exigência diferente. Teve épocas em que foi o melhor marcador da equipa, noutras ficou entre os jogadores mais utilizados e chegou também a jogar com colegas mais velhos.

«Aprendi muita coisa. Mesmo quando os resultados não eram os melhores, eram jogos que nos obrigavam a crescer», conta.

À medida que o futebol começou a ocupar mais espaço, tornou-se também mais difícil conciliar tudo. Tiago estudava em Oliveira de Azeméis, levantava-se às 6h30 e, entre as aulas, os treinos e as viagens, só perto da meia-noite conseguia comer e deitar-se. O pai assegurava as deslocações e a família procurava adaptar os horários de trabalho aos treinos e aos jogos. Mais tarde, quando conciliar tudo se tornou demasiado complicado, decidiram mudar-se para Santa Maria da Feira.

«Acabámos por nos ajustar à vida dele. O sonho dele acaba por ser também o nosso», explica a mãe, Regina Rodrigues, que fala das despesas com chuteiras, equipamentos e viagens, mas sobretudo da vontade de ver o filho conseguir aquilo por que trabalha desde pequeno. Nos últimos três anos, Tiago tem contado também com o apoio de Dominic Fernandes, da Bluetooth, que patrocina as suas chuteiras e a quem a família deixa um agradecimento.

Tiago reconhece esse apoio. «Consigo contar pelos dedos os jogos que os meus pais falharam», diz. Estão quase sempre na bancada e fazem-lhe companhia tanto nos dias bons como naqueles em que as coisas correm pior. «Quero realizar o meu sonho por mim, mas também por eles. Gostava de um dia poder retribuir tudo o que fizeram.»

O avô, Armando Santos, mais conhecido em Arouca por “Armando das Cassetes”, continua igualmente presente. Foi locutor da Rádio Regional de Arouca, fez relatos dos jogos do FC Arouca e foi speaker do clube. Tiago acompanhou esse ambiente desde pequeno e chegou a ser apanha-bolas durante vários anos.

Essa ligação mantém-se, mesmo depois de ter saído do concelho. Sempre que pode, acompanha os jogos do FC Arouca e garante que representar a equipa teria um significado especial: «Se um dia jogasse no Arouca, ficava feliz da vida.»

Para já, o caminho passa pelo Fiães. Chegou ao clube ainda como júnior, começou a treinar com os seniores e conquistou os primeiros minutos na equipa principal. Agora vai disputar o Campeonato SABSEG, uma competição que reconhece ser bastante física e onde terá pela frente jogadores mais velhos e experientes.

Em campo, Tiga sente-se mais confortável a jogar junto à linha. É destro, mas utiliza os dois pés e tanto pode jogar à direita como à esquerda. Já fez também todo o corredor como ala, o que o obriga a participar igualmente no ataque e na defesa. «Temos de correr para a frente para marcar golos, mas também temos de saber correr para trás», explica.

O futebol não fica, porém, pelos treinos e pelos jogos. Tiago acompanha vários campeonatos e, quando regressa a Arouca, aproveita para jogar com os primos. Segue com particular atenção o futebol inglês e espanhol, gosta do Deportivo da Corunha e é adepto do Manchester United, apesar de ter nascido em Londres.

Sabe, no entanto, que uma carreira no futebol tem poucas garantias. Por isso, pretende entrar na faculdade e estudar uma área ligada ao desporto, que lhe permita trabalhar como treinador ou personal trainer caso não consiga seguir o percurso que imagina como jogador.

Para já, quer ganhar o seu espaço no Fiães. Depois, gostaria de chegar à Primeira ou à Segunda Liga portuguesa. Espanha também não está fora de hipótese, mas o sonho maior continua a ser voltar a Inglaterra, seja para jogar na Premier League, no Championship ou na League One. «O meu maior desejo é voltar para Inglaterra e jogar», resume.

Pedro Gonçalves

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