
A edição deste mês da rubrica «Histórias de Vida» é particularmente tocante e merece uma devida contextualização. Na Venezuela, o povo continua a sarar as feridas e a reconstruir as suas casas, depois dos sismos que abalaram o país no final de junho. Até à data de publicação deste jornal, infelizmente, continua a aumentar o número de mortos e ainda existem pessoas desaparecidas. Tudo isto aconteceu no mesmo ano em que Nicolás Maduro, líder do Governo, foi levado por forças de segurança dos Estados Unidos da América para a terra do Tio Sam, onde Maduro está detido desde janeiro.
Com isto em mente, fomos ao encontro de Victor Hugo, um venezuelano de 29 anos de idade que trabalha mesmo ao lado da nossa redação, no Rainha 1. Veio para Arouca em busca de uma vida melhor, que conseguiu ter, desde início, com a ajuda do primo, Sema Velázquez, antigo defesa-central do FC Arouca (2015/16 a 2016/17 e de 2020/21 a 2022/23). Para além de falarmos da sua vida, procuramos também perceber como é que um venezuelano vê todos estes acontecimentos do seu país.
«Eu sou do sul (Ciudad Bolívar), da fronteira com o Brasil. É o maior distrito da Venezuela (Bolívar), mas também é um dos mais ricos, porque é a parte que tem o ouro, mas também é um dos mais pobres. Porque é assim, o país funciona só na capital, só em Caracas. Se as pessoas estão felizes em Caracas, está tudo bem, tudo certo. E o resto, deixa andar. Eu morei em Caracas, antes de vir para Portugal, morei lá um anito. E depois eu vim cá para Portugal. Eu sou primo do jogador que passou pelo FC Arouca, o Velázquez, e vim para cá para tomar conta da hamburgueria. Infelizmente, aquilo fechou, e depois vim para o Rainha 1 e já trabalho no Rainha 1 praí há um ano e meio», começou por relatar.
A vida na Venezuela não é fácil e Victor deu-nos um retrato muito explícito da insegurança que se vive, especialmente à noite: «Depois das 10 da noite, não podes andar na rua. E se estás na rua depois das 10 da noite, é por teu próprio risco. Sabes o que pode acontecer. A maioria dos assaltos são sempre de moto. Dois gajos numa moto, eles chegam à tua beira, param, às vezes uma faca, um arma, qualquer coisa. Tiram-te tudo. Relógio, telemóvel, sapatos. Eu já fui assaltado duas vezes na minha vida, arma na cabeça e tudo».
Para além disso, a qualidade de vida, de um modo geral, não é a melhor, dado o elevado custo de vida. «Houve uma altura que o preço de um quilo de carne era mais do que o ordenado mínimo. O preço dos bens essenciais, comida principalmente, é muito elevado. Esta quantidade não está precisa, mas vamos supor que o ordenado mínimo na Venezuela é 200 euros. Mas ninguém ganha 200 euros lá, ninguém trabalha por 200 euros. As empresas pagam mais, mas pagam por fora. E mesmo assim não dá! Se eu tenho três filhos, o que é que vou fazer com 200 euros? Não faço nada. É complicado!», exemplificou.
Em Arouca, encontrou um sossego que lhe permite lutar pelos seus objetivos e gosta muito de viver cá: «Eu fui bem recebido, sou muito querido aqui em Arouca. Ainda por cima, porque sou o primo do jogador que passou pelo FC Arouca, jogador muito querido. E eu cá sou o primo de Velázquez. Não sou o venezuelano, não, sou o primo do Velázquez (…) Arouca é sossegada, tranquila. Arouca mudou a minha vida. A posta arouquesa é das melhores!»
Simão Duarte
Foto: Pedro Gonçalves

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