
Se a primeira leitura da época passa pelos números e pela luta pela subida, há uma segunda que ajuda a perceber melhor o que o São Martinho foi em 2025/26: o peso do Manuel Emílio dos Santos, a ideia de jogo de Pedro Almeida, a repartição de golos e protagonismo e a forma como o clube se reviu nesta equipa.
Se houve um lugar onde a candidatura do São Martinho se tornou real, foi no Campo Manuel Emílio dos Santos.
Aí passaram vitórias importantes, resultados expressivos e alguns dos dias mais marcantes da temporada: o 5-0 à Geração Rui Dolores Sub-23, o 6-0 ao CD Tarei Sub-23, o 1-0 à Sanjoanense B, o 4-3 ao líder UD Mansores e, já em fase decisiva, o 4-0 ao GD Milheiroense. Só o Caldas São Jorge conseguiu sair de São Martinho com os três pontos.
Pedro Almeida faz uma leitura que vai além da táctica. Para o treinador, o peso da casa tem relação direta com um processo de três anos e com a transformação do ambiente do clube. “No primeiro ano eu cheguei e disse que iria começar a implementar algumas ideias para mudar o clube”, recordou. A partir daí, diz, o São Martinho foi-se tornando mais exigente consigo próprio e também com aquilo que os adeptos passaram a esperar da equipa. “Eu sou do tempo em que via o São Martinho perder em casa contra toda a gente, e estava tudo bem”, afirmou. Hoje, garante, o cenário é outro: “Vejo uma bancada cheia para motivar, para apoiar, para criticar também, que faz parte, mas vejo um ambiente diferente.”
Paulinho, um dos jogadores com mais anos de casa, confirma essa mudança a partir de dentro e reforça a ideia de que ela não nasceu apenas dos resultados. “Há dez anos não era assim”, recordou. Na sua leitura, o ambiente vivido esta época resulta de um caminho construído ao longo do tempo pelo clube, pela direção, pela equipa técnica e pelos próprios jogadores. “O ambiente desta época é fruto do trabalho do presidente, da direção, da equipa técnica atual e também de muitos jogadores que foram passando pelo clube”, resumiu. É por isso que o rendimento caseiro não aparece aqui apenas como um dado estatístico: aparece como sinal de que o São Martinho voltou a fazer do domingo de futebol um acontecimento para a terra.
Além dos resultados, a época deixou uma imagem táctica relativamente nítida do São Martinho.
Pedro Almeida não esconde a ideia com que procurou construir a equipa, mas também não a transforma em slogan. Prefere explicá-la de forma simples: “Gosto de ter bola, gosto de correr riscos, gosto de sair sempre a jogar, não tenho medo de ser pressionado e sair a jogar na mesma, não gosto de bater bola só por bater.” A frase ajuda a perceber aquilo que o São Martinho foi tentando ser ao longo da época: uma equipa que quis assumir o jogo e que procurou não reduzir o futebol distrital a um exercício de despejo e disputa.
Essa identidade, ainda assim, não ficou presa a um único desenho táctico. O treinador explica que a estrutura foi sendo adaptada em função dos adversários, dos momentos do jogo e das características dos jogadores disponíveis. “Jogámos com uma defesa de 3, jogámos com uma defesa de 4, construímos a 3, construímos a 4, sempre de formas diferentes”, disse. A própria pressão também mudava de jogo para jogo. Mas, na leitura do técnico, havia uma base que não se perdia: “Mantivemos sempre, independentemente do sistema, assumimos sempre o jogo com toda a gente.”
Pedro Almeida detalha essa ideia de forma mais concreta quando fala da forma como queria que a equipa se movesse com bola: “A minha ideia é meter a bola, encontrar o espaço vazio, o jogo dentro e o jogo fora, atrair por dentro para jogar por fora, ou atrair por fora para jogar por dentro.” Mais do que a formulação, interessa o que ela revela: o São Martinho foi trabalhado para circular, atrair, soltar e procurar superioridade, em vez de viver apenas de jogo direto ou de impulso.
Essa flexibilidade começou logo na forma como o plantel foi pensado. Numa realidade em que o São Martinho não tem capacidade financeira para competir com alguns clubes de outras zonas do distrito, a escolha dos jogadores, explica o treinador, não se faz apenas pela qualidade técnica ou táctica. “Além de escolher o jogador pela qualidade técnica ou tática, tem que escolher muito o jogador pela qualidade humana”, afirmou. E especificou de seguida aquilo que procurava: “Tem que ser malta que queira compromisso, malta que seja séria, malta que seja divertida, que saiba estar.”
Essa explicação ajuda a cruzar discurso e época. O São Martinho foi tacticamente flexível, mas raramente pareceu uma equipa partida. Mudou o sistema, mudou a forma de chegar ao jogo, ajustou-se ao adversário, mas manteve quase sempre uma identidade reconhecível. E isso, na leitura de Pedro Almeida, não nasceu só da ideia de jogo; nasceu também do tipo de grupo que conseguiu reunir.
Se a identidade coletiva foi uma das marcas do São Martinho, os números individuais ajudam a confirmá-la. Luís Almeida aparece como melhor marcador visível da equipa, com 14 golos. Paulinho surge com sete. Pedro Bento e Diogo Soares aparecem com seis cada. Mais do que fixar uma lista, estes números ajudam a perceber que o São Martinho não dependeu de um único finalizador. Teve vários jogadores a aparecer em zonas de decisão e várias formas de chegar ao golo.
Ainda assim, houve momentos individuais que marcaram a época. Luís Almeida bisou logo no arranque da liga, em Vale. Diogo Soares fez um póquer ao Milheiroense no jogo mais importante da reta final. E José Sousa, na baliza, ganhou protagonismo na segunda metade da época e assinou uma das exibições individuais mais relevantes do ano precisamente frente ao Milheiroense, com um penálti defendido e várias intervenções decisivas.
Esses momentos individuais ajudam a dar rosto à época, mas não alteram a leitura de fundo. O rendimento coletivo foi sempre mais importante do que qualquer figura isolada. O São Martinho não se explicou por uma estrela única; explicou-se antes por uma equipa capaz de repartir protagonismo, de chegar ao golo por diferentes vias e de encontrar respostas em vários setores e em vários momentos do campeonato.
Aos 37 anos, Paulinho participou em 24 jogos e marcou sete golos. Mas o seu peso no São Martinho vai muito além da folha estatística.
“O São Martinho é a minha casa”, afirmou. A frase não surge como figura de estilo. Surge como explicação. Paulinho continua a jogar porque sente que ainda está em condições de competir, porque entende que ainda pode ajudar e porque continua a ver sentido em estar ali. “A única condição que imponho a mim próprio para continuar é sentir que estou bem para poder ajudar”, explicou. E reforçou a ideia de que a idade, por si só, não altera essa forma de estar: “Independentemente da idade, estou lá para competir como todos e dignificar o clube.”
A resposta ajuda a perceber outro lado da época: a ligação do balneário à identidade do clube. Paulinho reconhece que hoje é mais difícil competir com jogadores mais novos, mais rápidos e melhor preparados, mas vê nos atletas mais experientes uma função específica. “Nós, os jogadores mais velhos, somos herdeiros dos valores do clube”, disse. E concretizou logo a seguir o que isso significa no dia a dia: “É nossa missão passar aos mais novos um pouco do que é o São Martinho.”
Também dentro de campo sente que mudou. Hoje diz-se confortável sozinho na frente, com outro avançado ou até numa frente a três, e valoriza mais do que antes a capacidade de baixar, oferecer linhas de passe, criar espaço e servir os colegas. “Há dez anos a resposta a essa pergunta era outra”, disse, com humor, antes de explicar a forma como hoje se vê em campo. “Neste momento sinto-me confortável a jogar sozinho na frente, com outro avançado ao lado ou até numa frente a três” e, acrescentou, “cheguei àquela fase em que me sabe melhor uma assistência do que um golo.”
Há ainda outra frase que ajuda a resumir o lado humano da época e do próprio futebol distrital. Para Paulinho, manter este compromisso ao longo dos anos só é possível de uma maneira: “É preciso gostar muito de futebol e, acima de tudo, gostar das pessoas com quem estamos. Em São Martinho acontecem ambas.”
Essa importância do grupo e das relações dentro do balneário ajuda também a perceber a forma como os jogadores olham para o treinador. Não será por acaso que, no São Martinho, Pedro Almeida surja associado ao nome de Giovanni Trapattoni, lenda italiana do futebol e figura historicamente ligada à exigência, à organização e à capacidade de devolver peso competitivo às equipas que treinou.
A referência nasce, claro, como brincadeira interna. Mas, cruzada com tudo o que o balneário diz sobre o treinador, acaba por sugerir outra coisa: a dimensão que Pedro Almeida foi ganhando dentro do grupo. Paulinho, que o acompanhou de perto neste ciclo, não deixa grandes dúvidas sobre isso. Fala num papel “completamente decisivo” nos últimos três anos, destaca-lhe a capacidade de trabalho, a resiliência e a clareza das ideias, e resume assim a relação do plantel com o treinador: “Todos o respeitam e seguem as suas ideias.”
É nesse sentido que o “Trapattoni” do São Martinho ganha força como imagem. Não tanto por uma comparação literal, mas pelo que a referência transporta dentro do contexto do clube: a ideia de um treinador que ajudou a impor exigência, a dar organização e a devolver ao grupo uma dimensão competitiva mais séria.
A época não se explica apenas por bons resultados ou por um plantel capaz. Explica-se também por esse processo de continuidade, rigor e crença em que Pedro Almeida foi ganhando um peso que o próprio balneário acabou por traduzir nessa alcunha.
A subida não chegou, e isso pesa. Pesa porque esteve perto, porque a reta final foi forte e porque houve momentos em que o São Martinho pareceu verdadeiramente capaz de fechar a época com um desfecho histórico.
Mas reduzir 2025/26 ao ponto que faltou seria olhar só para a classificação e deixar de fora quase tudo o resto. Esta época deixou uma equipa que perdeu pouco, marcou muito, sofreu pouco, fez do seu campo uma fortaleza e respondeu à pressão até ao fim. Deixou também um clube mais reconhecível em campo, mais mobilizador à sua volta e mais consciente daquilo que pode voltar a discutir.
Não houve festa da subida. Houve, isso sim, outra coisa: a confirmação de que o São Martinho recuperou peso competitivo, devolveu ambição à sua terra e voltou a construir uma equipa capaz de se fazer levar a sério. É essa marca que fica desta época – e é a partir dela que o clube entra na próxima.
Foto: CCR São Martinho
Pedro Gonçalves

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