Unidos por um Sonho I – A época que levou o São Martinho até ao limite

“Unidos por um Sonho” foi mais do que um mote de época no CCR São Martinho. Foi também a expressão que melhor resumiu uma campanha em que a equipa andou quase sempre metida na luta pela subida, levou a decisão até à última jornada e terminou a um ponto de transformar uma época muito forte numa época histórica. No final da época, o Discurso Directo falou com o treinador Pedro Almeida e com Paulo Ferreira, o “Paulinho”, para olhar para o campeonato, para os momentos decisivos da caminhada e para o contexto geral em que o clube viveu esta luta pela subida.

O São Martinho fechou 2025/26 no 3.º lugar da II Divisão Distrital da Associação de Futebol de Aveiro, Zona Norte, com 51 pontos em 22 jornadas. A equipa orientada por Pedro Almeida somou 16 vitórias, três empates e três derrotas, marcou 54 golos e sofreu apenas 20. Terminou o campeonato com cinco triunfos consecutivos, chegou ao fim ainda a fazer contas à promoção e saiu da época com a frustração natural de quem ficou tão perto.

Mas a leitura da temporada não se esgota nesse ponto que faltou. O São Martinho fez uma campanha de grande consistência, perdeu pouco, sofreu pouco, foi muito forte em casa, reagiu quase sempre bem aos momentos de maior pressão e voltou a criar à sua volta um ambiente competitivo e emocional que o próprio clube já não vivia assim há vários anos. Pedro Almeida, que ao longo da época falou várias vezes nesse “sonho”, resume o balanço sem fugir ao essencial: “Tem de ser um balanço positivo.”

Uma candidatura construída desde cedo

A época do São Martinho não nasceu apenas dos resultados de março e abril. Foi sendo construída ao longo do ano, desde a lógica de continuidade com que o clube entrou no defeso até à forma como a equipa se instalou cedo na metade superior da tabela.

Pedro Almeida seguiu no comando técnico, a base do grupo foi mantida e o plantel recebeu reforços cirúrgicos, sem alterar o essencial da ideia que vinha a ser trabalhada. Na preparação, o São Martinho perdeu com o Desportivo Canelas por 2-3 e venceu o Vila Boa do Bispo por 4-3. Na Taça PECOL, porém, surgiu o primeiro sinal de que a época teria altos e baixos: empate 1-1 com o Romariz, novo empate fora com a Nogueira da Regedoura e eliminação com derrota pesada no Mosteirô.

A entrada no campeonato mudou o tom. O São Martinho venceu 3-1 no terreno do CRC Vale, bateu o SC Espinho B por 2-0, superou a União da Mata por 2-1, empatou 3-3 com a AD Sanjoanense B, derrotou o CCR Vila Viçosa por 3-1, foi ganhar 1-0 a Caldas São Jorge e recebeu o Mosteirô Sub-23 com um 3-0. Foram sete jornadas iniciais sem perder, suficientes para colocar a equipa, desde cedo, na discussão pelos lugares de cima.

A consistência escrita nos números

A classificação final diz 3.º lugar, mas os números ajudam a perceber porque é que o São Martinho andou tanto tempo metido na luta pela subida.

Os 51 pontos em 22 jogos dão uma média superior a dois pontos por jornada. As 16 vitórias mostram uma equipa que soube transformar boas exibições em resultados. As apenas três derrotas dizem muito da consistência competitiva do grupo. E os 54 golos marcados, cruzados com os 20 sofridos, ajudam a compor o retrato de uma equipa que não viveu apenas de inspiração ofensiva, mas de equilíbrio.

Esse equilíbrio vê-se ainda melhor quando se olha para os jogos sem sofrer. O São Martinho terminou a época com 11 partidas com a baliza a zero, um número relevante num campeonato distrital em que o contexto muda muito de semana para semana, entre campos, arbitragens, estados emocionais e disponibilidade dos próprios jogadores. Mais do que uma equipa de rajadas, o São Martinho foi, durante muitos meses, uma equipa estável.

Os números de casa e fora ajudam a perceber isso com mais clareza. No Campo Manuel Emílio dos Santos, venceu 10 dos 11 jogos, somou 30 pontos, marcou 34 golos e sofreu apenas oito. Fora, fez 21 pontos, com 20 golos marcados e 12 sofridos. O rendimento caseiro foi decisivo, mas os números mostram também que o problema não esteve numa quebra geral longe de casa. Esteve, sobretudo, no peso que certos tropeções ganharam numa época decidida por um ponto.

Os jogos que empurraram o São Martinho para cima

A época do São Martinho também se lê através de alguns jogos que ajudam a perceber porque é que a equipa chegou tão longe na luta pela subida. Não apenas pelos resultados, mas pela forma como esses encontros espelharam várias das características do grupo: capacidade de resposta, peso da bola parada, rendimento em casa, solidez competitiva e, em certos momentos, uma carga emocional muito forte.

O 3-3 no terreno da Sanjoanense B, logo na primeira volta, foi um desses jogos reveladores. Não valeu uma vitória, mas mostrou cedo que o São Martinho tinha argumentos para discutir a época com equipas de outro peso competitivo. Fora de casa, num contexto exigente, a equipa respondeu com três golos e saiu desse encontro ainda mais legitimada na luta pelos lugares de cima.

Já o 5-0 à Geração Rui Dolores Sub-23, no arranque de 2026, funcionou como uma afirmação clara de força. O São Martinho entrou dominante e resolveu praticamente tudo ainda antes do intervalo, muito por culpa de Pedro Bento, que assinou um hat-trick. Primeiro marcou de penálti, aos 8 minutos, voltou a marcar aos 30 e fechou a conta pessoal aos 35. Na segunda parte, Luís Almeida ampliou para 4-0 com um chapéu e Paulinho fechou a goleada, também de penálti, aos 60. O resultado foi expressivo, mas a história do jogo foi ainda mais clara: quase sempre se jogou no sentido da baliza do Rui Dolores, num encontro em que o São Martinho entrou em 2026 a mostrar que queria continuar metido na luta.

O 6-0 ao Tarei teve um peso particular, porque surgiu como resposta imediata à derrota em Milheirós de Poiares e mostrou uma equipa que não queria deixar abrir uma fratura no seu percurso. O São Martinho adiantou-se cedo por Paulinho, aos 10 minutos, chegou ao 2-0 por André Corvo aos 30 e ainda antes do intervalo ampliou por Pedro Bento. Na segunda parte, Luís Almeida marcou por duas vezes, aos 50 e aos 66, e David Cardoso fechou a contagem aos 88, de livre direto. Foi uma vitória larga, construída com autoridade, num jogo em que a diferença entre as duas equipas ficou visível ao longo de quase toda a partida.

O 1-0 à Sanjoanense B, já na segunda volta, teve menos exuberância no marcador, mas talvez mais peso na classificação. Foi um jogo de margem curta, difícil e disputado, resolvido por um lance de bola parada logo no início da segunda parte. Isidro Beleza bateu o canto, André Corvo desviou de cabeça e David Cardoso apareceu junto ao segundo poste para empurrar a bola para dentro, aos 50 minutos. O São Martinho não precisou de deslumbrar para ganhar; precisou de ser competente, paciente e firme num daqueles encontros em que cada ponto começava a ter um peso muito maior.

O 4-3 ao Mansores merece sempre um olhar mais demorado, porque foi um dos dias em que a época pareceu condensar-se num só jogo. O adversário chegava como líder da série, o contexto classificativo era pesado e o São Martinho respondeu com uma vitória de enorme carga emocional, num encontro de sete golos, intenso, muito disputado e cheio de mudanças. João Melo abriu o marcador logo no primeiro minuto e Pedro Santos fez o 2-0 aos 30. O Mansores reagiu na segunda parte, reduziu por Marco Oliveira aos 62 e, depois de Tiago Nunes ter feito o 3-1 aos 71, voltou a encurtar por Gonçalo Rodrigues aos 73. Já perto do fim, Pedro Bento marcou aos 90+4 e parecia fechar a discussão, mas Pedro Lopes ainda fez o 4-3 aos 90+7. A vitória ficou em São Martinho, num jogo em que a bola parada voltou a ter peso importante e em que a equipa mostrou capacidade para resistir num cenário de máxima exigência.

Se o Mansores teve o peso emocional de um grande jogo, o 4-0 ao Milheiroense teve um peso diferente: foi o jogo em que o São Martinho levou a luta pela subida até ao limite. O contexto era exigente e muito específico. A equipa não precisava apenas de ganhar a um rival direto numa fase em que já havia pouca margem para falhar; precisava de vencer por quatro ou mais golos para anular a desvantagem do confronto direto, depois do 3-0 sofrido na primeira volta em Milheirós de Poiares. E a resposta apareceu de forma completa. Diogo Soares marcou logo aos 7 minutos, voltou a bater o guarda-redes adversário aos 42, assinou o hat-trick aos 82 e fechou a contagem aos 86, de penálti, numa tarde em que concentrou em si quase tudo o que o São Martinho teve de mais letal nessa reta final. Pelo meio, José Sousa defendeu um penálti a Ricardo Melo aos 35 minutos, num momento que podia ter relançado o Milheiroense no jogo e que, em vez disso, reforçou ainda mais a sensação de que aquele podia mesmo ser o dia do São Martinho.

O resultado foi pesado, mas não nasceu apenas da eficácia. Houve intensidade, segurança defensiva, capacidade para controlar os momentos de maior aperto e um ambiente muito forte nas bancadas no último jogo em casa da fase regular. Pedro Almeida falou mais tarde desse encontro como um dos mais marcantes da época. “Quem viu o jogo contra o Milheiroense, eu tenho de dizer que senti uma força de cima”, confessou. “Senti uma energia diferente.” Pedro Almeida associou essa carga emocional ao que a equipa viveu em casa ao longo da temporada: “Toda a gente na bancada a sonhar, acho que isso marca a nossa época em casa.”

Onde o São Martinho perdeu margem

A época também se explica pelos pontos que o São Martinho deixou pelo caminho e pela forma como reagiu sempre que foi obrigado a levantar-se.

Pedro Almeida é claro nesse ponto. Na sua leitura, os jogos frente aos adversários mais fortes eram, muitas vezes, os que traziam a equipa mais ligada ao plano e mais disponível para competir no limite. “Nesses jogos a motivação estava toda lá”, afirmou. “Toda a gente sabe que aquele jogo é importante, toda a gente tem aquela adrenalina, toda a gente tem aquela ansiedade do jogo.” O treinador entende que foi noutro tipo de encontros que a subida se começou a complicar: jogos em que, por diferentes razões, o São Martinho não conseguiu transformar superioridade ou favoritismo em pontos.

É nesse quadro que ganham outro peso resultados como o 0-0 no terreno do CCR Vila Viçosa ou o 1-2 caseiro frente ao Caldas São Jorge. Não porque tenham sido, isoladamente, jogos desastrosos, mas porque num campeonato decidido por um ponto qualquer deslize cresce na memória e nas contas. O próprio Pedro Almeida assume isso sem rodeios: a equipa respondeu bem nos momentos de maior exigência, mas deixou escapar margem em jogos onde, olhando para trás, poderia ter feito mais.

Mesmo assim, a resposta do grupo não desapareceu. Depois de vários tropeções numa fase em que já havia pouca margem, o São Martinho fechou a prova com cinco vitórias consecutivas: 5-0 no Mosteirô, 4-3 ao Mansores, 1-0 em Rui Dolores, 4-0 ao Milheiroense e 2-0 em Tarei. A ponta final não chegou para garantir a promoção, mas mostrou que a equipa não largou o campeonato, nem quando a margem de erro já era praticamente nenhuma.

Espinho e o peso emocional da reta final

Entre os jogos que marcaram essa fase do campeonato, o 1-1 em Espinho merece um lugar próprio. Não tanto pelo ponto perdido em si, mas pela forma como abalou o grupo num momento delicado da época.

O jogo explica bem porquê. O São Martinho ficou reduzido a dez unidades logo no início da segunda parte, com a expulsão de André Monteiro num lance que gerou protestos, e ainda assim adiantou-se aos 53 minutos, quando Diogo Soares lançou Luís Almeida e o avançado fez o 0-1 depois de ultrapassar o guarda-redes. O empate do Espinho surgiu aos 72, num lance em que o São Martinho reclamou fora de jogo. Depois disso, a partida entrou num registo de crescente confusão, com expulsões, sucessivas paragens e um final caótico.

No final da partida, Pedro Almeida falou num tom muito mais duro e imediato. “É uma vergonha para a Associação”, disse, ao mesmo tempo que denunciava “ameaça constante”, decisões “escandalosas” e um ambiente que considerou inadmissível.

Mais tarde, já com o campeonato visto de frente para trás, o treinador manteve a leitura de Espinho como um dos pontos emocionalmente mais pesados da temporada, mas explicou-o de forma mais fria. “Foi um momento difícil”, admitiu. “Foi difícil agarrar o balneário, porque toda a gente ficou destroçada.” Foi também nessa conversa de fim de época que acrescentou uma das frases mais fortes sobre o que sentiu nesse dia: “Eu, nesse dia, coloquei o meu cargo à disposição.” E voltou a sublinhar aquilo que, na sua leitura, torna estes episódios mais sensíveis numa realidade como a do São Martinho: “Nós não somos profissionais, nós não vivemos do futebol. Nós utilizamos o futebol como escape da nossa vida pessoal e profissional.”

Paulinho, que foi expulso nessa partida, também olha para Espinho como um caso delicado e raro no seu percurso. O avançado lembra que foi a sua única expulsão em muitos anos de futebol sénior e faz uma leitura que junta desconforto, frustração e autocrítica. “Tanto a equipa de arbitragem como nós, São Martinho, cometemos erros que deveriam ter sido evitados”, afirmou. A frase ajuda a perceber porque é que o jogo de Espinho continua a ter um lugar próprio na memória da época: não foi apenas um tropeção, foi um momento que expôs a face mais emocional de um campeonato disputado por jogadores que treinam depois do trabalho, chegam tarde a casa e voltam à rotina no dia seguinte.

Foi entre essa consistência competitiva, a força do Manuel Emílio dos Santos, os jogos grandes e uma reta final vivida no limite que o São Martinho levou o campeonato até à última jornada. Na segunda parte desta reportagem, o foco passa para a fortaleza contruída em casa, para a ideia de jogo de Pedro Almeida, para os nomes da época e para a forma como o clube se reviu nesta equipa.

Foto: Simão Duarte

Pedro Gonçalves

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