
A época da AD Piães começou antes do primeiro apito. Começou ainda no verão, fora das quatro linhas, com uma polémica que envolveu o Estádio Municipal de Souselo e a possibilidade de partilha do recinto com o Souselo FC, adversário direto na I Divisão da AF Viseu, Zona Norte.
A solução acabou por afastar a AD Piães desse cenário. O Estádio Municipal de Souselo ficou reservado ao Souselo FC e às Velhas Guardas da freguesia, obrigando o clube de Santiago de Piães a seguir a época com a solução possível: treinar em Alpendorada e jogar em Nespereira.
Esse contexto não explica tudo, mas ajuda a perceber o ponto de partida de uma temporada que nunca deixou de ter uma certa instabilidade à volta. Dentro de campo, porém, o início foi forte. Muito forte.
O Piães entrou no campeonato a vencer, marcou muito nas primeiras jornadas, não sofreu golos nos três primeiros jogos e chegou à liderança da Zona Norte. A equipa parecia confirmar aquilo que o clube tinha assumido antes da época começar: a ambição passava por discutir a subida à Divisão de Honra.
Em conversa com o Discurso Directo, o presidente da AD Piães reconheceu que o objetivo inicial era claro.
“As expectativas não eram estas. No início da temporada, entre direção, equipa técnica e jogadores, assumimos que o objetivo era a subida de divisão. Era o primeiro e único objetivo que tínhamos.”
O resultado final, por isso, ficou longe daquilo que o clube esperava.
“A época ficou muito, mas muito abaixo. Quando demos por nós, em vez de estarmos a lutar para subir de divisão, estávamos a lutar pela permanência nesta divisão.”
A entrada no campeonato criou expectativas. A AD Piães apresentou-se com uma equipa capaz de atacar bem, pressionar os adversários e resolver jogos com autoridade. Nas primeiras jornadas, o conjunto orientado por Bruno Brito mostrou uma imagem forte e competitiva.
O presidente lembra esse período como a fase em que a equipa parecia mais próxima daquilo que tinha sido pensado no início da época.
“Começámos o campeonato muito fortes, muito bem e muito focados. Nos primeiros três jogos tivemos três goleadas expressivas sem sofrer qualquer golo: íamos em primeiro, com o melhor ataque e a melhor defesa.”
A equipa continuou bem colocada durante uma parte importante da prova, ainda com o objetivo ao alcance.
“Até ao início da segunda volta íamos muito bem encaminhados, nos lugares cimeiros, e tínhamos o objetivo ao nosso alcance.”
O problema foi tudo o que veio depois. O campeonato começou a expor fragilidades, a equipa perdeu continuidade e os bons momentos passaram a aparecer de forma intermitente. O Piães continuou a ter jogos fortes, continuou a marcar, continuou a mostrar capacidade ofensiva, mas deixou de conseguir juntar semanas seguidas ao mesmo nível.
A época ficou presa a essa contradição: havia qualidade, havia momentos de superioridade, mas faltou consistência para transformar esses sinais numa verdadeira candidatura à subida.
A AD Piães terminou a época como uma das equipas com maior capacidade ofensiva da série. Mas esse dado, isolado, não chega para explicar o campeonato.
Houve jogos em que o Piães foi claramente superior. Houve goleadas, vitórias convincentes e períodos em que a equipa mostrou futebol para mais do que o 6.º lugar. O problema esteve na incapacidade de repetir esse nível durante tempo suficiente.
O presidente valorizou a produção ofensiva da equipa e adiantou que essa base deverá manter-se na próxima temporada.
“Fomos dos melhores ataques do campeonato, salvo erro o terceiro melhor ataque. A base ofensiva vamos mantê-la toda, já fechámos com os jogadores.”
Para a direção, o registo ofensivo é uma das notas positivas da época, mas também um ponto de partida para corrigir aquilo que não correu bem.
“Não é normal uma equipa ultrapassar a barreira dos 50 golos em 24 jogos. É uma média muito interessante. Agora é tentar manter aquilo que se fez bem e corrigir aquilo que se fez mal.”
A AD Piães não foi uma equipa sem argumentos. Foi uma equipa que os teve, mas nem sempre os conseguiu juntar no momento certo. Perdeu jogos que a afastaram do topo, não aproveitou fases em que podia ter encurtado distâncias e acabou por ficar numa posição que soube a pouco para quem tinha partido com ambição de subida.
Um dos momentos que mais condicionou a época foi a lesão grave de Azevedo. O jogador era uma das principais referências ofensivas da equipa e vinha a assumir um papel importante no rendimento do Piães.
A lesão, com rotura total de ligamentos, obrigou-o a cirurgia e afastou-o do resto da temporada. Para o clube, foi um golpe pesado, não apenas pelo valor individual do jogador, mas também pelo impacto que teve na dinâmica ofensiva e emocional da equipa.
“As coisas começaram a correr menos bem a partir do momento em que o nosso melhor marcador, o Azevedo, teve uma lesão gravíssima, uma rotura total de ligamentos. Teve de ser operado e perdeu praticamente o resto da época.”
O Piães não deixou de marcar golos depois disso, mas perdeu uma referência importante numa fase em que precisava de estabilidade para continuar a lutar pelos lugares de cima.
“A falta do Azevedo retirou-nos um bocadinho do caudal ofensivo que tínhamos. Continuámos a ter muitos jogos com caudal ofensivo, mas faltava-nos ali o Azevedo.”
Mesmo com a quebra provocada por essa ausência, o Piães manteve uma produção ofensiva relevante, mas a equipa já não conseguiu recuperar a consistência que tinha mostrado no início.
Entre os vários jogos que marcaram a época, a derrota em Souselo surge como um dos momentos mais simbólicos.
O Piães tinha vencido o Souselo por 3-0 na primeira volta, mas perdeu por 2-1 na deslocação ao terreno do adversário concelhio. Mais do que o resultado, o jogo surgiu num momento em que a equipa acumulava baixas, lesões e algum desgaste.
Na leitura do presidente, essa derrota teve peso emocional. O grupo já vinha condicionado e o resultado em Souselo acabou por funcionar como um ponto de viragem negativo, num período em que a equipa precisava de reagir para se manter ligada aos lugares da frente.
“A partir da derrota em Souselo, acho que a equipa caiu animicamente. Foi um jogo em que estávamos com muitas lesões, era um dérbi, não entrámos concentrados, não entrámos com vontade de ganhar e, a partir daí, tivemos uma série de derrotas consecutivas.”
Não foi, naturalmente, o único resultado a explicar o 6.º lugar. Mas foi um daqueles jogos que ficam como fotografia de uma época: o Piães tinha qualidade para mais, tinha ambição para mais, mas nem sempre conseguiu responder nos momentos em que a margem de erro era menor.
“Acho que foi a partir desse jogo que as coisas mudaram.”
Nas competições a eliminar, a época teve dois caminhos diferentes.
Na Taça Sócios de Mérito da AF Viseu, o Piães venceu o Sport Cabanas Viriato Benfica por 3-2 na primeira eliminatória, mas caiu logo na ronda seguinte diante do Carregal do Sal, numa derrota pesada por 6-2.
Na Taça da 1.ª Divisão, o percurso foi mais longo. A equipa eliminou o GD Santacombadense e o Sport Vale de Madeiros Benfica, antes de cair nos quartos de final frente ao Tarouquense.
O jogo com o Tarouquense terminou com derrota por 2-0 após prolongamento. Foi uma eliminação diante de uma das equipas mais fortes da série e que viria a terminar o campeonato no 2.º lugar. Ainda assim, para uma equipa que tinha assumido ambição alta, a época nas taças também não foi suficiente para compensar o que falhou no campeonato.
A época terminou também com a saída da equipa técnica liderada por Bruno Brito. O treinador tinha sido confirmado para 2025/26 com o objetivo claro de lutar pela subida e iniciou a temporada com uma equipa construída para competir nos lugares da frente.
A ligação terminou no final da época. O clube anunciou a saída da equipa técnica nas redes sociais com uma mensagem curta, mas simbólica: “Hoje encerra-se um ciclo!”
Bruno Brito saiu depois de uma temporada em que a AD Piães mostrou argumentos ofensivos, teve momentos de qualidade e chegou a liderar a Zona Norte, mas não conseguiu transformar o arranque forte numa candidatura até ao fim.
A saída fecha uma etapa e abre espaço para um novo ciclo, numa altura em que o clube terá de decidir como quer atacar 2026/27: com a mesma ambição, mas talvez com menos pressão pública sobre a subida.
Fora das quatro linhas, a AD Piães continua também a viver uma realidade particular: a ausência de uma casa própria com condições definitivas para treinar e jogar.
Na próxima época, a equipa deverá continuar a treinar em Alpendorada e a jogar em Nespereira, enquanto o clube trabalha, em conjunto com a Junta de Freguesia de Santiago de Piães e o Município de Cinfães, no projeto de um futuro complexo desportivo.
O objetivo passa por criar condições mais estáveis para o clube, num terreno com cerca de sete mil metros quadrados, em Santiago de Piães. Para a direção, esta é uma questão estrutural e uma das prioridades para o futuro da associação.
“Neste momento estamos em reuniões com a Junta de Santiago de Piães e com o Município de Cinfães para a construção do nosso complexo desportivo.”
Segundo o presidente, o clube tem um terreno próprio, onde existia o antigo campo da Associação Desportiva de Piães.
“Temos um terreno nosso, de sete mil metros quadrados, em Santiago de Piães, que era o antigo campo da Associação Desportiva de Piães.”
O processo está em andamento e já envolveu contactos com proprietários e levantamentos técnicos.
“Já falámos com os proprietários dos terrenos, estamos em negociações com o Município e já estiveram pessoas do Município a fazer o levantamento topográfico e o estudo para a criação do complexo desportivo.”
A expetativa do clube é que o projeto possa avançar nos próximos anos.
“Esperamos que, no máximo daqui a três anos, o campo seja inaugurado.”
Até lá, a AD Piães continuará a viver entre treinos e jogos fora da freguesia.
“Vamos continuar a treinar em Alpendorada e a jogar em Nespereira, porque infelizmente não temos casa e temos de andar com ela às costas.”
A época desportiva mostrou que a AD Piães tem massa associativa, ambição e capacidade para atrair jogadores. Mas mostrou também que, sem uma infraestrutura própria consolidada, o crescimento do clube continua condicionado.
A criação de um complexo desportivo seria, por isso, mais do que uma melhoria logística. Seria um passo essencial para dar ao clube uma base mais forte, capaz de sustentar projetos séniores, formação e crescimento a médio prazo.
Apesar da época ter ficado abaixo das expectativas, a AD Piães não abdica da ambição. O clube quer voltar a competir, reforçar o plantel e manter uma base capaz de discutir os jogos com qualquer adversário.
Mas o discurso para 2026/27 deverá ser diferente. Depois de uma época em que a subida foi assumida como objetivo e acabou por não acontecer, a direção prefere não colocar desde já esse peso em cima da equipa.
“Este ano não vamos assumir o favoritismo. O ano passado assumimos que queríamos subir; este ano vamos andar jogo a jogo, com calma, e ver como as coisas correm.”
A subida continua a ser um desejo claro, mas o clube quer gerir melhor os tempos e as expectativas.
“O que queremos é subir de divisão, isso é óbvio, como todas as equipas que estão nesta divisão querem subir. Mas não vamos assumir isso como objetivo inicial.”
A experiência da última temporada deixou uma lição sobre o peso da pressão colocada desde o arranque.
“Acho que foi mau termos assumido que íamos subir de divisão, porque criou ali um bloqueio nos jogadores. Bastou um jogo correr menos bem para ficarmos sem confiança.”
A ideia passa por avançar com mais calma e perceber, com o campeonato em andamento, até onde a equipa pode chegar.
“Quando acharmos que temos capacidade para subir, vamos assumi-lo. Neste momento, não.”
Em termos de plantel, a prioridade passa por manter a base principal e reforçar as posições consideradas necessárias.
“Já fechámos 12 jogadores da temporada passada. O objetivo passa por manter a espinha dorsal da equipa e reforçar as posições que achamos necessárias, acrescentando aquilo que nos fez falta na época passada.”
Fora do plano competitivo, a associação continua também a investir em condições de funcionamento. Depois da aquisição de uma viatura totalmente elétrica no ano anterior, a AD Piães prepara a apresentação de outro veículo novo.
“No ano passado fizemos a aquisição de uma viatura 100% elétrica e, no dia 8 de agosto, vamos fazer a apresentação de outro veículo, 100% novo.”
A época 2025/26 da AD Piães não foi uma época falhada por falta de qualidade. Foi uma época falhada em relação ao objetivo traçado.
A equipa começou o campeonato em grande, chegou à liderança, apresentou capacidade ofensiva e mostrou, em vários jogos, argumentos para mais do que o 6.º lugar. Mas perdeu demasiados pontos, sofreu com lesões importantes, não teve continuidade emocional e competitiva, e acabou por fechar o campeonato longe da subida que tinha assumido como meta.
Ao contrário de outros clubes, o Piães não parte de uma lógica de sobrevivência nem de reconstrução total. Parte de uma ambição assumida. E é precisamente por isso que a exigência é diferente.
O 6.º lugar não apaga o potencial da equipa, mas deixa uma mensagem clara: para subir, não chega começar bem, marcar muito ou ter bons momentos. É preciso atravessar a época inteira com estabilidade.
Em 2025/26, a AD Piães mostrou que tem argumentos. Em 2026/27, terá de mostrar que consegue transformá-los num campeonato mais consistente.
Pedro Gonçalves

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