Thales sobre a passagem no FCArouca: “Foi marcante e vai ficar para toda a história”

Eis a segunda parte da entrevista a Thales Oleques, antigo lateral direito e capitão do FCArouca. Nesta segunda e última parte da entrevista, o atleta brasileiro fala-nos da sua passagem pelo FCArouca e do futuro da sua carreira.

Discurso Direto (DD): Quando o Arouca desce da Segunda Liga para o Campeonato de Portugal, foi uma fase muito conturbada, tanto que houve notícias de que os jogadores tiveram um treino já no final da época, chegaram ao estádio e estavam a portas fechadas. Depois também houve uma comissão administrativa do clube, que esteve em vésperas de terminar. Esse período muito conturbado do FCArouca, como é que dentro do balneário os jogadores lidaram com esse momento?

Thales Oleques (TO): Ficamos muito tristes por essa descida de divisão, não só os jogadores, todo o pessoal que estava envolvido. Na carreira do jogador, comissão técnica, direção, presidência, deixa uma marca muito negativa para si. A gente vive com a sensação de “não consegui cumprir o meu papel”. Mas não foi por causa do trabalho, foram fatores que no futebol às vezes acontecem. Todos ali tivemos esse sentimento de impotência, que não tínhamos mais o que fazer. Apesar de termos jogados contra a Oliveirense, eles também estavam nessa situação de possível descida de divisão. Ali, foi um confronto direto, onde infelizmente nós acabamos por descer de divisão. O clima ficou um clima de muita tristeza, porque ninguém quer passar isso. Eu ainda tinha amigos na Oliveirense, acaba o jogo e um deles chega e diz-me assim: “Thales, eu não vou comemorar a minha permanência, porque se eu estivesse comemorando a minha permanência, estaria comemorando a tua descida de divisão e eu não quero isso”. Para mim, isso foi também uma coisa muito marcante, no lugar dele eu também não faria isso. Apesar de não ser companheiro de clube, um amigo que já conheço há muito tempo, ver o sofrimento dessa pessoa e eu estar a comemorar. Acho que não é profissional, não é um sentimento real da amizade. Dessa questão dos treinos, aí na verdade foi uma falta de comunicação. Não nos conseguíamos comunicar direito, o pessoal estava triste, uns que já queriam ir embora. Foi uma falta de comunicação, de falar “Vamo-nos apresentar certo dia”, do que uma questão de não contar com os jogadores. Foi mais essa falta de comunicação por causa do pessoal triste, o que é normal, nesse período, ter acontecido.

DD: A verdade é que, depois desse momento triste, foram uma sequência de vários momentos felizes para o Arouca que o Thales acaba por viver. Eu recordo-me perfeitamente de ser altura de pandemia, estádios fechados, e de estar em casa a ver o último jogo do play-off. Assim que o árbitro termina a partida, a Sport TV mostrou uma imagem memorável do Thales e do Adílio a chorarem. Qual foi o sentimento de subir do Campeonato de Portugal para a Segunda Liga e da Segunda Liga para a Primeira?

TO: Daquele sentimento de impotência que tivemos na descida da divisão, naquele momento ali passa tudo. Todo o trajeto passa na tua mente. Eu acredito que tudo o que acontece na nossa vida tem um propósito. E todos os que estavam envolvidos tinham de passar por esse propósito para chegar naquele momento decisivo contra o Rio Ave, um clube extraordinariamente bom, com jogadores de alta qualidade. Chegamos ao nosso jogo em casa, conseguimos fazer um 3-0, ir ao jogo fora e conseguimos ganhar novamente por 2-0. Concretizar essa nossa subida com duas vitórias em cima de um clube muito bem estruturado e que nesse ano tinha sido eliminado nos penalties pelo Milan na Liga Europa. Nesse momento, acaba o jogo, olhas para o pessoal extremamente contente, que é um momento de euforia e vês que o trabalho valeu a pena. Aí vem o sentimento de dever cumprido, que tudo o que fizeste valeu a pena e é um momento que vai ficar para sempre marcado na minha vida, essa nossa segunda subida seguida. Isso para o clube foi de grande importância, o clube merecia todo o nosso trabalho, que estivéssemos de volta à primeira divisão. Entre os jogadores, como falei, um ambiente extraordinário, íamos para o treino e não tínhamos dias maus. A gente chegava para treinar e todos os jogadores felizes. Tivemos essa nossa sequência final, depois do jogo fora contra o Vizela do treinador Álvaro Pacheco, nós empatamos e no final chegamos ao balneário, reunimo-nos e falamos: “ A gente acredita mesmo que é possível subir de divisão”. O pessoal falou assim “A gente acredita”. “Então pronto, a partir de hoje, não vamos perder mais nenhum jogo”. Essa virada de chave foi muito definitiva. A partir desse jogo, começamos a ganhar e a confiança do pessoal começou a aparecer. Eram jogos que estávamos a jogar, entrávamos em campo já com esse sentimento “Hoje nós vamos ganhar o jogo”. Houve um jogo muito marcante também que foi em casa contra o Casa Pia, que precisávamos daquela vitória e o jogo estava empatado. Se não me engano, começamos a perder, estava 1-1 e no segundo tempo consigo dar um passe para o atacante, acaba de entrar no jogo, passo para ele e ele faz o golo. Nesse momento, tu vês que vais acontecer, começas a acreditar de verdade que as coisas que vão acontecendo durante o processo, tudo corre em direção ao que tu acreditas e queres. Depois naquele final, o abraço com o Adílio, eu tenho um sentimento de irmão, de verdade. A gente brincava que eu cuidava dele como um pai. Ele vivia sozinho e estávamos sempre juntos. Natal, Ano Novo, todas as datas festivas ele passava connosco. Depois de ver tudo o que a gente passou, desde esse período, tu vês “A gente ficou todo este tempo todo junto, hoje conseguimos juntos o acesso à primeira divisão”. Não tem preço para isso. A emoção fala mais alto, acabamos a colocar para fora, a gente grita, chora, tudo ao mesmo tempo.

DD: Neste momento, muitos dos jogadores com que o Thales conviveu acabaram por sair do clube. Ainda tem alguma ligação com eles?

TO: Tenho contacto sim, até mesmo com o Basso que saiu e veio para o Santos e voltou para o Estoril agora. Com o Quaresma, tenho contacto, com o Bruno Marques, Velasquez, com o pessoal da Vila. A gente cria um vínculo com as pessoas, não tem como falar que foi só um momento. Tu crias uma certa identidade, um vínculo, até com o mister Armando Evangelista. Foi marcante e vai ficar para toda a história, sempre se vão lembrar que esse grupo, com esses jogadores, essa equipa técnica. É gratificante e fica marcado na vida e na história do clube também.

DD: E com a estrutura do clube?

TO: Com eles é mais difícil, não que a gente não tenha vínculo, mas por causa do contacto que a gente tinha em balneário. Ainda tenho contacto com pessoal que trabalha lá, mas mais com os jogadores por causa dessa questão. A gente fala que está mais tempo em trabalho com os colegas de clube do que com as nossas famílias, então cria-se mais esse vínculo com os jogadores.

DD: O Thales tinha contrato com o Arouca, contudo na época em que o Thales sai não integra o plantel, acaba por treinar à parte e, se bem me recordo, falou com a Renascença, mostrando vontade de continuar. Queria perguntar o que levou à rescisão amigável do contrato?

TO: Haviam já propostas e contactos, chegaram até durante a última época no Arouca de possível saída mas não aconteceu. Depois de tudo isso, achamos que era o momento de sair, tanto por questões familiares. O meu filho tinha pouco contacto com a família aqui no Brasil, nós só víamos 30 dias por ano. Foi aquele período em que ele começa a entender e a sentir falta. Tudo isso foi um peso na decisão, por isso o nosso retorno ao Brasil. A questão familiar foi um peso muito grande na nossa decisão.

DD: Como está a ser a experiência de regressar ao Brasil e ao futebol brasileiro?

TO: Eu saí muito cedo do Brasil, com 17/18 anos. Joguei o meio primeiro campeonato profissional no Paulista de Jundiaí. Eu tive pouco contacto com o futebol brasileiro na questão profissional, então também era um sonho retornar ao Brasil e jogar o mais alto escalão do futebol nacional. Era o sonho da minha família me ver a jogar no Brasil, estar mais perto deles. Tudo isso é colocado na balança na hora da decisão.

DD: Quais são as suas perspetivas para o futuro da carreira, se irá manter-se no campeonato brasileiro, se eventualmente voltará a Portugal?

TO: Eu costumo pensar que, enquanto estou no clube, vivo o que o clube está me oferecendo. Tenho contrato aqui até ao meio do ano, então não procuro a saída, procuro viver aqui a minha experiência ao máximo. Por isso a gente tem os nossos empresários, nessa questão eles tomam conta. Claro que a gente pensa, mas isso depende das propostas que a gente receber.

Fotos gentilmente cedidas pelo Thales Oleques

Texto: Simão Duarte

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