#NãoPodias mas já podes

As comemorações dos 50 anos do 25 de abril são mote para a campanha #nãopodias, que pretende elucidar a juventude e recordar as pessoas mais velhas sobre aquilo que não era permitido antes da revolução. São aspetos hoje dados como garantidos, todavia, só são agora possíveis porque em 1974 chegou a madrugada que Sophia esperava.

Falamos de atitudes, posições ou percursos proibidos. Expressar opiniões, discordar das políticas vigentes, viajar sem autorização, beijar quem se amava em espaços públicos, estudar no ensino superior, votar livremente, ter direitos salariais e laborais ou ter direito à defesa. Também não se podia, ou não se convinha, adoecer, sobretudo no caso de pessoas pobres (a maioria!). É verdade que o Serviço Nacional de Saúde é, tantas vezes, motivo para reclamarmos do sistema, mas antes do 25 de abril de 1974 o SNS não existia sequer. O acesso a cuidados de saúde era desigual e limitado, com uma rede pública muito insuficiente. Por exemplo, em 1970, por cada 1000 bebés que nasciam, 56 morriam, enquanto hoje esse valor de mortalidade é de 2,4. Também não se podia reunir em associação. O associativismo é mais uma das conquistas de abril e sabemos bem o que se consegue através desta alavanca para transformar e ajudar a desenvolver a comunidade.

Apesar de tantas asneiras que, por vezes, encontramos na comunicação social portuguesa, nomeadamente conteúdos falsos (in)justificados, em grande parte, pela ânsia de se dar primeiro a informação e por isso não validar convenientemente os factos, ou pela ânsia de se conseguir mais espectadores, mais leitores e quiçá mais anunciadores… hoje temos uma comunicação social sem censura, que pode investigar e divulgar posições contrárias sobre um mesmo assunto, promovendo até, imagine-se, debates políticos com pessoas de diferentes forças partidárias.

A censura era agressiva com jornalistas, redatores e também com artistas. Aliás, não é difícil que forças partidárias e agentes políticos sintam incómodo com artistas e as suas obras de arte apelando à crítica do Estado da Nação. Por isso, só se viam os filmes que o regime autorizava – que eram, por norma, aqueles que serviam ou para entreter as pessoas, impedindo-as de pensar nas suas misérias; ou transmitiam as ideias que o regime pretendia transmitir – e também só se liam os livros que a censura deixava passar ou da forma que a censura permitia que fossem publicados. A poeta Maria Teresa Horta chegou a ser espancada por três homens. Disseram-lhe “isto é para aprenderes a não escreveres como escreves”. Porém, Maria Teresa Horta, inclusivamente nas três Marias, também fez abril, não deixando que lhe castrassem (a tão bela e sublime) poesia!

Este é, por isso, o momento de partilha intergeracional e de congregação do ideal de liberdade. É imprescindível que toda a comunidade seja envolvida nestas comemorações, desde as pessoas que integram diretamente instituições (escola, associações, empresas, etc) àquelas que estão à margem dessa associação, tendo, por suposto, os mesmos direitos.

Foi muito aquilo que não podíamos, mas que agora já podemos. Por isso, façamo-lo, com respeito pelos valores de abril e pelas tantas pessoas que lutaram por eles, e com a consciência de que nada está garantido e a luta deve ser diária, pois os últimos tempos têm demonstrado que ainda há por cá muita gente com vontade de destruir a democracia, a liberdade, os valores de abril. E olhe-se que vêm todos mais ou menos do mesmo sítio de 1974 (a ler a dissertação de mestrado de Jaime Roque, apresentada à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, com o título “A repetição dos trânsitos: uma prosopografia do Chega”, acessível em estudogeral.uc.pt).

sobre o autor
Cátia Cardoso
Discurso Direto
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