Margarida Rodrigues | “Para mim, a literatura é o fermento essencial à Humanidade, e a literatura infantil é a garantia para que cresçam homens verdadeiramente humanos”

A propósito do Dia Internacional do Livro Infantil o DD decidiu entrevistar Margarida Rodrigues, autora arouquense com 3 obras infantis publicadas, e também nossa colaboradora mensal. Durante a conversa a escritora revelou pormenores sobre o seu percurso académico e profissional, de onde surgiu o seu amor às letras e à literatura infantil, qual a sua importância para crianças e jovens, além de relevar quais as estratégias que a seu ver vão permitir que no futuro se leia mais e com maior qualidade.

DD- Fale-nos um pouco sobre o seu percurso académico e profissional e se enveredou pela sua profissão e hobby pelo amor às letras e à literatura?

MR-Apesar de considerar ter um leque diversificado de interesses, gostei sempre das letras e das humanidades. Hoje posso dizer que são as ciências sociais e humanas as minhas prediletas.  No terceiro ciclo, o gosto pelas letras manteve-se e foi nessa altura que percebi que além de ler e de escrever, também gostava de interpretar e de partilhar reflexões, perceção que me levou a matricular-me na área das Humanidades no ensino secundário.

Além da licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas e do mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes, pela FLUP, concluí também uma pós-graduação em Educação e Bibliotecas, na Universidade Portucalense. Outro marco decisivo foi também o facto de eu ter sido dirigente associativa juvenil na extinta Associação Cultural Jornal Jovem de Alvarenga, e sido redatora do jornal mensal, onde escrevi e tornei públicos os meus primeiros textos/artigos, com apenas 15 anos de idade. Diria que até hoje, apesar de ter trabalhado noutras áreas, sempre me senti mais confortável e feliz na área da Cultura, das Letras, Humanidades, Línguas e Literaturas. Sinto-me uma privilegiada por poder trabalhar em todas elas, em simbiose, e estar rodeada de livros, leitores e apaixonados pela escrita, como eu.

DD-Margarida qual é a sua ligação à literatura e principalmente à literatura infantil?

MR-O facto de em minha casa não haver livros, não me impediu de crescer a ouvir histórias, contos, fábulas, adivinhas, jogos e canções, hábito que era regular nos longos serões de Inverno, à lareira. Ouvia histórias fixadas e contadas pelos meus pais, na sua forma oral. Este foi o meu primeiro contacto com a literatura, de tradição popular, de autoria coletiva e anónima. Não sei se poderemos limitar essa literatura tradicional à infantil, mas de qualquer forma, considero-a literatura de primeira ordem e de excelência, porque filtrada pelo uso e pelo passar do crivo do tempo.  Para mim, a literatura é o fermento essencial à Humanidade, e a literatura infantil é a garantia para que cresçam homens verdadeiramente humanos. Em tudo o que vejo e me rodeia eu penso-o e sinto-o como Literatura, conceito aparentemente tão simples, mas tão complexo de definir, limitar e explicar. Gosto também de literatura infantil porque através desta é-me permitido contactar mais com crianças e sentir contribuir para a sua aprendizagem e descoberta do mundo.

DD-Numa altura em que cada vez mais cedo as crianças têm acesso às redes sociais e à tecnologia, que tão nefastas consequências têm para a sua socialização, autoestima e formação de personalidade, qual a importância da literatura infantil para estas crianças e jovens?

MR-O avanço tecnológico é uma realidade da qual não nos podemos abstrair e apesar de ser muito vantajosa, traz também alguns prejuízos. Com esta mudança de hábitos, há competências motoras e psicológicas que se perdem, ou que não são devidamente desenvolvidas. Tudo é acessível e passível de ser pirateado no mundo das TIC e das Web. Há uma realidade virtual que é dificilmente controlada. Com isto perdem-se direitos de autor e sem autores remunerados, perdem-se autores e recursos controlados.

Não sou contra as tecnologias, pelo contrário, mas continuo cética relativamente à perenidade do que deve ser perene. Fazendo a analogia, quanto tempo durou uma disquete? E o CD rom? E o DVD rom? E o DVD? Quanto tempo dura uma pen? Um disco externo? Os portáteis agora nem leitor de CD ou DVD têm. Os aparelhos mudam constantemente, a evolução tecnológica é veloz e com tanta velocidade, muita coisa importante se perde. Confesso que sou cética relativamente à desmaterialização, porque facilmente a informação é deturpada, manipulada e apagada, e facilmente os equipamentos ficam obsoletos e compromete-se a compatibilidade.

A sociedade deve ser cautelosa, prudente e equilibrada. Sou da opinião que devemos continuar a privilegiar o convívio e a comunicação física e presencial, em redes reais, em contexto familiar, escolar, social e profissional, tal como devemos continuar a privilegiar o contacto com o livro, a literatura, a música e a pintura, em suporte físico, concreto e palpável. É também pela literatura infantil que as crianças assimilam os conceitos de Bem e de Mal e de justiça, verdade e amizade, noções extremamente necessárias à formação da personalidade e à socialização, primeiro em contexto familiar, depois em contexto escolar e, por fim, em contexto profissional.

É através da literatura infantil que as crianças aprendem também as regras de etiqueta e como se devem comportar com o outro.

DD-Durante a sua infância lia muitas obras infantis? Qual foi a ou as que mais a marcaram?

MR-Como referi anteriormente, na minha infância não tive acesso a muitas obras infantis, nem a muitos livros. Lembro-me do fascínio que senti ao ver, tocar e desfolhar os manuais escolares dos meus irmãos mais velhos, ainda eu não tinha ingressado na escola primária. Os manuais escolares foram os meus grandes companheiros até aos 10 anos de idade, e alguns deles tinham passado do meu irmão Nuno para mim. Os textos infantis com os quais tomei conhecimento eram sobretudo excertos de grandes autores de literatura infantil que vinham nos manuais escolares. Gostava especialmente dos contos dos irmãos Grimm, de poemas, lengalengas e rimas. Não me lembro de nenhuma obra ou autor que me tivesse marcado de forma especial até aos 10 anos. Comecei a identificar-me com autores sobretudo a partir dos 13 anos, no liceu e aí, sim, marcou-me O Cavaleiro da Dinamarca, A menina dos Fósforos, entre outros. Os meus autores prediletos eram Sophia de Mello Breyner Andresen, e autores como Charles Perrault, Hans Christian Andersen, entre outros.

DD-A seu ver qual vai ser a estratégia no futuro para fazer com que as crianças e jovens leiam cada vez mais e com qualidade?

MR-Penso que o ingrediente principal para promover a leitura deve ser a facilitação no acesso a obras de qualidade literária e estética, associadas a referenciais adequados às crianças que supram necessidades, vão ao encontro dos seus interesses, e que sejam simultaneamente adequados ao seu estádio de desenvolvimento.

DD-Qual é a sua grande inspiração para escrever? Normalmente inspira-se em situações do dia a dia, na sua memória, ou necessita de uma viagem ou outra experiência para começar a criar?

MR-Não tenho nenhuma grande inspiração para escrever, nem preciso de criar um ambiente especial para o fazer. Quem me conhece sabe que escrevo com relativa facilidade e que o difícil para mim é parar de escrever e ser sintética. Tenho propensão para escrever parágrafos longos, e sei que nem sempre sou de leitura fácil. Já escrevi inspirada em situações traumáticas, reais e revoltantes. Já escrevi sobre figuras e mitos que continuam a inspirar-me e que creio serem exemplos de vida e de superação. Já escrevi inspirada em lendas, superstições e memórias coletivas.

DD-Qual o nome dos seus livros e onde podem ser adquiridos?

MR- Os meus livros chamam-se: “Há incêndio na floresta”; “Mafalda Sanches: Princesa, Rainha e Beata de Portugal” e “Bruxas da Serra”, os livros estão impressos também em Versão Braille.

Podem ser adquiridos na loja online da editora Trinta por uma Linha, na Wook, nas livrarias locais e na loja Katita, em Arouca. Em Alvarenga, na casa Andersen, em Trancoso. As edições em braille podem ser adquiridas no Centro Albuquerque e Castro da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que prestam um verdadeiro serviço público garantindo o acesso à informação aos invisuais e a pessoas com baixa visão.

DD- Recebeu críticas positivas pelo seu trabalho? Qual foi a crítica positiva que mais a marcou?

MR-Nestes 5 anos tenho sido muito feliz enquanto autora. Desde o primeiro instante senti o apoio de todos os que me são queridos e tive a honra do meu primeiro livro ter sido apresentado no Mosteiro de Arouca, com apoio da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda, pelo Secretário de Estado da Proteção Civil, Artur Neves, naquela que foi a sua primeira visita oficial à sua terra Natal, em representação do governo. O que mais me marca até hoje é saber que os livros que escrevi têm leitores, contribuem para o excelente trabalho das escolas, alimentam o gosto e os hábitos de leitura e promovem a articulação entre a literatura e as artes, entre o imaginário e o real com uma boa dose de magia e de mística.

DD-É mais difícil escrever livros infantis do que os restantes livros de outros géneros? Se sim porquê?

MR-Defendo que todos os géneros e tipologias textuais têm especificidades próprias e estruturas mais ou menos rígidas, que normalmente são respeitadas e que facilitam ou dificultam o ato de escrever. Penso que a escolha do género literário depende dos gostos pessoais e da motivação dos autores. Talvez o género mais difícil de escrever e de publicar seja o teatro. Pessoalmente é me mais fácil escrever contos para crianças e jovens.

DD-Acha que Arouca com a sua história, simbologia, fantasia e lendas tem material que chegue e sobre para a criação de conteúdo literário infantil?

MR-Arouca tem um património diversificado e de excelência e culturalmente é muito rico. Não faltam motivos nem temas que sirvam de mote à escrita de literatura, quer seja para jovens e adultos, quer seja para crianças.

DD-Além de escrever também gosta de ler as suas obras às crianças? Elas apreciam? Ficam empolgadas? É gratificante ver a felicidade no rosto de uma criança após ser transportada para um mundo ficcional/imaginativo/ de fantasia?

MR-Gosto imenso de ler para as crianças! Só através do contacto direto é que podemos ter o retorno da receção dos leitores/ouvintes, e até hoje o ato de ler para grupos tem sido sempre muito prazeroso e estimulante. É muito gratificante perceber que a mensagem dos livros é assimilada pelas crianças, que as diverte, as educa, as sensibiliza, as fazem imaginar e criar e as ajuda a crescer e a desenvolver. E os sorrisos e os abraços sinceros, inocentes e desinteressados são as melhores recompensas que se podem receber.

DD- Os seus filhos são seus fãs? Já dedicou ou deseja dedicar-lhes uma das suas obras?

MR-Como mãe, quero acreditar que os meus filhos são os meus maiores fãs. Como em tudo na vida, os projetos de vida começam em casa, ao lado e com os nossos. Ter o aval deles é sem dúvida importante e sentir o seu reconhecimento é o maior incentivo.

Apesar de não estar escrito no livro, “Há incêndio na floresta” foi escrito para o meu filho, como forma de abordar a temática dos incêndios de forma artística e criativa, com uma grande vertente pedagógica, e porque na altura não havia literatura infantil publicada sobre o tema. Já o livro “Bruxas da Serra” é de certa forma dedicado à minha filha, porque fala do poder, força, coragem e intuição da mulher, aliada à condição física uma certa mística que é difícil de explicar, mas que se sente existir.

Texto: Ana Castro

Em contexto didáticouma criança
Versão em Braille
sobre o autor
Ana Isabel Castro
Discurso Direto
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